5 de out de 2012

Já comia umas panquecas

 Tenho de regressar à tradição do pequeno almoço de Domingo!
 
 
 
Panquecas com aquele molho maravilhoso Aunt Jemima!
 
 
 
O molho Aunt Jemima!
(Tarefa: vou à procura dele no Supermercado Americano em São Sebastião)
 
 
 
Que panquecas tão alinhadinhas! Ah, o pequeno-almoço de Domingo vai ser tão bom!
 
 
 
(Humm. Nada saudável.)
 
Isso é que era bom! Farinha de trigo integral e stevia em pó em vez de açúcar!
Para o molho, melzinho puro do melhor!
(O Aunt Jemima, pois, fica para os super gulosos cá de casa).
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Mudar! Mudar!


Apetecia-me colar um mega autocolante numa das paredes cá de casa. Se calhar não fica muito bem colar a Torre de Pisa nas nesgas entre os quadros que cobrem as paredes por todo o lado. Acho que nem cabe. Posso deitar os quadros fora e colar a Torre de Pisa.
Ou a Torre Eiffel .

Dentadas com letras e daqui para a frente muda tudo

Fora a literatura.

Tanta letra para quê quando temos, entre outras coisas, as Word Cookies com que nos entreter?

É ler e comer! Comer e ler, frases curtas e já está.

Gosto!

Tudo sobre as bolachas aqui .

30 de mai de 2011

Mas não

Há rochas porosas, miríades de pequenos buracos e imperfeições, de tantas que são impossíveis de contar. Rochas, no entanto, calcárias, esboroáveis em nada, pó do pó até ao nada. Outras rochas há impossíveis, calcárias na superfície, basálticas no âmago, parecem esboroar-se com a erosão do amargo, das intempéries, dos arremessos agressivos do tempo e dos dias, mas não. Rochas, pequenas que sejam, mas duras e resilientes, até parece que se vão desfazer com mais um vento agreste, assopradas, vergastadas, caem dos rochedos lá no alto e pensam que se vão estilhaçar em mil, mas não. Embate brutal, uma vez após outra, ou erosão vagarosa das idades que passam, e pensam-se esboroadas em nada, pó do pó até ao nada -  mas não.


Rochas que crescem, camada após camada depois de desfeitas em pó do pó até ao nada, adubadas pela nortada, nutridas pela espuma das ondas, crescem as rochas altaneiras, seguras, persistentes até ao fim. Cordilheiras de vida, florestas e rios e pessoas que lhe crescem em cima e nelas vivem sem se esboroarem em nada, pó do pó até ao nada, vida renascida em cada lágrima e doce sombrear da voz numa prece serena, numa promessa de amor, num lamento, num riso cristalino de esperança renascida todos os dias, mal o sol desponta no horizonte. Eram para não ser - mas são.

1 de nov de 2010

Ondina

 À vista dos escolhos da praia, duros, escuros, imóveis, brilhantes da água que lhes bate mas insensíveis à frescura das ondas, chegou a ondina à espuma quebrada sobre as conchas do mar.

Cansada de tanto nadar, descansou a cara na areia fresca deixando que os olhos se banhassem na água salgada, cardumes de peixes cor-de-prata nadando por perto, estrelas do mar tecidas nos cabelos negros espalhados à luz da lua.

Agitam-se as rochas imóveis ao sabor de uma brisa morna que passa por perto, quente de risos de verão, memórias deixadas ao acaso nos seixos rolados da praia, da praia perdida da costa sonhada que nunca existiu.

Olho e já não vejo a ondina deitada na espuma das ondas, de cabelos negros espalhados nos seixos brilhantes à luz da lua quebrada pelas núvens negras e o vento norte.

A praia serena, molhada pelos beijos frescos das ondas de espuma e sal, devolve-me a paz na certeza de um dia sonhar este sonho outra vez. Olho para baixo e vejo os meus pés, verniz vermelho escamado nas unhas e falta de creme nos calcanhares. Queria ver escamas de prata e gotas de água fria, areia molhada numa poça debaixo de mim, mas o chão devolve-me os desenhos geométricos e as cores triplas do tapete persa e as minhas sandálias espalhadas de um lado e outro dos meus pés humanos.

Foi-se a ondina com as ondas da praia e ficou o desejo do sonho da costa sonhada que nunca existiu.

21 de set de 2010

Onde estaria?

Escondera-se, não sabia onde. Se calhar por trás daquele alinhamento de seixos polidos à beira da duna, tão certinhos que lá estavam a dormir ao sol nos dias compridos e nas noites frias. Ou para além das paredes grossas da casa escura onde tentava tricotar a nova camisola de vida à medida do dever dos dias.

Escondera-se, onde andaria? Não o via, aquele desejo de qualquer coisa mais que não fosse o remendar daquela cauda imensa do rasto imenso da vida passada. Não queria viver para remendar. O sapateiro remendão não precisa mais que uma lamparina a óleo rançoso, linha, couro e as agulhas certas para tapar os buracos do uso e disfarçar a podridão do couro. Uma lamparina de óleo rançoso não mais ilumina que meia dúzia de palmos à frente do nariz. Não queria viver para remendar e acendia as luzes todas pela casa fora, contrariamente às mais sensatas recomendações de poupança de energia, recursos e dinheiro, o planeta que aguentasse pois a sua própria vida precisava de luz que lhe mostrasse o caminho mais que meia dúzia de palmos. O caminho de casa, dentro de casa, de um corredor ao outro, de uma sala à outra, que importava. Luz. E mesmo com tanta luz, escondera-se. Onde estaria?

Não se lembrava de ter sossegado a alma dentro de uma fiada de gavetas bem trancadas à chave mas se calhar era isso que tinha acontecido. Acendeu as luzes todas e procurou o armário, o móvel de gavetas, as gavetas, lá estavam as gavetas da memória armazenada que a cada dia se desvanecia, apagando-se um passado para dar lugar a outro. E lá estava a gaveta do futuro prometido onde o caminho da revelação se desdobrava límpido e claro debaixo dos pés, e era só segui-lo, pois seguia, vincado e nítido, pela vida fora. E era só ver onde iria dar, mas não, estava trancado na gaveta enquanto segurava a linha e o couro e a lamparina de óleo rançoso e os sapatos cambados de tanta vida pisarem.

Onde estaria? A chave estava na gaveta, mas deixou ficar a dúvida. Provavelmente, aquela gaveta mais não tinha dentro que meia-dúzia de pastas antigas com declarações de IRS preenchidas à mão e extractos bancários em escudos.

Por cima da cabeça quatro andares de tijolo e betão e só então por cima o céu.

Onde estaria aquele céu? Desmaiado agora pelas luzes amarelas de Lisboa, desaparecera de vista, sumira-se num sopro de desalento. Para voltar a acordar na manhã seguinte a espreguiçar as nuvens que teimavam em anunciar o Outono para logo fugirem e darem lugar a dias radiosos e quentes, se passados ao fresco, ou infernais e stressantes, se tivesse de se meter no carro sem ar condicionado e atravessar a cidade histérica da rentrée política e do regresso às aulas no Continente.

Estaria bem onde estivesse, e que descansasse em paz! E agora iria atacar o visco sangrento que voltara em vingança furiosa e não parava de escorrer, lavada pelas águas santas da banheira que não paravam de correr.

10 de jun de 2010

Neblina







Eram sete véus de neblina clara e fina que abraçavam o ziguezaguear do caminho de terra batida. A cada curva, a neblina adensava-se em veios amarelados e húmidos que roçavam o nariz e ondulavam ainda mais o cabelo despenteado pelo vento agreste e solto. Estava quase a chover mas ainda não. Ameaçavam os bagos grossos de chuva ainda trancados nas núvens sem se decidirem, no entanto, a descer os fios de neblina como acrobatas de circo, de cabeça para baixo, água a escorrer na água, orvalhada de amanhecer na orla da tempestade.

Dava passos incertos na berma do caminho que descia agora a ravina em direcção à praia. Chorões gordos e cravos romanos em plena floração beijavam-lhe o couro dos sapatos gastos pelas pedras do caminho que conhecia de cor. As pedras, conhecia-as uma a uma, testemunhos silenciosos do desassossego brando que lhe inquietava a alma naquela procura do momento da revelação nos livros, no mar, na brisa morna das tardes claras, no afundar dos pés doridos nas areias frias à beira-mar. Fechava os olhos e esperava que fosse essa a hora em que visse para além da cegueira dos dias. Em vão.

Um dia atrás do outro descia a ravina pedregosa com passos incertos em direcção ao mar, na busca inquieta das certezas que nunca são. Um dia atrás do outro, até que o Outono se fundiu no Inverno, que acordou na Primavera, que morreu no Verão.

Para o João Carreira, no seu aniversário
9 de Junho de 2010

30 de mai de 2010

Invisível



Sou inútil. Não sirvo para nada. Sou um achado de conveniência com horas de utilização limitadas. Convenho, é isso. Por vezes, quando dá jeito. Submeto-me aos padrões alheios desejosa de agradar e quando dou por mim deixei de ser eu. Não tenho voz própria, não posso. Sou uma sombra do que era, a alegria deixou de me visitar todos os dias e já não entra na minha janela grande aos quadrados de vidro. Não sei para onde vou. Todos os dias tento pisar o caminho que me leva àquele lugar verde de paz e flores mas estas pedras pesadas e rugosas caem-me em cima, as pedras da negação, do medo de ir mais longe, já, agora.

Abandonou-me toda a urgência de felicidade aqui e agora. Ou mais tarde, um dia quem sabe. Os momentos de felicidade do pequeno prazer, da circunscrita alegria que constroem sabiamente a leveza dos dias passam por mim e não me veêm. Estou invisível. Sou-o. Não tenho sombra, nem paz, nem alma. Deixei de ser eu e já não me encontro na brisa do Verão nem no orvalho das manhãs.

Tomem-me como sou e extingam-me vez.

20 de mai de 2010

Pés feridos

Teimava em pisar a relva luxuriante e gorda de flores e orvalho, mas quando afundava o pé tocava na pedra árida e seca, estéril de néctar e de desejo. Um pé, agora o outro, e voltava para trás, fechava os olhos e via o prado verde-choque, Lucy in the Sky with Diamonds. Uma barbaridade de cores e sons, cheiros inebriantes de desejo e carne transfigurada em amor e suor e risos fininhos de malandrice e piadas parvas.

Campos de trigo e chupa-chupas de espirais às cores, borboletas gigantes, sorridentes e com óculos, casas feitas de bolotas com janelas de chocolate e lá dentro a bruxa má, a roca e o fuso da Bela Adormecida que acordou há séculos atrás e não quer dormir mais.

Os pés escaldantes tocavam a pedra árida e rugosa escaldante partida pelo calor escaldante de um sol impiedoso e claro, escaldante e sem sombras, que tudo mostra e tudo vê. Penetrava a luz impiedosa do sol escaldante pelas coisas adentro e mostrava-as, cruas e despidas como eram na verdade, ramelas pela manhã, uma manta de fios de seda finos e quebradiços se não forem tecidos com desvelo e cuidado pelas mãos sábias que cuidam da roca e do fuso.

Pés feridos pela rejeição disfarçada do adiamento constante do prazer de pisar a relva gorda de flores e orvalho, encontram a rocha árida e partida pelo sol escaldante de luz crua e impiedosa que tudo disseca, ilumina e abafa.

8 de mai de 2010

Flutuante

Debaixo daquela tempestade havia blocos de cimento transparente que não assentavam no chão. As folhas amarelas daquelas árvores pitorescas, de fartas cabeleiras verdes, esvoaçavam em água moídas pelo vento impiedoso e ciciante. Era um vento ciciante, gago de golfadas violentas e fúria incontida, que cuspia as flores amarelas das árvores cabeludas tentando, em vão, derrubar os blocos de cimento transparentes que não chegavam ao chão.

Era uma imagem difusa de chuva e gotas grossas a escorrer lentamente pelo pára-brisas, tantas que eram as flores amarelas coladas ao vidro pela água da chuva e pela pressão da ventania.

Acordava, agora, lentamente, e via os blocos de cimento transparentes que não faziam sentido, cimento flutuante na tempestade violenta, que não arredava pé do meio do ar em que assentava, recebendo indiferente as bátegas grossas da chuva e as cuspidelas do vento norte.

Abriu o outro olho, depois do primeiro, as paredes brancas do quarto sem pétalas amarelas coladas pela chuva e pelo vento, brancas e nuas, de pregos pintados por cima pela preguiça de encontrar um alicate antes de lançar o rolo com a tinta mais branca que havia na loja das tintas, depois de se arrepender à última da hora do azul céu com que as quisera pintar.

Fora-se o cimento flutuante debaixo das pétalas amarelas rodopiantes pela chuva. Acordara por fim de mais um sonho absurdo, o preenchimento das horas vazias do repouso dos justos e da preparação dos guerreiros para o dia seguinte. Batalhas campais sonhadas em blocos de cimento leves como o vento violento que sopra as folhas cabeludas das árvores amarelas absurdas num fim de tarde cinzento e frio. 

31 de jan de 2010

Eram as pedras e o mar
E a areia que o levava
Levava a areia o mar revolto
Que nela se afogava, agradecido.

Era o céu de núvens manchado
E azul também um dia
E a terra molhada de amor
Encharcada de vento soprado.

Procurava o vento a água
Para a terra molhar de amor
Do céu arrancava as núvens
Que se partiam molhadas de dor.

De paz e guerra chorava o mundo
Resignado às curvas da vida
De paz e guerra chorava o homem
Que de uma noite amanhecida
Em dia que não mais acabava
Moldava o tempo curto que o separava
Do amor que lhe curava a ferida
Do tempo austero que lhe roubara
Dos olhos o sorriso e da alma o sonho.

13 de jan de 2010

Apenas porque sim


Fazia-se a avenida de sete estradas a direito recortadas pelos ramos das árvores plantadas no centro, alinhadas, aprumadas, generosas, centenárias. Abraçavam as árvores três estradas à direita mais quatro à esquerda, a quem cumprimentavam os ramos oscilantes pelo vento que não parava. Tão grandes eram as árvores que sombreavam duas das três estradas à direita e pelo menos três da esquerda, quando o sol despontava quente e sem misericórdia nas manhãs de Julho. Mas isso era lá mais para a frente, o Verão, que tardava a chegar simplesmente pelo facto do calendário marcar o mês de Janeiro ainda sem ter alcançado o meio, não porque o Inverno se prolongava mas porque nem a Primavera ainda tivera licença de se abeirar da estrada e fazer despontar qualquer botão de rosa ou mesmo de amendoeira nos campos para além da cidade, os do sul a debruarem o mar do Algarve pintalgados de branco e amarelo.

Concentrou os olhar no letreiro de néon azul e branco gigante do banco do outro lado da estrada e depois nas bolotas, que de bolotas nada tinham, penduradas nos ramos despidos dos plátanos que quase lhe batiam na janela. Aquilo tinha um nome, decerto, que a classificação de Lineu ou lá o que era identificaria algures num compêndio daqueles que listam todas as árvores, suas categorias e frutos, aquelas bolas com sementes lá dentro, como é que era mesmo que se chamavam quando as árvores não davam fruto. Que interessava. O tempo passava agora distraidamente, permitia-se agora que o tempo passasse distraidamente, cansada que estava de fazer e planear e dobrar e arrumar e manejar as horas do dia e também as da noite para caberem no tapete de vida que se lhe desenrolava todos os dias debaixo dos pés.

Se pintasse pintaria agora os ramos do plátano com as suas bolotas que não eram bolotas a tremerem ao vento de Janeiro, o vento da chuva que caía sem misericórida sobre a estrada que era sem misericórida massacrada pelos carros que sem misericórdia a pisavam dia e noite debaixo da janela. Atrás, um candeeiro de rua magro e espadaúdo de luzes duplas amarelas, um chifre para cada lado, e ainda mais atrás as arcadas do mamute gigante do banco, testemunho moderno e de dias contados da grandeza passageira dos homens, do dinheiro e do poder.

Não eram sete as estradas da avenida, mas podiam ser, aquela avenida de desejo e frescura onde viviam as árvores centenárias que a abraçavam e sombreavam nos dias de Julho que haveriam de vir. Mas que importava. Tinha agora os ramos do plátano despidos de folhas mas cheios de vento e bolotas que não eram bolotas. Chegava-lhe isso, tal como lhe chegava a oferenda dos dias tal como eles eram, e da vida tal como ela era, por muito que protestasse e se revoltasse contra o que queria e não queria, chegava-lhe a vida tal como ela era.

Em agradecimento por tudo aquilo que não tinha e que não queria, baixou a cabeça e sorriu de tanta tonteira e querer e desejo que apenas serviam para preencher as horas de preocupação e ruído. Queria paz, afinal de contas. E isso não lhe faltava e era o que interessava. Tudo o resto é passageiro, tirando a paz, pois no final tudo o que fica é a recordação da luz de um fósforo acabado de acender.

25 de nov de 2009

Chopin


Era aquele desconforto que não conseguia escalpelizar em palavras. Aquela sensação de receio, perigo, ameaça, sensação indefinida que não sabia atribuir a nada de concreto. Três passos fora da rota do dia-a-dia reavivara-lhe memórias do passado construídas de sons familiares e música debaixo dos dedos. Das poucas vezes que chorara um choro convulsivo e irracional fora agarrada a uma aparelhagem antiga que debitava chopinadas sublimemente xaroposas pelas mãos de Horowitz, e as lágrimas rolavam e atropelavam os soluços que lhe estalavam na garganta em golfadas sufocantes. Mais de vinte anos se tinham passado desde então e nunca mais nada do género se passara. Chopin passara a ser um amigo meio esquecido na prateleira das partituras, reanimado de vez em quando no teclado através de uma mazurka aqui, um prelúdio ali, passara-lhe com os anos a ligação anímica e violenta que tinha à sua música.

Regressara-lhe em doses milimétricas e escondidas entre as núvens do tempo o sofrimento inexplicável que aquela música lhe trazia. Nada de paz, era uma beleza torturada que lhe saía debaixo dos dedos de cada vez que o tocava, que lhe feria os ouvidos numa reacção sado-masoquista de cada vez que o ouvia. No entanto, de tanto repetir, banalizara-se o sofrimento e o repertório e deixara-o de o ser. Simplesmente. Podia ser isso, a banalização, a habituação, como aconteceu depois da Guerra da Bósnia, da Guerra do Golfo em directo, a banalização da violência e dos ataques dos mísseis em directo deixaram de nos violentar a alma à hora do jantar para passar a fazer parte da música de fundo da violência habitual do mundo.

Como explicar isto, nada disto é explicável, tal como o amor não é explicável, tal como as contracurvas de uma existência que arrisca os passos do dia-a-dia não são explicáveis, acontecem. Esta sua busca incessante da racionalidade para explicar o que não se explica esvaziou-a de sentido durante tempo demais, retirando-lhe o entusiasmo pela novidade, o mundo deixou de ser uma novidade pelo barulho constante que emite e as banalidades que grita nos microfones, nas televisões e nas conversas de manicure.

Chopin, agora, regressado dos mortos enterrados na prateleira das edições Urtext, dedilhação sobre dedilhação, anos de morosidade e estudo para o meter debaixo de mãos, trouxera-lhe a inquietude daqueles breves minutos a soluçar descontroladamente abraçada à aparelhagem antiga. Ainda se lembra, nem sequer era um LP, uma cassete dos Prelúdios, o sorriso em V do Horowitz recortado entre os dois orifícios da fita magnética e as lágrimas a escorrerem feitas estúpidas numa catarse sem qualquer tipo de explicação ou lógica.

Chora-se, diz-se, porque se sofre de uma coisa qualquer específica, porque se perde isto ou aquilo, porque não se consegue tal e tal, porque se é agredido, ou injustiçado, ou falsamente acusado, o rol não acaba mais do que dá origem a tanta lágrima que para aí anda. Portanto, chorar agarrada a uma aparelhagem a debitar Chopin é, concerteza, sinal de esquizofrenia, doença mental aguda ou outra coisa qualquer que se trata com remédios daqueles que só se vendem com receita médica.

Hoje viera-lhe esse episódio à cabeça e, mais uma vez, ficara a tamborilar, inquieta, desconfiada desta sua alma estranha que não sabia chorar pelas coisas normais porque se chora, e que só abria as comportas dos olhos por razões irracionais que a mente desconhece e o coração não decifra. O mal do mundo – esse, quem sabe, e pelo qual chorava espaçadamente e que, sem aviso, a fazia verter lágrimas abundantes – estava contido naqueles prelúdios tocados pelo pianista russo naquela cassete velha rasgada pelo seu sorriso sardónico.

O mal do mundo e a tristeza feitos música nunca antes nem depois ultrapassados.

23 de nov de 2009

Na minha rua

Ponho os dedos ao teste e observo o que sai. Sento-me porque não me apetece fazer mais nada e quebro à vontade da preguiça, cedo-lhe o espaço que precisa para se instalar em mim uma vez mais. É um novo hábito este, o da preguiça, e que me sabe tão mal. Arranjo assim justificação para fazer qualquer outra coisa que não seja nada, e escrevo, deixando os dedos vaguear no teclado à procura de um rumo.

Sete cintilações de luz diversas viram os meus olhos hoje no intervalo das árvores da minha rua. Uma rua de Lisboa com pessoas e carros e casas e árvores e sem-abrigo aos gritos nas esquinas porque até a preguiça da loucura os abandonou e gritam por, presumo, não terem mais que fazer. São dois os que gritam: um abre a boca e berra, solta uns urros altos e ritmados, de repente, quando menos se espera. Urra o sem abrigo no seu canto imundo que ninguém cuida, à porta do banco milionário que não o vê. O outro estacionou há meses à porta do Mini-Preço e grita para os clientes, sorrindo ao mesmo tempo. Grita frases ininteligíveis, solta dizeres em espanhol da boca sempre sorridente, dentes espantosamente brancos contra a pele negra e luzidia. Barrete na cabeça, estende um copo de plástico que nos empurra cara adentro obrigando à moeda. Não dou. Empurrei-o no outro dia, “hey, tira a mão!” ameacei com um ar mau, que me incomodava tanto grito à porta das minhas laranjas e dos meus bifes e requeijões. Tinha-lhe dado um euro, um ou dois dias antes, missão cumprida, agora não me grites mais. Mas lá estava ele, e está, sempre a gritar. “Aaaaahhhhhhhhh, ióoooooooooooooohhhhhhhh!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” “Heeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, ióoooooooooooooooohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!! E não pára, fica ali aos gritos. Depois cala-se e pede “moneda, señorita”. Não tem mais de 25 anos, são e escorreito do pescoço aos pés e cabeça avariada para além de todo o remédio.

Venho para casa carregada de sacos de supermercado e eles gritam lá ao fundo, um na esquina, o outro no passeio à frente do Mini-Preço. Canso-me da crueza da vida e da crueldade e injustiça e blá, blá que todos sabemos raio de vida insana, e os outros que não gritam e convivem de garrafa na mão nos bancos nojentos de dejectos de pombo debaixo das árvores. Estendidos lá ficam tardes inteiras debaixo dos pombos de garrafa na mão e conversam as suas conversas de sem-abrigo como nós temos as nossas conversas abrigadas entre quatro paredes de tijolo que nos isolam da chuva e do mau cheiro da sarjeta.

Está frio hoje, talvez não tanto quanto seja razoável para que justifique estar enrolada em mantas de lã aos quadrados, mas tenho frio. O frio até certo ponto acorda-me os sentidos e aguça-me a mente e hoje serve para me dar um ímpeto acrescido a fazer as coisas que tenho de fazer. Não dou tréguas à preguiça, afinal de contas, que se escapava da lâmpada mágica do Aladino que tenho ali atirada para um canto, a preguiça que sai lá de dentro de quando em vez em forma de génio e me promete desejos instantâneos sem eu ter de fazer nada. Vade retro, hoje não tens nada de mim: estou em modo eficiente e acabo agora isto como comecei: porque sim, para testar os meus dedos que são autónomos do meu cérebro e escrevem o que lhes apetece neste teclado branco mas que já vai precisando que vá buscar um algodão embebido em álcool para lhe puxar o lustro. Que é como quem diz, limpar as manchas cinzentas que os meus dedos lá têm deixado ao longo dos dias de tanto lá baterem.

Na minha rua calaram-se os urros do desespero ou da insanidade, há muitas horas. Dormem, decerto, no torpor do vinho de pacote estendidos na imundice da calçada já castanha que ninguém já quer lavar. Mas é uma rua bonita, como a vida, suja e limpa, triste e alegre, e barulhenta de gente e coisas como se quer uma rua de Lisboa onde a luz cintila em sete cores por entre as folhas das árvores. Gosto da minha rua e amanhã, em calhando, sorrio de volta ao residente da porta do Mini-Preço e talvez, quem sabe, lhe dê mais uma moeda.