25 de nov de 2009

Chopin


Era aquele desconforto que não conseguia escalpelizar em palavras. Aquela sensação de receio, perigo, ameaça, sensação indefinida que não sabia atribuir a nada de concreto. Três passos fora da rota do dia-a-dia reavivara-lhe memórias do passado construídas de sons familiares e música debaixo dos dedos. Das poucas vezes que chorara um choro convulsivo e irracional fora agarrada a uma aparelhagem antiga que debitava chopinadas sublimemente xaroposas pelas mãos de Horowitz, e as lágrimas rolavam e atropelavam os soluços que lhe estalavam na garganta em golfadas sufocantes. Mais de vinte anos se tinham passado desde então e nunca mais nada do género se passara. Chopin passara a ser um amigo meio esquecido na prateleira das partituras, reanimado de vez em quando no teclado através de uma mazurka aqui, um prelúdio ali, passara-lhe com os anos a ligação anímica e violenta que tinha à sua música.

Regressara-lhe em doses milimétricas e escondidas entre as núvens do tempo o sofrimento inexplicável que aquela música lhe trazia. Nada de paz, era uma beleza torturada que lhe saía debaixo dos dedos de cada vez que o tocava, que lhe feria os ouvidos numa reacção sado-masoquista de cada vez que o ouvia. No entanto, de tanto repetir, banalizara-se o sofrimento e o repertório e deixara-o de o ser. Simplesmente. Podia ser isso, a banalização, a habituação, como aconteceu depois da Guerra da Bósnia, da Guerra do Golfo em directo, a banalização da violência e dos ataques dos mísseis em directo deixaram de nos violentar a alma à hora do jantar para passar a fazer parte da música de fundo da violência habitual do mundo.

Como explicar isto, nada disto é explicável, tal como o amor não é explicável, tal como as contracurvas de uma existência que arrisca os passos do dia-a-dia não são explicáveis, acontecem. Esta sua busca incessante da racionalidade para explicar o que não se explica esvaziou-a de sentido durante tempo demais, retirando-lhe o entusiasmo pela novidade, o mundo deixou de ser uma novidade pelo barulho constante que emite e as banalidades que grita nos microfones, nas televisões e nas conversas de manicure.

Chopin, agora, regressado dos mortos enterrados na prateleira das edições Urtext, dedilhação sobre dedilhação, anos de morosidade e estudo para o meter debaixo de mãos, trouxera-lhe a inquietude daqueles breves minutos a soluçar descontroladamente abraçada à aparelhagem antiga. Ainda se lembra, nem sequer era um LP, uma cassete dos Prelúdios, o sorriso em V do Horowitz recortado entre os dois orifícios da fita magnética e as lágrimas a escorrerem feitas estúpidas numa catarse sem qualquer tipo de explicação ou lógica.

Chora-se, diz-se, porque se sofre de uma coisa qualquer específica, porque se perde isto ou aquilo, porque não se consegue tal e tal, porque se é agredido, ou injustiçado, ou falsamente acusado, o rol não acaba mais do que dá origem a tanta lágrima que para aí anda. Portanto, chorar agarrada a uma aparelhagem a debitar Chopin é, concerteza, sinal de esquizofrenia, doença mental aguda ou outra coisa qualquer que se trata com remédios daqueles que só se vendem com receita médica.

Hoje viera-lhe esse episódio à cabeça e, mais uma vez, ficara a tamborilar, inquieta, desconfiada desta sua alma estranha que não sabia chorar pelas coisas normais porque se chora, e que só abria as comportas dos olhos por razões irracionais que a mente desconhece e o coração não decifra. O mal do mundo – esse, quem sabe, e pelo qual chorava espaçadamente e que, sem aviso, a fazia verter lágrimas abundantes – estava contido naqueles prelúdios tocados pelo pianista russo naquela cassete velha rasgada pelo seu sorriso sardónico.

O mal do mundo e a tristeza feitos música nunca antes nem depois ultrapassados.

23 de nov de 2009

Na minha rua

Ponho os dedos ao teste e observo o que sai. Sento-me porque não me apetece fazer mais nada e quebro à vontade da preguiça, cedo-lhe o espaço que precisa para se instalar em mim uma vez mais. É um novo hábito este, o da preguiça, e que me sabe tão mal. Arranjo assim justificação para fazer qualquer outra coisa que não seja nada, e escrevo, deixando os dedos vaguear no teclado à procura de um rumo.

Sete cintilações de luz diversas viram os meus olhos hoje no intervalo das árvores da minha rua. Uma rua de Lisboa com pessoas e carros e casas e árvores e sem-abrigo aos gritos nas esquinas porque até a preguiça da loucura os abandonou e gritam por, presumo, não terem mais que fazer. São dois os que gritam: um abre a boca e berra, solta uns urros altos e ritmados, de repente, quando menos se espera. Urra o sem abrigo no seu canto imundo que ninguém cuida, à porta do banco milionário que não o vê. O outro estacionou há meses à porta do Mini-Preço e grita para os clientes, sorrindo ao mesmo tempo. Grita frases ininteligíveis, solta dizeres em espanhol da boca sempre sorridente, dentes espantosamente brancos contra a pele negra e luzidia. Barrete na cabeça, estende um copo de plástico que nos empurra cara adentro obrigando à moeda. Não dou. Empurrei-o no outro dia, “hey, tira a mão!” ameacei com um ar mau, que me incomodava tanto grito à porta das minhas laranjas e dos meus bifes e requeijões. Tinha-lhe dado um euro, um ou dois dias antes, missão cumprida, agora não me grites mais. Mas lá estava ele, e está, sempre a gritar. “Aaaaahhhhhhhhh, ióoooooooooooooohhhhhhhh!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” “Heeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, ióoooooooooooooooohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!! E não pára, fica ali aos gritos. Depois cala-se e pede “moneda, señorita”. Não tem mais de 25 anos, são e escorreito do pescoço aos pés e cabeça avariada para além de todo o remédio.

Venho para casa carregada de sacos de supermercado e eles gritam lá ao fundo, um na esquina, o outro no passeio à frente do Mini-Preço. Canso-me da crueza da vida e da crueldade e injustiça e blá, blá que todos sabemos raio de vida insana, e os outros que não gritam e convivem de garrafa na mão nos bancos nojentos de dejectos de pombo debaixo das árvores. Estendidos lá ficam tardes inteiras debaixo dos pombos de garrafa na mão e conversam as suas conversas de sem-abrigo como nós temos as nossas conversas abrigadas entre quatro paredes de tijolo que nos isolam da chuva e do mau cheiro da sarjeta.

Está frio hoje, talvez não tanto quanto seja razoável para que justifique estar enrolada em mantas de lã aos quadrados, mas tenho frio. O frio até certo ponto acorda-me os sentidos e aguça-me a mente e hoje serve para me dar um ímpeto acrescido a fazer as coisas que tenho de fazer. Não dou tréguas à preguiça, afinal de contas, que se escapava da lâmpada mágica do Aladino que tenho ali atirada para um canto, a preguiça que sai lá de dentro de quando em vez em forma de génio e me promete desejos instantâneos sem eu ter de fazer nada. Vade retro, hoje não tens nada de mim: estou em modo eficiente e acabo agora isto como comecei: porque sim, para testar os meus dedos que são autónomos do meu cérebro e escrevem o que lhes apetece neste teclado branco mas que já vai precisando que vá buscar um algodão embebido em álcool para lhe puxar o lustro. Que é como quem diz, limpar as manchas cinzentas que os meus dedos lá têm deixado ao longo dos dias de tanto lá baterem.

Na minha rua calaram-se os urros do desespero ou da insanidade, há muitas horas. Dormem, decerto, no torpor do vinho de pacote estendidos na imundice da calçada já castanha que ninguém já quer lavar. Mas é uma rua bonita, como a vida, suja e limpa, triste e alegre, e barulhenta de gente e coisas como se quer uma rua de Lisboa onde a luz cintila em sete cores por entre as folhas das árvores. Gosto da minha rua e amanhã, em calhando, sorrio de volta ao residente da porta do Mini-Preço e talvez, quem sabe, lhe dê mais uma moeda.

18 de nov de 2009

Tarde de chuva


Como é que uma tarde fria se reconfortava no jogo de luzes com que se rodeava – pensava, absorto na resolução de dois ou três problemas imediatos, daqueles que apenas tingem as horas que passam e não deixam rasto. Aquele vinho que não encontrava em lado nenhum e que prometera a Ana de presente nos anos dela, que se avizinhavam a passos rápidos, e do vinho não havia rasto, esgotada que estava, ao que parecia, a reserva nas prateleiras dos supermercados e mesmo das melhores lojas. Não se deve prometer nada, estava avisado disso mesmo desde sempre, não prometas, diz apenas que vais tentar e depois logo se vê, promessas para quê, e depois sentes-te na obrigação de as cumprir e cai-te no estômago a frustação de te sentires menor por não o conseguires.

Olhou pela janela, que o chamou pelas bátegas de granizo fino que lhe embatiam agora, o céu chorava pedras e ele tão confortável no seu jogo de luzes cuidadosamente distribuído pela sala, aquele sentimento caseiro de se sentir quente e recortado à medida do seu poiso, com tudo no lugar certo, as luzes incluídas. Luzes quentes e bem distribuídas pela sala, abatjours amarelados e uma ocasional luz mais branca no chão para não criar sombras, nada de luzes no tecto. O Inverno lá fora gritava e tentava entrar pela janela e chamava-o atirando-lhe mãos cheias de granizo aos vidros, em vão. O contraste de estar dentro e quente, aquela pequena felicidade do conforto de uma chávena de chá de gengibre quente com mel e limão para lhe atacar a tosse e a possível gripe que se avizinhava, mas até isso era reconfortante e familiar.

Tocou o telefone e atendeu. “Estás distante”, susurrou-lhe a voz chorosa de Ana do outro lado da linha, entrecortada por soluços baixinhos. Não respondeu logo, ficou a ouvir os soluços baixinhos que se ritmavam por qualquer razão com a cadência do granizo, agora mais leve, já transformado em chuva a bater nas capotas dos carros, no empedrado e nas janelas. Queria abraçá-la, passar-lhe as mãos pelos cabelos escuros e anelados, beijar-lhe as sobrancelhas finas e dizer-lhe que estava tudo bem. “Não estou. Nunca estou distante de ti, meu amor. Apenas me recolho às minhas luzes macias, hoje preciso delas e do cinzento desta tarde que me visita.”

Beijou-o Ana do outro lado da linha, até amanhã, meu amor, não apanhes frio. Não chores, nem soluces baixinho que amanhã não chove mais.

Promessas, mas havia que fazê-las para dar consistência à vida pequena. Querer muito fazer alguma coisa por alguém e comprometer-se a fazer e depois definir como objectivo chegar lá e consegui-lo. Era um acto de altruismo, pequeno que fosse, tinham-lhe ensinado mal que não se deve prometer nada. O coração mandara prometer e prometera. O vinho, as mãos passadas nos cabelos de Ana nas noites frias, uma troca de olhares muda e que tudo tem despejara-lhe o amor eterno e difícil no regaço.

O som da chuva deixara de se fazer ouvir: o Inverno mandara abrandar lá fora, por alguns momentos, as lágrimas celestes e as pessoas na rua fechavam os guarda-chuvas e atravessavam as passadeiras sem se molhar. Bebeu o último trago do chá quente e reconfortante, fechou os olhos e adormeceu.

11 de nov de 2009

Quando acordar


Era uma espécie de melaço escorrido no exterior do frasco, de consistência pegajosa, cheiro adocicado e tonalidade escura. Era esse o cansaço que sentia, um cansaço pegajoso e doce e escuro. Pouco antes, o mundo vestira-se de roupagens ricas, de veludos, brocados e sedas: que bonito era este amor desusado e sem porquê que, de súbito, se vestira de luz e se aninhara numa tocha fulgurante que a tudo alumiava.

Procuro-te, meu amor, e não te encontro. E como não estás em lado nenhum procuro-te nas ondas do mar e no rostalhar das folhas ao vento que vivem debaixo da minha janela. É um amor adivinhado este, o nosso que ainda não é amor, que é ausência e só isso, o tal tempo meu amor que me falaste e que existe para além deste tempo que conhecemos. Eram estas, assim simples e sem explicação, as histórias dos contos de fadas, acreditavas nelas? Onde andas, meu amor, que não te vejo? E como não estás em lado nenhum, procuro-te entre os meus lençóis e não te encontro, procuro-te na minha pequena história e não te encontro. Não estás dentro da minha vida, nem te sentas na minha varanda, nem já sei sequer se te vi a mostrares-me a tua alma, bela, fulgurante como a tocha que a tudo alumiava. E tão sereno, tão sereno que nem perdido pareces, meu amor. Gosto de te chamar assim mesmo sem o seres. Não és meu, nem amor, não o poderias ser, nem meu porque não o és, nem amor porque o amor é uma coisa de tempo sério e comprido e ganha com esforço e com paixão repetida e caminhos percorridos a dois de braço dado, campos de batalha conquistados, depois lá vem o amor. É isso que dizem.

Mas, meu amor, que te posso dizer senão isto: que é este o cansaço que sinto, pegajoso e doce e escuro. Não quero deixar de me cansar porque sei que, quando acordar, meu amor, tu nunca foste nem meu, nem amor, nem nada. Como o canto das aves que se calam ainda o sol não se pôs, também eu terei de calar este amor que não é amor ainda, para que ele não tenha que ser a espada de dois gumes que me vai trespassar a alma e acabar comigo. Agora que te conheci, meu amor, que meu amor não és.

31 de Julho 2009

Pip, ou o sentido literal do dever


Dizia há anos atrás o Pedro Abrunhosa que mais não podia fazer senão pip. Ou talvez pip, enfim, era uma condicionante, ao que parece.

Pip é uma palavra proscrita e que, entre outras coisas, pode dar azo a processos disciplinares e à expulsão liminar do facebook. Mas impõe-se a reflexão: que fazer senão pip? Páro por uns minutos e reflito na ‘produtividade das minhas acções do quotidiano. Dormir, acordar, trabalhar, comer. Pensar, pensar demais e sentir, por vezes de menos. E é tudo. Um mundo imenso e cheio de pessoas a falar e a dizer coisas a toda a hora, como eu estou a dizer agora, porque sim, porque me apetece. Uma confusão de carros a passar e buzinas e o roncar dos autocarros e lá no meio se conseguem ouvir as cigarras, sábias, que nos olham do cimo das árvores com pena do bulício em que vivemos, formigas constantes da vida constante e certa e segura, nos carreiros casa-trabalho-casa-praia-c
asa-trabalho-casa-dos-sogros-casa-praia-férias encaixotadas-casa.

Bem, pronto, concedo que há tanto que fazer que às vezes nem pip se pode. Por excesso de cansaço, ou falta de parceiro, ou de vontade, ou porque se piperia melhor com outro que não este agora aqui à mão de semear e que já viu melhores tempos ainda a verve lhe corria nas veias.

Mas não, pensando melhor, no pip é que está o ganho. Gastam-se as calorias, empinam-se as barrigas, toxinas fora do corpo, uma ginástica emocional e física que só tem ganhos e prejuízos quase nenhuns. Melhor pip que ir à praia, por exemplo. Pip na praia, então, ainda melhor. Muito melhor pip que ir trabalhar, ou voltar para casa para o jantar obrigatório às 8h00 em ponto. Muitíssimo melhor pip que ir a casa dos sogros e quem não substituiria as férias encaixotadas por uma sessão de pip contínuo tendo por único cenário umas cortinas brancas transparentes translúcidas e um final de tarde morno e de brisa corrente. Quais sogros. Quais miúdos e mais os seus trabalhos de casa, quais contas para pagar e IVA de 3 em 3 meses, qual trabalho que depois de estar todo imaginado e pensado lá vai correndo em entediante velocidade de cruzeiro, as vazas do crescimento e da mudança cortadas permanentemente pelo chefe, seja ele qual for que, está mais que óbvio, pip é coisa que não faz.

Pipo, logo vivo. Pensamento animalesco, este, que me cola à terra por baixo das pedras da calçada, baixada que sou à condição sub-humana de bicho que mexe e come e pip e já agora anda no carreiro para trás e para diante para que o estado recolha os impostos sobre o rendimento e o gaste no TGV e nas auto-estradas excedentárias por onde ninguém anda e nos estádios e essas coisas que toda a gente fala e diz mal mas ninguém vai lá rebentar bombas com cintos de dinamite e ideal pendurado ao peito, missal de vontades, intenções e mudança radical para este Portugal onde se pip tão bem e tão mal se vive.

Talvez pip, na verdade. E com esta é que eu me pip. Adeus facebook, tudo indica – que se pip!

5 de Agosto 2009

10 de nov de 2009

O fim do Capitão Almeida


Parecia feito de aparite e tinha um não sei quê de bloco lunar, rugoso, inacabado. Deixara a coragem à deriva, sem saber como a usar que não fosse na defesa desesperada da imagem que as mentiras de uma vida tinham ajudado a forjar. Cuspia glórias a cada passo e cosia galões na farda com a contagem saudosa dos despojos do passado. Era patético na sua vã tentativa de ganhar loas e amizades de circunstância para que, caída a noite, pudesse aguentar o peso de uma vida falseada, sem nexo, sem ventura, sem futuro.

Entrou, assim, o capitão, na efémera tenda de campanha que montara à beira da vida e viu-se como pela primeira vez ao espelho. Pegou na navalha da barba para se escanhoar a preceito para mais um encontro fortuito, antecipando o roçagar dos cetins e o perfume da carne tenra, exalando almíscar e rosas.

De repente, morreu.

Não contara com isso. Pensara poder perpetuar o jogo de maquinações e estratégia de uma teia complexa e bem montada que sempre lhe trouxera proventos gordos em todas as áreas da vida. Adiara sempre para o dia seguinte o polimento da superfície do espelho para que lhe avivasse a memória e aguçasse a visão daquilo que, na realidade, era. Tinha-se tornado num monstro e suspeitava-o quando o silêncio se fechava sobre o mundo e o remorso tolhido de dor espreitava debaixo da almofada. Era do que tinha mais medo, era o seu único medo: que o mundo o soubesse e que ele mesmo, sem saber como nem porquê, disso mesmo se apercebesse um dia, a ponto de se redimir.

Olhou para o próprio corpo tombado por cima do resguardo da banheira, a garganta aberta, trespassada pela navalha da barba, os olhos extintos de vida, as mãos suadas a frio, o medo estilhaçado em fragmentos de vidro que se confundiam com o espelho agora quebrado que lhe atravessava o rosto.

A sombra que deixou atrás depressa se apagou. Não teve tempo de ver mais nada, e desapareceu, agora sim, dentro de si mesmo, não deixando pegadas no mundo de que a História, alguma vez, quisesse falar.


18 de Julho de 2009

7 de nov de 2009

A velha, a sereia e o homem


Veio a velha, e disse: "Estás com cara de poucos amigos. O que se passa hoje contigo?"

E ele retorquiu:

"O tempo acabou. Esvaziou-se de falta de vontade. " E não disse mais nada.


A velha não se deixou ficar.

"O tempo não existe, não sabes disso? Só existe a vontade. Estás a ver a coisa ao contrário."

Não obteve resposta, a velha.

Desceu então a velha o rochedo onde estava sentada, passos trémulos da idade e da vida.

Na praia viu a Sereia deitada nas ondas que beijavam a areia.

"Sereia, que fazes? Não pertences aqui."

E a Sereia retorquiu:
"O mar acabou. Não tem lugar para mim. Estou entre um mundo e o outro e vou morrer aqui mesmo. "

Retorquiu a velha:
"Estás onde deves estar, qual é a tua dúvida? Não é este mar a tua casa. Pertences a todos, não a ti mesma."

A Sereia acordou. O Homem desceu do rochedo e falou:

"Acusam-me do que não sou, sufocam-me de tanto não ser, de tanto não querer. Que faço, velha?"

A velha olhou para a Sereia e para o Homem e viu a beleza e a força derrotados pelo quotidiano.

E disse:

Formem um exército de um só homem e vistam-se de cores brilhantes. Armem-se de amor, paz e alegria. Sigam caminhos separados, caminhem no isolamento da certeza e do triunfo. Não procurem o caminho pois ele não existe: comecem a andar já hoje e partam na direcção que o vosso coração vos comandar. Nas encruzilhadas não reflictam: tomem o caminho que vos puxa e não aquele que vos parecer mais sensato. No final, mesmo que percam, ganham sempre, porque vos ganhareis a vós mesmos."

E assim partiu a Sereia de costas viradas para o mar, ganhando asas por não poder caminhar, e o Homem voltou a subir o rochedo, de onde voou para dentro de si mesmo.

Encontraram-se no final da vida: a sereia ganhara tranquilidade e conquistara a paz, o homem sensatez e escrevia agora poemas. Ambos mergulharam no mar do tempo que não existe.

Foi um final feliz de tanta simplicidade.

5 de nov de 2009

Lua de Agosto

Estava aquela lua luminosa luminescente luarenta como apenas a lua sabe ser, diminuindo a olhos vistos a cada noite que passava, mas mesmo assim luando, essa lua luzente e lúcida. Olhávamos a noite que a lua beijava e luava, uma noite alumiada de prata, a cada noite menor e mais escura mas mesmo assim cintilante. O bulício lá longe das feiras e das farturas e das animações nocturnas obrigatórias de Verão, e nós na lua, que nos aluava serena. O presente alumiado de luz de prata e passos vagarosos, preguiçosos e felizes em direcção a um futuro que é agora. A lua, que disto sabe, alumiava-nos devagar e cada vez menos, minguando a sua luz sobre nós e sobre o mar e a areia e também sobre as farturas e as tendas das vendas de pulseiras de missangas e panos bordados, panos de praia, t-shirts chinesas e ciganas das fábricas do norte, carrinhos de choque e crianças lambuzadas de algodão doce e pão-com-chouriço. Aquela lua parecia só a nós chegar, cada vez mais pequena, antevendo um segredo negro de opacidade plena quando se fosse de vez para lua nova, empurrando-nos para a escuridão depois de nos ter aluado em estado de graça. A lua, sábia, a cada noite menos lua, que nos mostrava primeiro o seu reflexo nas águas macias de Agosto, para depois nos conduzir ao negrume abençoado, despojado de luz e lua, que nos faz recolher e ver que, logo a seguir, a lua volta a nascer, linda e luzente, derramando a sua prata nas águas macias de Agosto, e depois de Setembro e do resto do ano e do ano a seguir, lembrando-nos do ciclo infindável da vida que não pára e não nos deixa parar os passos vagarosos e felizes em direcção a um futuro que é agora. Lua quieta de Agosto de prata e noite, espargida de viço e brilho ameno.

11 de Agosto 2009

O buraco


É a vida um rendilhado de acontecimentos e pessoas interligadas com mais ou menos sentido e nós à procura do sentido nos pontos de encontro entre os diversos acontecimentos e pessoas. Há aqueles que vêem um sentido de destino em tudo, há os outros para quem tudo são meras coincidências, há ainda quem não tenha a certeza e dê o devido desconto, numa abordagem cautelosa às expectativas criadas que tantas vezes se goram sem se saber como nem porquê. São as dinâmicas que se criam e se destroem naturalmente, num acto divino de Shiva, o destruidor da morte e criador de vida porque também destrói vida e cria morte, repondo o equilíbrio onde ele é mais necessário. Às vezes não entendemos logo porque é que o chão nos é retirado debaixo dos pés, vamos nós placidamente a calcorrear os passeios da vida e lá caímos nuns buracos que ou não vemos ou não queremos ver, e depois lamentamo-nos da sorte e do destino e da injustiça divina e da dos homens. E o chão lá se vai, estava lá num momento e no seguinte desaparece, engolindo-nos com ele e forçando-nos a fazer a viagem de volta à superfície tantas vezes tendo de escalar paredes de limos escorregadios, laçar cordas várias vezes até que encontremos um ponto de apoio que nos permita fixá-las e subir penosamente de regresso à calçada. Um rendilhado de coisas, confusas, barulho, coisas, gente, amor, guerra e paz, enfim a vida.

E lá estamos nós a calcorrear o passeio de novo depois de cair em mais um buraco – "eu não caio em buracos porque os vejo sempre e sou tão organizado e prudente que planeio a minha vida toda ao mais ínfimo detalhe para que nada de mal de aconteça, a conta bancária a engordar com o acumular dos tostões do suor ou da sorte, mais uma casa de férias e as minhas viagens radicais para experimentar a vida em toda a sua plenitude lá do cimo das ravinas de onde me atiro de bungee e os mergulhos nas águas azuis turquesa do Pacífico onde vou conhecer peixes e algas de cores brilhantes que em Lisboa só consigo ver no écran do plasma acabadinho de comprar." E volta ele de mais aquelas férias e daquela satisfação de vida e contentamento e realização de ver tudo no lugar certo e as peças do puzzle todas encaixadas mas descendo ali ao Chiado coloca mal o pé, depois do bungee jumping em que arriscara a vida e um ataque cardíaco mas conseguira viver intensamente durante alguns minutos, pois coloca mal o pé e o torce e o parte e o chão ao lado da valeta aberta das obras eternas que se arrastaram do Inverno ao Verão lá se escancara e o engole, de repente, apenas um pé torcido que incha e não o deixa trabalhar uns dias e durante esses dias o peso da existência abate-se sobre o seu coração e mente e alma e espírito – vamos lá nós destrinçar o que é o quê e a natureza da consciência e onde ela realmente se aloja. E pronto, o buraco que se abre, lentamente, inexoravelmente, alguém que morre, alguém que parte e bate a porta com violência para nunca mais voltar, alguém que nos olha o movimento dos lábios mas não vê nem ouve o que temos para dizer, a vida que deixou de fazer sentido, o desalento, o cansaço, a mulher que lê romances de cordel aos 60 anos ao lado do marido gordo e calado que apanha sol na espreguiçadeira da piscina, duas horas de silêncio em que nada têm a dizer um ao outro que não seja “passa-me o bronzeador e onde é que vamos almoçar hoje”.

Evito esses buracos, caio noutros inesperados e negros, levanto-me, volto a cair, levanto-me, volto a cair mas do chão não passo, do chão que se me desaparece debaixo dos pés mas não me suga para o vácuo sem piso porque a terra é redonda e do outro lado estão os chineses com montes de chão para pisar, e a terra é também cheia de rochas e magma ardente que me queima o passado e me dá novo chão de onde salto um salto heróico e kilométrico para a calçada nova acabada de calcetar, branca, brilhante, lavada, onde não vejo mais buracos, lentes cor-de-rosa que uso de propósito para sorrir em vez de chorar.

É a vida rendilhada, cheia de pessoas e barulho e cores e acontecimentos ilógicos e terríveis e maravilhosos e banais e aborrecidos e bonitos e surpreendentes, basta para tal o tal sorriso e a disposição e vontade de se ir mais além e, com sorte, ver o buraco no chão antes que ele nos sugue ainda uma vez mais.

11 de Agosto 2009

Mais um degrau


Tinha bom fundo. Enfim, um fundo que as décadas tinham empurrado cada vez mais para o recôndito escondido da consciência, em boa verdade, mas bom fundo na mesma. Caçador de profissão, gostava de contar troféus, poli-los com um pano macio, dar-lhes o brilho, rememorizá-los, enumerá-los, recontá-los na noite dos dias quando o desencanto do presente se fazia sentir de forma mais viva. Degustador de profissão, acordava contente com o gosto a doce da véspera, os aromas da conquista real ou imaginária ainda ferrados no palato, agora ligeiramente amargo. Amigo do mundo de profissão, fazia gáudio em abraçá-lo com rasgos largos e ruidosos de emoções genuínas à flor da pele. “Aqui estou eu”, fazia lembrar permanentemente, cheio de histórias para contar e uma vida coberta de peripécias e aventuras rápidas, a vida devorada a cada passo há muitos anos atrás e agora apenas um acumular de horas até ao próximo evento digno de nota e do lápis da memória, cada vez mais espaçado, pirilampos de lanternas fugazes nas caudas e que mais não faziam que alumiar parte de alguma noite escura perdida entre mil noites de breu e sem céu.

Perdido naquela escadaria tão larga como o mundo e de que não via o fim, marchava a passos seguros pelos degraus rugosos, evitando as esquinas mais brunidas que o levariam ao tombo certo de volta ao limiar do caminho. Nada disso queria, procurando a adolescência perdida nos olhos claros das mulheres que lhe sorriam e na seda dos cabelos brancos tingidos de louro, reminiscências de uma idade de ouro em que vivia errante de nostalgia. A música, os ritmos de outrora, as mulheres de outrora, a velocidade do vento na cara a rasgar-lhe a alma livre, protegido apenas por aquele famoso blusão que lhe ungira a fama e lhe abafava o corpo em dias frios.

E agora, a vida. Aquela pirâmide de êxitos acumulados, seguros, palpáveis, e a felicidade, ali tão próxima, bastava lançar-lhe a mão e tocar o pico da pirâmide, subir mais uns degraus daquela escadaria larga como o mundo de que queria adivinhar o fim. O pico para onde se queria lançar, corredor de fundo mas a direito e agora tinha de subir e olhar apenas aquele pico e ignorar os troféus acumulados e o passado e as mulheres de outrora com os seus sorrisos quentes e as suas palavras de circunstância que lhe queriam devorar o corpo e apanhar-lhe boleia para a próxima praia de areias douradas e águas frias.

Mais uma etapa, mais um degrau. Era largar aquela caixa de paredes altas forrada a notas e ruído e comprar um espelho, mesmo de cobre, polido como os troféus que polira anos a fio. Um espelho de onde a volta do seu reflexo lhe provocasse mais que um sorriso aprovador e onde visse aqueles pequenos caminhos raramente assinalados nos mapas das estradas, espelho-guia da viagem até ao pico nos passos doridos daquela escadaria de que, agora, já talvez conseguisse ver o fim.

17 de Agosto 2009

Depois da tempestade, meu amor


É o amor uma espécie de mistura alquímica de componentes variáveis e indefinidos que convivem aleatoriamente numa espécie de alguidar, ou ânfora grega, se assim for mais romântico, um alambique de braços retorcidos também sendo recipiente adequado a tal mistura insólita.

Vai e vem, o amor, como as ondas do mar, que lugar comum as ondas do mar que vão e vêm e são como o amor que está lá agora e no momento seguinte desapareceu para regressar uma vez mais e fazer sentir o seu toque inconfundível de ansiedade e dor e prazer.

Tomo uma bengala na minha mão, firmemente esta bengala de castão de prata recortada em arabescos indecifráveis que me dão a ilusão da segurança de cada passo apoiado na bengala infalível que não me deixa vacilar. Pego na bengala, espécie de Cúpido que a cada passo se crava no chão e não me deixa fugir deste amor que vai e vem como as tais ondas e as núvens feitas de nada, apenas cargas de água e tempestade que me fazem rodopiar ao vento tragada que sou pelos pingos grossos da chuva que estala das núvens em bateladas zangadas que estouram em cima de mim e me afogam e lavam.

Sei que te quero, meu amor, olho para dentro da minha caixa de cigarros e vejo-te lá guardado a dizer-me “não fumes tanto” e vejo-te também a atravessar a rua e a sorrires com esse teu ar gaiato e a acenares-me feliz de me veres mais uma vez que se sucedeu a outra e mais outra ainda. Sei, meu amor, mas tem paciência comigo e com as minhas núvens carregadas de tempestade e bateladas de água em remoinhos acumulados de liberdade e independência e intolerância e esta auto-suficiência que me transformou numa península. Felizmente numa península e não numa ilha de orgulho e sarcasmo face ao mundo ali tão perto e tão tonto, grande que sou no meu desprezo pelas praias carregadas de gente de braçadeiras e pranchas de surf e bichas de automóveis encarreirados para irem todos ao mesmo sítio ao mesmo tempo no mesmo perímetro circunscrito de liberdade a conta-gotas, simulacro de liberdade que todos pensam que querem mas dá tanto trabalho e medo e esforço. Orgulho, o meu, meu amor, que te quero e sei que te quero e até nas bichas te espero pacientemente cruzando estas águas a vau e fazendo pontes para o outro lado para te ver e te trazer até mim.

É o amor esta mistura de ingredientes insólitos, fórmulas únicas de equações desconhecidas de cada vez que acontece e será agora que atingi a fórmula perfeita e o número dourado, a regra de ouro da simplicidade que me vai arrancar à minha fortaleza de basalto e granito sem vigias rasgadas para o vale. Construo uma nova casa de barro seco ao sol estridente das duas da tarde, barro que enrijece e não se desfaz com as águas da chuva que caiem em bateladas violentas, estalos na cara dos deuses que insistem em nos fazer imperfeitos à sua imagem e semelhança. Está fresco e agradável dentro desta casa nova simples e de portas-janelas abertas sobre o jardim que acabei de florir com o sorriso com que acordo todas as manhãs. Sem sebes, este jardim de margaridas amarelas e crisântemos vermelho vivo, salpicado de rosas sem espinhos e odor inebriante, o cheiro da tua pele, meu amor, da tua alma colorida e que não me deixa dormir.

17 de Agosto 2009

Os cotovelos do rio manso


Tenho os olhos caídos de cansaço, mal se abrindo, subjugados pelo carrego da noite e das horas prolongadas de um dia pesado. Mal vejo, núvens de porcaria acumulada nas lentes de contacto que não tenho paciência de ir tirar, um corredor para calcorrear de ida e volta dá tanto trabalho a esta hora da madrugada em que só quero arrastar-me para a cama - mas não o faço. Inquieta, fico-me neste sofá que me dobra as costas e me envelhece, cão nos pés, janelas abertas a gritar ventania para dentro de casa e aqui me fico, abrindo este écran branco a que tento dar vida para que me dê em troca respostas.

Tema tantas vezes falado e maturado até ao enjoo, os cotovelos dos caminhos da vida que quinam violentamente mal se espera uma descida suave e feliz, e lá se firmam as curvas abruptas, socos no estômago, vendavais de tornados densos. Patins, são como as rodas dos patins que nos fazem deslizar rápidos e, no cimo do declive, abrangemos todo o vale com o nosso olhar e temos um vislumbre do futuro, e até dos cotovelos do rio que tentamos contar e mapear. Tão rápido é o clarão que o queremos reter no instinto e o transformamos numa espécie de sexto sentido, ou vice versa, nem sabemos bem. Lá está, o destino, a vida que se desenrolou clara e límpida à frente dos olhos, de súbito, aquele clarão que torna as cores vivas e os contornos precisos e nos faz ver as fronteiras de tudo, o princípio e o fim. Omniscientes por um segundo, regressamos em queda livre à escuridão relativa em que vivemos todos os dias e cá estamos, no sofá sentados, a escrever para um écran branco que nos responde aquilo que queremos que nos responda. É bom este controlo das palavras, das letras, que nos obedecem, esticam e encolhem à nossa mercê, as letras infinitas que se compõem, juntam e separam ao sabor dos dedos e da mente rápida. E a vida regressa aos retalhos que vamos cosendo em linhas finas de seda, leves de algodão ou grossas de estopa, pontos mais ou menos perfeitos que vamos rematando, agulhas de aço inoxidável a picar a carne dos dias e a dar-lhe sentido.

Inquieta, sei que estou inquieta neste pantanal que é agora pantanal, amanhã talvez já chão seguro, ontem outra coisa qualquer. Pequena que sou, a grandeza escondida no deslizar dos dias mas lá está, a grandeza, vou lançar-lhe a mão e fechá-la firme debaixo dos nós dos meus dedos. Ah, o mundo tão vasto e pequeno, emoldurado num LCD e debitado à força e a cores para dentro dos meus olhos. Que me importa o mundo nestas noites em que me sinto aquela ilha rodeada de mar revolto e escuro, salpicado de rochedos e sem outra terra à vista, apenas a ilha negra de vegetação rasteira e batida pelo vento.

Mas depois fecho os olhos e vejo o meu rio. Os cotovelos do rio manso, a paisagem deslumbrante e quieta de amor e placidez, detenho-me nos cotovelos do rio para o amar, abraçando a paisagem bela e perfeita que este clarão de omnisciência torna tão clara, óbvia, minha. Comovo-me com os cotovelos do rio manso que é o meu e não os temo porque a cada esquina do rio a paisagem surpreende ainda mais, carregada de esplendor e agridoce, aventura e ousadia, lances de vida sem jogo e que se tece num feitiço de amor transformado em tapeçaria perfeita de retalhos harmoniosos serzidos a fio de seda selvagem.

O rio, o meu rio manso.


21 de Agosto 2009

Não sejas assim


Não sejas assim: denso como a noite, claro como os dias floridos de Maio. Mete-te na tua vida e pára de tocares a minha com as costas da tua mão. Que deixas, como se nada fosse, pousada sobre a consola de mármore da entrada, largando impressões digitais espalhadas ao acaso nas páginas do caminho.

Não sejas assim: bruto como as casas, leve como o vento de Setembro. Não sejas tu, para quê assim seres tão tu, tentando controlar o conta-quilómetros desregulado do teu carro de corridas. Mete-te à tua estrada e pára de tocar a minha calçada com as rodas viradas dos teus despistes desastrados. Guarda o turbo na garagem e fecha-a bem trancada ou vai guiar o teu carro nas vias rápidas turbulentas da tua cidade distante.

Virei o cruzamento e esqueci-me de ti. Olho para trás todos os dias e apenas vejo as silvas crescidas na berma da estrada, espinho contra espinho, e guardo a minha espada bem guardada pois não te quero libertar do teu sono agitado. Fica-te nele e repousa bem enquanto comandas em fantasia essa tua vida entrelaçada de desejos imediatos e mulheres louras contadas à peça.

Não sejas assim: não te faz bem ao sangue doente que tens de controlar a cada gota que passa, chicote em punho por um lado para domares o imprevisto, rédea solta por outro para sorveres ainda mais uma conquista urdida no teu esquema diário de horas apertadas.

Não sejas assim: mecha de dinamite instável que tentas conter à lei da mentira, sincero e falso, claro e escuro, bravio e delicado com vergonha de o ser, jogador dos dias que se atropelam à tua frente sem que possas fazer nada para os parares e contorceres à tua mercê.

Larga o poste ancorado às areias duras deste mar batido e mergulha nas ondas frescas que beijam paragens distantes e te querem levar contigo. Vai, pega nos pincéis e nas telas escondidas e pinta-te nelas, garrido de cores explosivas como a tua alma nobre mas tão escondido que estás debaixo desse teu molho de limos secos e espinhos aguçados de dor e insensibilidade.

Vai. Não sejas assim.

21 de Agosto 2009

Toma o meu veneno


Toma o meu veneno e bebe-o. Solta as vísceras podres desta nossa paixão doente e afoga-te no meu desespero. Morre uma morte lenta de dor e maldade e esvai-te numa poça de sangue negro que queimará o chão onde tombas inerte pelos dardos da minha guerra. Procuro-te e não te encontro, como não me encontro a mim neste novelo de amor maldito que de amor nada tem. Bebe do copo que te estendo, sabendo que te trago o fim dos teus males e dos meus. Traga a peçonha que me lanças, sufoca na teia do nosso abraço funesto e fina-te neste torturado amplexo de sombria danação eterna.

Não há porta de benzedeira a que não tenha batido, virei as cartas do mundo para me fazerem sentido, procurei-nos nos astros celestes e nas cavernas de Hades. Em vão corri à procura de nada, do nada que somos e que teimamos em ser, resvalando a cada passo para este abismo interminável como intermináveis são os dias de dor em que estamos juntos.

Cura-te com o meu veneno, bebe-o, come o copo e rasga as entranhas nos seus cacos aguçados para que possas renascer sem mim e me libertes de vez deste tormento infernal mascarado de amor.

21 de Agosto 2009

Vives nas falésias


Vives nas falésias do meu sonho, meu amor. Sentado nas pontas das rochas, vejo-te rodeado daquela vegetação rasteira e variada, pequenos cactos de folhas carnudas e salpicados de florinhas roxas de dormem ao sol. Ali ficas, de olhos fechados e sorriso no rosto, quieto dentro do sol que te aquece os ombros e te dá consolo à alma. As minhas falésias debruçadas sobre o mar azul safira vestido de espuma, onde tu vives meus amor, sempre sereno que não me canso de o dizer pois trazes a serenidade aos meus dias que se cobriram de sol desde que te conheci. São estas falésias sem noite mesmo debaixo do manto das estrelas que são as nossas, rochas das nossas duas almas bordadas de pequenos guizos de mil tons alegres mas também tristes. Movo-me e toco e oiço a minha música involuntária que soa a cada passo que dou e que dás, e oiço o retinir do espanta-espíritos que sai de ti e dança na brisa e faz soar de cada vez uma música diferente. Como gosto de ti! As palavras são curtas para o dizer, meu amor, para dizer este amor que não cabe em todas as palavras do mundo mas cabe na música que fazes soar a cada passo que dás. Tudo o resto é um grande nada porque és tu que me és tudo, meu amor, e este tempo curto e eterno que nos foi dado vivo-o em gratidão e paz, saboreando cada momento como o primeiro. Sereno, meu amor, como a dimensão do tempo que não existe e a grandeza do mundo em que agora conseguimos caber.


21 de Agosto 2009

Black out

Se o meu relógio tivesse ponteiros tinha-os partido mas nem relógio tenho. Vejo as horas no telemóvel a correrem céleres e eu sem poder fazer nada, quando passa o tempo razoável para uma resposta ao meu egoísmo e ela não vem. O corpo ressente-se do vazio das horas que sempre foram preenchidas por tudo e por nada e agora apenas por nada, um nada relativo, mas nada na mesma. O corpo que sinto mirrar de sono e cansaço e vou pôr a descansar, num descanso forçado entre lençóis lavados e persianas corridas. Black out, é o que faço, black out e vou-me.


22 de Agosto 2009

O grilo


“Estás a escrever para quê?”, pergunta-me o Gilo Falante.

“Olha, nem sei. Talvez para fugir momentaneamente às pilhas de coisas que tenho para arrumar e pôr na ordem certa.”

“Não percas tempo, mexe-te e põe o calcanhar no chão.”

“Grilo, não me maces. Deixa-me escrever à minha vontade: é sempre uma forma de arrumar e pôr na ordem certa os meus pensamentos excessivos. A seguir arrumo os papéis e logo de seguida a vida.”

O Grilo olha-me, trocista, bem sabendo, como boa consciência que é, que tudo isto é um fogo fátuo passageiro que a memória do tempo irá apagar na altura devida.

Lá em baixo no vale a névoa já se dissipou. Olho em frente e vejo pilhas sobrepostas de assuntos por tratar e falta-me a vontade para pôr o calcanhar no chão e mãos à obra. Consola-me este sol de tarde estival e a luz maravilhosa que me deita à casa, avivando as cores e o sentido às coisas. O Grilo olha para mim e não desprega os olhos, e faço então um exercício consciente de gratidão e certeza e disponho em filas alinhadas as prateleiras do cérebro, cada uma com meia dúzia de caixas etiquetadas. Compartimentos de passado, presente e futuro, em alguns a tinta já se apagou, a tinta da etiqueta que o identifica como pertencendo a alguma circunstância importante da minha vida.

Como se houvesse circunstâncias importantes nas vidas das formigas, ou das carochas. Não gosto de me comparar a uma formiga porque as formigas gostam de carreiros e eu não. A vida das carochas é-me particularmente desconhecida, até porque, ao contrário das formigas e, já agora, também das abelhas, não tenho dado notícia de documentários na televisão extensos e bem explicados sobre a vida destes insectos de casca dura e brilhante que me passam por cima da toalha da praia enquanto dormito ao sol meio enterrada na areia. Já com os escaravelhos a coisa é diferente, ficando para sempre impresso na minha memória a bizarra mania que têm de empurrar bolas perfeitas de esterco pelo chão afora. Mas as carochas, não, não sei nada sobre as carochas pelo que me posso muito bem identificar com elas, pois se à partida nada se sabe de um assunto, temos o campo livre para inventarmos a nosso bel-prazer o que quisermos sobre o mesmo.

Assim, as circunstâncias das carochas não me parecem especialmente importantes à luz da dimensão da vida e da tragédia humana. Vivemos nesta bolha protegida com tudo o que precisamos, neste país pequeno e de tempo ameno e queixamo-nos o tempo todo do estado das coisas, de como é curto o nosso bem-estar, de como precisávamos de ser, sei lá, como os noruegueses ou mesmo como os luxemburgueses, civilizadíssimos e ricos que são, de PIBs descomunais e com governos impecáveis e sem corrupção que devolvem ao povo bem comportado, traduzido em benesses variadas, o suor do seu trabalho. E nós, aqui, tão coitadinhos e miseráveis que somos, o fado cinzelado na alma que não nos deixa escapar ao nosso destino sombrio que cantamos, gemendo e chorando, a cada dia que passa.

Carochas. Bando de carochas, nascemos para quê? Fazemos o quê de importante e digno, que pegada deixamos no mundo? Leio listas de nomes de pessoas que entregaram o coração aos outros e que são devidamente pedestalizadas pelos bandos de carochas alegres que somos. Cá vamos, acumulando – não sei se as carochas acumulam, mas pela via das dúvidas dou-lhes essa qualidade tão humana. Acumulamos coisas, discussões, relacionamentos, zangas, especiarias nos armários da cozinha, com medo que nos falte alguma coisa no futuro que pode acabar no segundo seguinte debaixo de uma rocha da praia. Carochas que somos, acumulando férias ao sol, trabalho bem despachado, mal-dicências pequenas e sem importância, roupas, sapatos, mobílias, bodegas.

“Pára lá com isso!”, grita-me o Grilo. “E põe-te mas é a mexer!”

“Muito bem, Grilo”, respondo-lhe eu, disposta por fim a tomar alguma acção que se veja e que lhe aplaque a critica constante.

De facto, agora que arrumei mais esta pequena caixa em mais esta prateleira, verifico que tudo isto é inconsequente e é um discurso sem fim. Cansativo, sem solução à vista. O propósito da vida, tão bem defendido por miríades de filósofos, teólogos e gurus das mais variadas espécies, cada um com o seu, deixa-me lá escolher o meu propósito do dia, carocha que sou, pequena que sou: o desfecho simples da minha pequena história do dia.

Preciso desta argamassa diária de segurança e destino, carocha que sou a pisar as dunas deste deserto infindável em que vivo contente. Cansam-me as coisas, tanto quanto me dão consolo pela beleza que as define e pelo lugar harmonioso a que pertencem. Mas vejo-me dentro desta tenda ampla que me protege do sol implacável do meio-dia deste deserto infindável em que vivo contente. Ao sabor das ondas de areia que se formam sopradas pelo vento sul, descanso o Grilo e digo-lhe que bem sei que o trabalho industrioso, o banho diário e uma alma grata lavam o pecado e são ferramentas seguras na construção interior dos caminhos do deserto infindável em que vivo contente. Agarro as referências palpáveis e deito um olhar fugidio ao mapa das estrelas imutáveis e que não me deixam enganar no caminho das dunas. De uma forma ou de outra, sei que chegarei ao destino e que, quando lá chegar, muito mais mar e areia se estenderão à minha frente.

Amigo Grilo que não dormes, dá-me uma pequena paz e deixa-me ser imperfeita nas horas do dia e também nas da noite em que eternizo a minha preguiça de carocha errante. Vou agora contentar-te com o cumprimento das tarefas que estruturam a vida, mas deixa-me depois voltar a vaguear pelo deserto belo e extenso da minha alma cigana. Vaguear sem culpas na consciência por gostar tanto do vento morno que me despenteia os sentidos, por gostar tanto de sentir a areia a resvalar-me na sola dos meus pés descalços.


23 de Agosto 2009

Veleiros de Verão

Sento-me para escrever à deriva do tempo ameno que faz hoje e vejo ao longe uma fileira de barcos que navegam sem pressa, saboreando o vagar dos dias de Verão. Núvens de gaivotas barulhentas rodeiam os mastros à espera de ver terra, contemplando tempestades que não há notícia que se avizinhem. No mar, a vida intensa agita-se, trocando rotas, buscando a sobrevivência numa cadência arrastada, cardumes de prata que cruzam cumprimentos e se vestem de algas nómadas à procura de águas quentes.

Ainda não está no fim este Verão tão bom e já o Outono se adivinha feliz e o Inverno protegido. Vejo as cerejeiras em flor já a despontar na Primavera seguinte e a vida a desabrochar de cores e aromas doces. Veleiros lentos que navegam à volta do mundo e o abraçam sem o deixar escapar, consolando as suas misérias e trazendo paz aos inquietos.

É nestas areias douradas que repouso a alma e preparo as batalhas necessárias para a construção das estações, chuva, sol, calor, frio, são canções de amor à vida tal como ela é, em cada gota de chuva uma toada diferente, em cada vaga de calor um canto tuarégue de liberdade, é fechar os olhos e ver coisas diferentes das que me rodeiam e eis que elas acontecem e ali estão. O deserto de areias quentes que está sempre comigo mas também a chuva que alimenta a terra e semeia florestas tropicais no meio das cidades de todos os dias e do quotidiano monótono. Não deixo, mudo o paradigma constantemente para que não me acomode à correnteza dos dias e vejo uma filme de aventuras entusiasmantes em cima da vitrine do supermercado, templos de Angkor na Avenida da Liberdade. É bom ser criança outra vez, mergulhada no Sandokan e no Robin dos Bosques, no Tintim e no Lawrence da Arábia, por quem os sinos dobram nas promessas de amor dos campos extensos de Espanha e corsários e mosqueteiros em constante missão para os reis e rainhas da minha infância.

Não existem os tempos idos, são todos presentes, sempre. Já Einstein nos tentava explicar que o que fomos, somos e seremos, sempre diferentes por causa da dinâmica do espaço, mas largamos os sacos de areia para que o balão voe mais alto a cada dia que passa. Ou não. Escolho sempre largar os sacos de areia, mas nem sempre o balão descola, ficando teimosamente quieto e recusando-se a voar para onde quer que seja. É então que fecho os olhos e o vejo já na Mauritânia ou a sobrevoar o Cabo das Tormentas e, quando os abro, lá estou eu a viver entre os pássaros e a ver a terra diminuta ao longe recortada em quadrângulos verdes e extensões amarelas de savana ou prados alpinos. Construo a minha casa na árvore e vivo, feliz, selvagem de alegria e natureza, rodeada de macacos e aves do paraíso. É para lá que me dirijo, hoje, como ontem. No meu veleiro lento de Verão que cruza as águas frias à procura de bom porto, que agora vejo, nítido como a visibilidade do meio-dia, à minha espera, sorrindo feliz.


27 de Agosto de 2009

A caixa das almas


Cá estava, aquele cansaço pegajoso de novo a escorrer entre as células, bloqueador de mitocôndrias, Jack-o-Estripador que esventrava os núcleos de toda a energia e a sugava para o lugar incerto da sua loucura e fantasia maldosa. Agora, era agora que via aquela sombra da esquina da mesa recortada no chão de mosaico velho da cozinha, o claro-escuro da alma tão simples ali debaixo da mesa da cozinha como se dela fizesse parte, ali, tão simples.

Que importava a busca inquieta pelos confessionários onde procurava remissão e luz paga a peso de orações repetidas e esmolas na caixa das almas – nunca entendera a esmola às almas, onde iam as almas buscar as moedas e o que faziam com elas, as almas, brancas, barbapapas brancos pregados num quadro de feltro verde por pioneses e penduradas ao lado de Deus de barbas grisalhas curtas e barrete preto de astracã na cabeça. As almas que precisavam de esmola, e ao lado ele rezava de enfiada as avé-marias da rendenção incerta para o certo pecado da véspera e das décadas de vida anterior. Lá estava, o mal em todo o seu esplendor e plenitude, se de esplendor e plenitude se pode apelidar o mal, por grandioso que seja quando, por exemplo, se incendeiam casas inteiras com pessoas lá dentro, ou mesmo cidades, ou se fazem de propósito leis aviltantes que lançam ao degredo e morte milhões de inocentes mal-queridos.

Mas aquele pequeno mal recortado na sombra projectada no chão pela esquina da mesa da cozinha era-lhe familiar, de tão repetido, sempre o mesmo mal de si mesmo, a pequena-grande imperfeição que não o deixava crescer e o remetia à caixa das almas trancada, a sua própria alma ainda dentro do seu corpo vivo mas já trancada na caixa das esmolas para as almas da igreja do bairro. Sentava-se no banco e rezava e olhava para a caixa das almas e sentia-se lá dentro trancado sem luz nem ar, em forma de lágrima, barbapapa branco, dobrado, enrolado dentro da caixa à espera que lhe caíssem em cima os cobres da culpa e da devoção dos devotos. Mais uma oração, o coração inundado de esperança e paz pelas palavras sagradas que, de tanto repetidas, puxavam milagres do coração dos santos, obrigados, pelas súplicas, a socorrer os aflitos. Dentro da caixa as almas revolviam-se, ensonadas, de um lado para o outro, adormecidas na paz das orações pelo sussurar das palavras ali tão perto, acordadas aqui e ali por uma ou outra moeda atirada para dentro da ranhura da caixa onde repousavam.


Acordou da fantasia e estava deitado ao lado do piano velho da cozinha. Aquela casa enorme debruçada sobre o Tejo e de onde se via Lisboa a 380 graus a todo o redor tinha um piano por divisão, até na dispensa havia um – mas estamos a falar de uma dispensa enorme e de uma pequena pianola de rolos meio partida que não encontrara melhor sítio lá em casa para descansar que não fosse por baixo da prateleira dos enlatados.

A sombra ainda se recortava no chão de mosaico velho, o claro-escuro do bem e do mal ali tão perto, estava tão perto de entender as fronteiras entre um e outro e onde começara a resvalar de um lado para o outro. Mas acordou. A caixa das almas começou a tomar outra forma e a fugir para a parede da Igreja ali tão perto, já não a via e as almas concerteza não estariam lá dentro à espera de moedas e orações.

Despertou do torpor de Verão e espreguiçou o cansaço pegajoso para fora das células, ganhando redobrada energia ao retesar os músculos, levantando-se do chão de mosaico velho onde adormecera ao sol que entrava a jorros pela janela enorme.

Luz, tanta luz sob o céu azul da cidade, os telhados vermelhos e as casas velhas e desalinhadas, um encanto de cidade com tanta tragédia para contar e tantas ruas por varrer.

Olhou de novo e a sombra contrastante do bem e do mal da esquina da mesa da cozinha desaparecera por completo – o sol baixava e rodava, se calhar rodopiava lá fora nalgum milagre fora do comum que ele não iria ver porque naquele momento tinha preguiça de chegar à janela enorme e olhar para o céu.

Lançou mão à caixa do pão de onde retirou um pão alvo e redondo que abriu com uma faca de serrilha partida. Um pouco de manteiga e um naco grosso de Serra da Estrela, levantou-se, abriu o frigorífico e tirou dois tomates-cereja que esborrachou dentro do pão. Abriu a boca e, deliciado, ferrou uma dentada de tamanho médio – pois o pão era pequeno e não o queria comer todo de uma só dentada, queria prolongar o prazer daquele lanche na cozinha velha inundada de sol. Tão bom. Levantou-se de novo, abriu o frigorífico e tirou um pacote de leite, deitando um pouco no copo sujo que tinha usado antes de adormecer. Tão bom. Desvanecia-se assim de vez a inquietação de morte e dúvida que o levara à confissão sonhada naquela igreja fresca onde as almas dormitavam dentro da caixa das esmolas. Sonha-se com cada coisa! Nova dentada no pão farinhento e fofo, aquele queijo divinal e gordo, o tomate a esguichar nódoas na camisa branca. Foi-se o sonho de vez à medida que o sol se ia pondo atrás do rio azul e largo e, com ele, os 15 segundos e dez centímetros de separação entre a sua mão e a verdade das coisas, a compreensão do âmago das questões, de todas as questões. Seria aquilo uma espécie de nirvana, aquela fronteira em que os olhos da alma repousam na linha do horizonte e, por um micro-segundo, conseguem descortinar a verdade em toda a sua plenitude mas o cérebro não acompanha e não fixa e não se lembra mais, o cérebro mortal e preguiçoso, que podia fazer muito melhor de tanta circunvalação cinzenta em vez de pastar tardes inteiras em frente à televisão ou a recolectar memórias irrelevantes de um passado irrelevante de rancores irrelevantes para a construção dos dias. Enfim.

Levantou-se, limpou as migalhas da mesa, guardou o queijo no frigorífico, sem se esquecer de pôr o copo sujo na máquina da louça e saiu da cozinha velha, agora já mergulhada na sombra do crepúsculo. Olhou para trás por um momento, para se lembrar que esquina recortada a claro-escuro no chão de mosaico velho era aquela que tanto o tinha impressionado, mas já não se conseguiu lembrar de nada.

Voltou então costas e foi-se embora.

1 de Setembro 2009

No vale


Entre uma montanha e a outra havia este vale, que não tinha grande extensão. Por via da sorte, ou mesmo do destino, aquele vale nem era muito largo nem muito comprido, e o caminho até se fazia bem, entre uma montanha e a outra. Olhando-se de longe, nada parecia especialmente difícil naquele percurso entre a montanha parcialmente queimada pelos fogos de Verão e ressequida pela falta de água, e a outra elevação que se avistava ao longe, ao que parecia densamente florestada e até salpicada de cores vivas – raro é as montanhas aparecerem assim coloridas ao longe, são mais os prados nos vales, nas planícies e em alguns planaltos que se cobrem de flores na Primavera, ficando pintalgados muitas vezes até Verão adentro.

Iam a meio caminho entre as duas montanhas, mas um ia mais atrás que o outro. Um tomara a identidade de Perséfone ao se lançar ao caminho, tendo descido a montanha seca e encontrando-se, quando abriu os olhos uma manhã, a caminhar o vale em passos incertos. Olhava para trás, para a montanha seca, onde via nitidamente as entradas disfarçadas para os reinos de Hades de onde saíra pelo seu próprio pé e sem precisar de Hermes para nada. Em frente, lá estava, aquela montanha estranha, florida, coberta de madressilvas roxas, jasmins brancos e dálias cor-de-sangue, tão apetecível e cheia de recantos frescos e caminhos felizes para se ir saltitar de pés descalços logo pela manhã. Imaginava isso mesmo, sair de casa e saltitar nos caminhos felizes sem sapatos nem nada que se parecesse a maçar-lhe os pés que queria mergulhados no orvalho fresco da primeira luz do dia.

O outro, mais atrás, libertara-se agora da montanha seca mas a ela voltara uma última vez para cumprir o consolo dos últimos dias. Cumprir o consolo era um estranho aforisma mas fora isso mesmo que o levara a ficar mais um pouco na montanha seca, depois de já se ter feito à estrada do vale com Perséfone por companhia. Adónis, tomara-lhe a identidade quando saíra da montanha seca e se apaixonara por Perséfone com quem se lançara à estrada do vale. Não pertencia àquela montanha seca, mas tinha adormecido um dia à sombra de uma enorme palmeira ressequida, porque até as palmeiras acabam por secar se não cai do céu, ou de mão caridosa, a pouca água que precisam para se alimentar.

Um dia tinham adormecido também os dois à beira do rio que corria ao longo do vale curto, exaustos de amor e esperança e tinham vivido por breves instantes na montanha florida tão ali à mão, que os esperava logo ali no fim da estrada do vale. Morada dos deuses, tinha a entrada barrada a Hades que se contentava em ficar na sua montanha seca a gizar esquemas de angústia e pequenez para cima das pessoas que lá iam parar e que, sem saberem, eram seduzidas pelos seus esbirros disformes para dentro das entranhas da montanha, onde tantos ficavam presos anos a fio, na modorra dos dias, no calor enganadoramente ameno das lareiras de Inverno. Era mais um purgatoriozinho, aquele inferno de Hades, que reservava as caldeiras de calor insuportável para os verdadeiramente maus de coração – e havia tão poucos maus de coração que Hades tivera que expandir as fronteiras daquele infernozinho mais ou menos ameno para poder nele fazer caber resmas e resmas de viajantes acomodados aos nós do tempo e ao sabor sempre igual da comida de todos os dias. Não sabiam eles que as portas do reino de Hades estavam sempre abertas, Perséfone sabia-o e estava sempre a entrar e a sair e desta vez saíra determinada a não voltar mais.

Ia mais à frente, Perséfone, no caminho do vale e ia agora sozinha. As horas passavam e Perséfone continuava a dar os seus passos lentos em direcção à montanha florida, mas ia sozinha. Pensara sempre em fazer aquele caminho e agora lá o estava a fazer. Abrandava agora o passo para esperar por Adónis, mergulhado uma última vez no seu último calendário de obrigações e dívida à montanha seca, a cumprir o consolo dos últimos dias. Nos céus nem uma ave que lhe servisse de companhia, e ia Perséfone a passos lentos e já disposta a mudar de identidade mal tivesse percorrido meio caminho daquele vale pequeno. Não mais concubina da morte, companheira dos infernos, iria agora reinar naquele pequeno reino de paz e harmonia cujas ruas eram ladeadas por pérgolas de buganvílias e macieiras sempre em flor. Estendeu a mão e sentiu Adónis, o seu espírito vivo e brilhante, a roçar-lhe a alma. E então prosseguiu viagem, sabendo que os dias do vale pequeno iriam chegar ao fim, por muito longos que lhe parecessem naquela travessia aparentemente tão curta mas que sentia agora tão lenta e solitária.

Eram só mais uns kilómetros e estariam lá. De mão dada entraram na montanha florida, estranha montanha coberta de flores que não feneciam nunca, onde a neve não caia e o frio mal se fazia sentir. Armados de doçura e paz, Perséfone e Adónis contruiram lá uma casa de terraço branco e vista desafogada sobre a vida, e nunca mais voltaram à montanha seca, ali tão perto, à distância de um vale curto e onde corria um rio profundo de águas mansas e transparentes. No fim da vida não morreram, mas também não viveram para sempre: deixaram de existir ao mesmo tempo e nunca mais se ouviu falar deles. É assim que acabam os deuses e os contos extraordinários são escritos, promessas de futuro tornado presente nos segundos que correm, rápidos, inexoráveis, no caudal do rio manso e de águas transparentes do vale curto das nossas escolhas.


2 de Setembro 2009

Tenho um amor nas tardes difíceis

Tenho um amor nas tardes difíceis
E nos campos de alecrim
Nos dias da água agreste
Nas pedras da tristeza
Nas núvens do vento leste.

Tenho um amor dentro de mim
E nas curvas da calçada
Nos montes da abrigada
Nas dores da incerteza
Tenho este amor de alma dada.

Nas noites de fios de estrelas
No rouxinol que canta e reza
E nas escadas da saudade
Tenho este amor que arranha e arde
Este amor meu que não me larga.


15 de Setembro 2009

Boa noite, meu amor, e bom dia outra vez


Tinha-te aqui dentro do bolso, como te dizia antes de te ver à transparência da chama da vela de cera escorrida que me lançava luz, por vezes, sobre quem tu és. Tinha-te aqui e bastava abrir o bolso e olhar lá para dentro e ver-te, acariciava-te nas vagas de frio, bastava-me pôr a mão no bolso e aconchegar-me de te tocar. Estás agora aqui, não mais uma imagem construída sobre o amor dos dias distantes. Cristalizaste-te no tempo, abriste uma vaga nas horas do dia que eu preencho permanentemente com a tinta da minha caneta, escrevo-te, rabisco-te a pele e o riso e não tenho letras que cheguem para te fazer caber nas páginas brancas dos meus cadernos rasgados, de lombadas descosidas de tanto terem esperado serem escritos e só terem tido ausência e nada, ausência e tédio, nada lhes quis escrever e eles em vez de se manterem direitos e novos nas estantes, entristeceram e tombaram as lombadas e rasgaram as folhas brancas sem nada escrito.

Estendo a mão e toco-te, passo-a pelo teu braço moreno que me enlaça e quer e não me chegam os segundos das horas que passam para preencher os cadernos vazios. Procuro o espaço entre as letras e entre os segundos para te encontrar por inteiro e mesmo assim não tenho frases escorreitas para te compôr um poema decente, identificar-te na rima das frases que deviam mostrar-me, vincadas, de contornos definidos e presentes, aquilo que és. Não consigo, por seres muito mais que as letras do alfabeto compostas de mil formas diferentes, e não as consigo emparelhar para te construir em sílabas nítidas de sentido.

Amo-te, meu amor dos dias presentes, e não cabes já no meu bolso, perdeste a forma e caminhas agora em pura energia tranquila pelas ranhuras da minha vida, preenchendo-as como se nada fosse, assim, sorrindo e franzindo a testa de preocupação pelos dias vindouros. Sereno, tão sereno que és e cheio de luz e sombra, os dias que passam trazem-te mais de ti que agora regressas ao que és sem medo de cortar o silvado denso nem de te arranhares nos espinhos aguçados do desconhecido. São apenas os dias da mudança, meu amor, e da reconciliação do passado com o presente na construção do futuro. Parece isto um slogan de campanha, e é, a minha campanha de batalha firme pela conquista das adversidades, olho-as nos olhos com desprezo e sopro-lhes um sopro cuspido de desdém e logo elas se recolhem de medo de mim e me servem banquetes regados de vinho doce e iguarias delicadas, minhas aliadas no desbaste dos caminhos pedregosos que mais não deixo que me torçam que um pé. Contigo, meu amor, minha força, meu destino.

Recolho agora e deito-me, rindo-me de tanta lamechice que me sai da alma porque mereces isto e tudo o mais, e hoje mais que nunca. Deito-me agora e estendo-me nos lençóis que tantas vezes quase desfizemos de amor e suor e desejo e durmo um sono leitoso e aromático, o teu cheiro colado a mim como a tua alma nos meus poros.

Boa noite, meu amor, bom dia outra vez, e boa noite uma vez mais, assim todos os dias até ao fim.



15 de Setembro 2009

As ondas tranquilas


Era aquele caminho cheio de cascalho a escorrer pela falésia abaixo onde a sombra das rochas se projectava nas curvas das pedras. O sol entrava pelas ranhuras do ar e cozia a terra e a areia que se misturavam no carreiro com o xisto quebrado que se desfazia debaixo dos pés. As falésias recortadas sobre o mar onde se aninhavam espantosas praias, enseadas apetecíveis longe do resto do mundo.

Deitaram-se nas areias cobertas de seixos rolados e passearam nas rochas cobertas de lapas, banhando-se nas piscinas naturais de águas límpidas e mergulharam nas ondas tranquilas daquelas praias longe de tudo, e recarregaram as baterias com a energia do mar e os raios de sol que lhes beijavam a pele. Foram dias felizes como são felizes os dias que deixamos que assim sejam.

Salgada e quente, chegou a casa e perpetuou mais umas horas a frescura do mar na memória da pele, agradecendo mais um dia salpicado de bom humor, serenidade, beleza e futuro.




28 de Setembro 2009

Mal



Não me interessa nada morrer de repente e sem saber bem como. É um acto involuntário, este de morrer, quando se exclui a procura da morte por moto próprio, bem entendido. Repentino ou duradouro, indolor ou excruciante, acarreta-me o processo um certo pouco à vontade e uma grande dose de inquietação. Não me dava nada jeito, de um momento para o outro, quinar, fenecer, ir-me desta para melhor assim sem mais nem menos. Pelo que me deparo com este carreiro atravessado no meio deste pomar de macieiras, ainda em flor, não obstante estarmos em Novembro, e a lembrança da maçã envenenada da bruxa má da Branca de Neve vem-me à ideia de imediato.

Transporto-me à história e como de branca pouco tenho e de neve ainda menos, presumo que a bruxa má que me persegue não me inveja pela minha beleza albina de lábios polposos, como a da princesa da história, mas antes escava-me a alma à procura do mal em semente que lá está e quer fazer seu. Empurra-me, a bruxa, contra os galhos das árvores alinhadas do pomar e tenta que eu apanhe as maçãs por minha iniciativa, e as coma, compulsivamente, umas a seguir às outras, e os pobres estendem as mãos famintas e eu engulo as maçãs inteiras para não lhes deixar nada, nem o sumo que me escorre pelo queixo abaixo, e até o vómito por excesso de ingestão que se segue é escondido num buraco fundo.

Tem dias, este mal que todos temos – que soberba dizer isto, um alívio pela partilha do mal pelos outros, atribuindo a cada um a sua quota parte no mal que nos rodeia. Olho, e vejo-me inocente, coitada, bem intencionada, coitada, generosa e ingénua, coitada, coitada de mim tão boazinha que sou e o mal à minha volta despeja-se em cima de mim mal olho para o écran de uma televisão à hora do telejornal. Os outros, os maus, lá estão a perpetuar o mal sobre o mundo e eu, coitada tão boazinha, não posso fazer nada.

Vem então a bruxa má que me escava o mal que tenho dentro. De sombras e luz somos feitos, não haja ilusões de tanta sombra que temos acumuladas no sangue e claro que o sabemos e as confessamos ao padre, à melhor amiga ou às paredes surdas e frias que nos rodeiam e lá prosseguimos o dia seguinte na certeza que neste dia seremos um pouco melhores e menos inertes e menos egoístas que no dia anterior.

Panaceias bem embrulhadas em papel de lustre e rematadas com um belo laço que engolimos para abafar a dor dos dias inconsequentes que apenas levam a mais outro, nos dias em que as cortinas da chuva pequena nos toldam a visão para as avenidas largas e brilhantes do nosso destino. Remexe a bruxa má nas feridas do mal e envenena-nos de fruta e ódio para que adormeçamos sem lutar um dia mais.

Não deixo que me remexa a bruxa, vou lá escavar eu mesma e extirpar às mãos cheias a podridão acumulada da minha própria negligência. Para com o mundo, para comigo mesma, não me vá a morte apanhar desprevenida num dia de sol e esperança e depois tenho pena de não ter ido um pouco mais além que a predestinação anunciada de uma vida média e comezinha, resignada de ser, de ter e de haver.

Não morro, pois, não me apetece, deixa lá ver se é desta que acordo e me deito a sorrir, um dia e outro e mais outro a seguir, mão firme fechada sobre o mal, definhando-o à força de pulso.

4 de nov de 2009

Tenho-te na pele


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Tenho-te na pele. Acaricio-me e vejo-te tremer pois é a ti que toco quando me toco. Estás-me fundido no sangue que me transporta a luz e me alimenta as células, estás lá, alimento-me de ti, meu amor. Estou sentada nesta rocha por cima das falésias que espreitam o mar revolto da existência e não se mexem, tranquilas de conhecerem a agitação perene das ondas, sabendo que sempre será assim, e fundo-me nas rochas serenas, imutáveis na sua sabedoria. Atravesso o mundo para o outro lado e estás comigo, carne da minha carne, não há distâncias que nos separem e o mundo agitado que se banha nas ondas agitadas por baixo das falésias de rocha não nos consegue tocar com a sua ansiedade e tragédias e inconsequência. Com a tua mão na minha percorro desertos de areia onde o calor se evapora e cria névoas de distorção à frente dos meus olhos, mas atravesso-o segura de saber que consigo chegar ao outro lado, encontrando oásis de descanso pelo meio porque estás comigo e não me largas. Deitei fora os livros que me diziam que não existem amores assim e que a vida é para ser vivida um dia de cada vez: vivo-os todos de uma vez, os do passado e os do futuro, agora, vivo-os contigo, minha vida que me és tão para além da vida pequenina da existência cinzenta que recuso. Com a tua mão na minha vivo, assim, sempre.

3 de nov de 2009

Trinta gramas de condimentos


Foto de Miguel Valle de Figueiredo


Eram exactamente trinta gramas de ervas de condimento. Nem 29gr, nem 31gr, a medida exacta do sabor perfeito para aquela combinação de alimentos que estava a preparar. Olhava para o tacho e sabia, gulosa do resultado final, que a medida perfeita das coisas se acha no equíbrio certo entre os diversos sabores. Na vida também era assim e o excesso, ou falta, dos condimentos certos ou das suas medidas exactas é que lhe tinha feito desviar-se do caminho fácil da felicidade pelo prazer de usufruir de todos os sentidos.

Uma mão cheia de flor-de-sal era a medida incontestada para trazer o sabor perfeito à complexidade da receita que lhe saía das mãos. Tantos ingredientes em mãos cheias ou colheres mal medidas, sempre essas na proporção correcta para um apuramento requintado do paladar, já não precisava das colheres-medida ao grama que lhe davam a certeza da matemática química estar a ser respeitada até ao mais ínfimo detalhe. Apuraram-se as mãos ao longo do tempo, transformando-se em medidas precisas da dimensão do espaço e do sabor da vida, e cruzavam-se agora velozes sobre as frigideiras, facas afiadas e tábuas de corte.

 A vida, estendida na tábua dos vegetais, depois de ter passado pela tábua das carnes e evitado a dos peixes por uma mera questão de odor, dissecava-se-lhe agora entre os dedos à velocidade da lâmina que usava com destreza com a mão direita. A esquerda, essa, agarrava firmemente nas pontas da existência por forma a deixar à irmã gémea o espaço de manobra para a precisão cirúrgica e estética do corte da própria vida às rodelas e aos cubos.

Parou. Estancou se súbito a meio do cozinhado e a panela deitou por fora a água a ferver, borbulhando furiosamente e espirrando o calor do inferno por cima dos bicos do fogão e dos seus pés descalços. Soltou um ai de dor intensa, um gemido gritado dos confins da alma e da superfície da pele assim atacada, e calou-se logo de seguida, faca na mão direita, pontas da existência soltas pela esquerda e tomando os seus próprios rumos independentes da sua vontade. Ficou, ali, quieta, muda de querer, olhando para a colher de medidas certas que enchera de condimentos, e largou então uma lágrima salgada para cima da receita que tanto trabalho lhe dera a preparar.

Sabia em teoria que ainda se podia salvar o jantar. Aliás, sabia que mesmo com os pés queimados e a alma manchada de dor conseguiria transformá-lo num banquete requintado e abundante de iguarias ainda por descobrir. Largou então a tábua de corte e sentou-se num canto da cozinha mal iluminado e fechou os olhos, massajou os pés queimados com meio tomate e duas gotas de alfazema e tentou sentir o alívio da cura instantânea dos remédios milagrosos. Um olhar à cozinha inundada de água a ferver e rodelas e cubos espalhados no chão, especiarias derramadas nas bancadas e o desalento instalou-se. Calçou-se, saiu de casa descendo pelas escadas de incêndio, e foi directa a um McDonald’s.

1 de nov de 2009

A Santa


São circulares os passos da santa à volta do pendor. Anda, a santa, à volta de si mesma, aparentando devoção à imagem de madeira pintada que os crentes levam aos ombros. Dá voltas sobre si mesma e pergunta-se porque está ali, carregada aos ombros doridos de quatro homens robustos mas já entrados na idade, que assim a veneram, e não sabe porquê. Pergunta a santa aos céus o porquê de tanta agitação e flores e ladainhas murmuradas baixinho sob o ritmo cadenciado dos passos da procissão.

A santa que caiu do céu onde nem sabia que estava e agora vê-se ali, pintada a verde e azul e de manto branco pintalgado de estrelas, olhar condoído sobre os males do mundo, e os ombros dos crentes a carregarem-lhe o peso da sua alma vencida que abandonara este mundo às desgraças do mal que o corroía. Voara a santa céus acima até depois das núvens fofas e brancas que espreitavam sobre os milheirais, desistindo de pisar mais a terra molhada onde andara tantos anos a gastar os pés a dar consolo aos aflitos que lhe retribuíram agradecimentos, sorrisos e mais aflição.

Perplexa, a santa, aflita e invisível, abana os homens que a carregam e grita-lhes aos ouvidos para que a oiçam, pergunta-lhes o que fazem que a carregam aos ombros congelada em madeira pintada e olhar fixo e condoído sobre os males do mundo. Não lhe respondem, os crentes que a carregam murmurando ladainhas de dor e esperança, honrando-lhe a memória dos dias idos em que já era santa e não sabia que o era.

A procissão passa-lhe diante dos olhos e vira a curva da aldeia pisando um manto de flores e deixando atrás de si um rasto de incenso e paz, e fica a santa perplexa para trás, fixando o olhar nas costas dos crentes que a seguem lá à frente e não a ouvem agora gritar.

Fica-se a santa de olhos pregados no céu em interrogação, sem saber a que mundo é que pertence e quando a procissão desaparece voa de novo para o céu onde não sabia que estava e dissolve-se nas núvens brancas e fofas que pairam sobre os milheirais.

29 de out de 2009

Paradoxo



Pois seja lá o que for, é um paradoxo uma corda presa a um muro atachada em nó górdio, por um lado, e solta na outra ponta, se bem que continue tesa e elevada no ar, como se de uma daquelas cascavéis encantadas por faquires indianos se tratasse. O que se quer é sempre aquilo que não se tem depois de se obter aquilo que se quis – o alçapão da desgraça do mundo e o resumo, em meia dúzia de sílabas, da causa do sofrimento do mesmo. Cá está, a ponderação sobre a ausência da paixão e do querer, uma das premissas da filosofia budista, que nos acautela para o muito querer como fonte de todo o sofrimento. Nunca entendi esta ausência de desejo, que mata o verde do mundo à nossa volta e transforma a emoção resultante da contemplação da beleza no mero acto contemplativo em si mesmo. Rumo a um samadhi decerto compensatório, pacífico e realizante - mas quem sou eu para saber o que é o quê: aprender a dominar a vontade de não querer mais o que obtenho para querer outra coisa qualquer.

“How to Get What You Want and Want What You Get” é o título de um livro por que passei os olhos neste Verão e que, de repente, mostrou ser uma pérola de sabedoria tanto pragmática como espiritual, resumindo em poucas páginas a essência do ser humano – a minha própria essência ali retratada de forma tão simples. No fundo, somos todos tão parecidos, por vezes.

Cultivo a paciência todos os dias, acto a que me habituei por feitio - paradoxalmente, já agora, impaciente-, e aprendo portanto, acima que tudo, a ter paciência comigo mesma. Já não é mau. E, claro está, acautelar-me para o eterno desejo que está para além do que tenho na palma na mão - mas também para a ausência do mesmo: o fio da navalha do equilíbrio entre a monotonia da existência, aquele tédio de largo bocejo que me faz eriçar os pelos de horror, e a chama voraz de uma existência rápida e demasiadamente recheada de factos. Sim, factos, acontecimentos e afins de teor agitado, transformador e, quiçá, mutante.

Enfim, por hoje é tudo e com esta vou mesmo dormir.

27 de out de 2009

Que descanso


Que descanso vir para aqui escrever e saber que ninguém me lê. Fugir do facebook e do canto escondido da pasta secreta do word no computador onde me escondo em letras de quando em vez, aqui estou a meio caminho entre o anonimato e a histeria facebookiana. Duas e vinte da madrugada, tanta hora à frente por dormir e um dia inteiro amanhã para viver ao segundo de tantas coisas a fazer. Mas fico aqui apenas dois minutos depois de escavar o cinzeiro à procura de uma beata comprida que se possa fumar em mais de três passas para dizer que o mundo acaba todos os dias um bocado de cada vez, mas também renasce todos os dias com a fúria avassaladora dos berros dos recém-nascidos cheios de ganas de viver. Hoje foi um dia desses: de repente, acabou-se o mundo e, de repente outra vez, renasceu das cinzas como a fénix. Ajudou-me a águia que me apareceu aqui feliz e contente e eu de trombas e a águia na dele, não esmoreceu com o meu mau humor e, de repente, contagiou-me de ar e vento e renasceu-me. Quando dei por mim, tinha o mundo aparecido outra vez à minha frente - o mesmo que se tinha eclipsado horas antes. Assim e pronto. Obrigada, águia. Obrigada, céus infinitos que me vão lançando pacotes de maná embrulhados em fitas de seda ou disfarçados de pão duro. Obrigada, assim vivo.

22 de out de 2009

Nada mais


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não havia nada para além daquele horizonte e o mal e o bem dissolviam-se naquela neblina doce que lhe enchia a alma e lhe tocava o ser. Perdida naquela estrada de um só caminho que não procurara nem vira nem achara, era só aquele horizonte que a engolia. Nada mais, nem antes nem depois, nada mais que aquela montanha doce de escarpar e coberta de sombras e mistérios e simplicidade e dor e prazer. Nada mais, apenas aquele horizonte indefinido e cheio de promessas, ladeado por prados amarelecidos pelo tempo e pela dor, aquele horizonte ao qual estava a chegar pisando a estrada em brasa que lhe queimava os pés e lhe feria a alma de alegria e gratidão.

Nada mais, nem antes nem depois.


21 de Julho de 2009.

Assim como eu gosto


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não tens fundo. Melhor que um abismo de arrepios constantes, vejo-te e não te toco o fim com a luz dos meus olhos. Que me acendes todos os dias um pouco mais. Certeiro, sem o saberes, nos passos simples que dás a cada dia, e que me viajam para um lugar que desconheço mas antevejo luminoso e grande, sombrio e grande, deslumbrante e grande, grande como as avenidas rasgadas no meio de uma qualquer selva emaranhada e estranha, abafada de calor insuportável mas as avenidas que a rasgam levam-me ao outro lado sem perigos de mordeduras de serpentes venenosas nem ataques de feras pintalgadas de ocre e preto.

Não tens fundo e os meus olhos vêm-te mais a cada dia que passa e viram a esquina da tua alma sem conseguirem ver o fim, de grande que és, apenas como és, assim, como eu gosto.

Just the way you are. Thank you love.

12 de out de 2009

Vivia num prado verde

Vivia num prado verde e que se estendia entre duas montanhas de tamanho médio, altas o suficiente para que lhe apetecesse escalá-las aos fins de semana com botas apropriadas e uma mochila preparada com lanternas e lanches para o caminho. Cristalino de beleza e eterno verde, nem no Verão os pés caminhavam por outras cores que não fosse o verde molhado e cheio de vida daquele prado que não queria outras cores que não as das flores campestres que, por vezes, lhe iam fazer uma visita. Na Primavera, ao que parecia, e às vezes prolongando-se Verão fora, as flores chegavam e instalavam-se, confortáveis, a apanhar sol, a abrir e fechar pétalas ou a deixar-se ondular pela brisa que soprava.

Tinha tudo o que precisava: o verde do prado, as flores matizadas de todas as cores do arco-iris, o céu que via sempre azul mesmo quando trovejava, as núvens brancas que tomavam a forma de gatos e tartarugas e outros bichos que tais,  por vezes um anjo ou outro que espreitava lá de cima para ver se estava tudo bem no prado verde.

E as suas montanhas, todos os dias diferentes, acordavam a cada dia com um humor diferente e contavam-lhe histórias secretas de ursos dorminhocos e fadas que lá viviam.  Era um sonho bom, deixava-se estar na cama no prado verde pintalgado de flores apesar de ser Outono, e deitava-se sobre o orvalho e deixava as costas molharem-se na frescura da manhã olhando para o céu que via sempre azul e brilhante.

Bom dia, meu amor. Toma esta toalha e limpa as tuas costas molhadas para não te constipares, e leva as minhas flores contigo para que não murchem nunca.

10 de out de 2009

Estou à venda


Estou à venda. Preciso de trocar de alma e corpo e olho agora para um braço e dispenso-o por bom preço. Vendo-me por inteiro, ou por partes. O todo, certamente, será mais em conta, faço um preço especial para quem me levar da cabeça aos pés. Estou à espera, eternamente à espera, depois de conquistas, derrotas e batalhas longas no tempo, e não me vejo. Pelo que me vendo, agora, na esperança de conseguir seguir a cartilha dos dias do comprador e chegar, quem sabe, a uma meta qualquer. Chega-se à meta e depois? Os três primeiros lugares têm direito a medalhas e subida ao pódium, os restantes merecem menções honrosas pelo esforço mas não ficam para a história. Quero lá saber. Uma meta qualquer, pode ser vender carne ao quilo e acumular dinheiro no banco manchado de sangue dos vitelos e borregos, pernis de porco e bifes de peru. Se me comprarem por partes, talvez seja um talhante que me compre para me revender por um preço melhor. Talvez a golpes de faca afiada se me extingam da alma de vez os meus anseios por qualquer coisa indefinida mas que vi um dia nos romances de capa e espada, nas aventuras sem fim, viagens espaciais à velocidade da luz, super homens de poder infinito sobre o mal e que materializam gelados de caramelo na palma da mão quando está calor e preciso de um doce fresco.

Estou à venda, comprem-me e digam-me quem sou.

Toca-me à porta


Foto de Daniel Clark Orey 


Toca-me à porta e diz-me: "amo-te", lá de baixo do intercomunicador. Escreve-me "amo-te", meu amor, escreve-me em palavras de tinta invisível com aquele teu jeito inocente que só tu consegues ter.

Lança-me um papagaio no céu, contrata um daqueles aviões pirosos da praia com o meu nome para que voe sobre o mundo e todos saibam do nosso amor.

Toca-me à porta e diz-me "amo-te", uma só vez, lá de baixo, mas não subas meu amor. Vai-te e foge, mas toca-me à porta primeiro.






Agosto 2009

Tapete Real


Era aquele campo pintalgado de todas as flores que existiam no mundo que se estendia à sua frente como um tapete real.



Desfolhava o ramo de rosas e desfolhava o caderno de encargos da vida nova em que se metera, tudo ao mesmo tempo. Uma pétala por encargo, e as rosas pareciam multiplicar-se a cada folha do caderno que preenchia em letra pequena e aprumada. Ter paciência. Praticar a bondade. Nunca perder as estribeiras. Esperar com um sorriso em cada esquina das horas. Não escrever palavras duras e sarcásticas, não ironizar e nunca, mas nunca deitar-se depois da meia-noite. Era mais ou menos isso e os lírios, contentes, esbranquiçavam as pétalas ainda mais e as dálias espreguiçavam-se à sombra fresca da noite para não murcharem e ganhavam pés de manhã para fugir ao sol estridente.