20 de mai de 2010

Pés feridos

Teimava em pisar a relva luxuriante e gorda de flores e orvalho, mas quando afundava o pé tocava na pedra árida e seca, estéril de néctar e de desejo. Um pé, agora o outro, e voltava para trás, fechava os olhos e via o prado verde-choque, Lucy in the Sky with Diamonds. Uma barbaridade de cores e sons, cheiros inebriantes de desejo e carne transfigurada em amor e suor e risos fininhos de malandrice e piadas parvas.

Campos de trigo e chupa-chupas de espirais às cores, borboletas gigantes, sorridentes e com óculos, casas feitas de bolotas com janelas de chocolate e lá dentro a bruxa má, a roca e o fuso da Bela Adormecida que acordou há séculos atrás e não quer dormir mais.

Os pés escaldantes tocavam a pedra árida e rugosa escaldante partida pelo calor escaldante de um sol impiedoso e claro, escaldante e sem sombras, que tudo mostra e tudo vê. Penetrava a luz impiedosa do sol escaldante pelas coisas adentro e mostrava-as, cruas e despidas como eram na verdade, ramelas pela manhã, uma manta de fios de seda finos e quebradiços se não forem tecidos com desvelo e cuidado pelas mãos sábias que cuidam da roca e do fuso.

Pés feridos pela rejeição disfarçada do adiamento constante do prazer de pisar a relva gorda de flores e orvalho, encontram a rocha árida e partida pelo sol escaldante de luz crua e impiedosa que tudo disseca, ilumina e abafa.

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