1 de nov de 2010

Ondina

 À vista dos escolhos da praia, duros, escuros, imóveis, brilhantes da água que lhes bate mas insensíveis à frescura das ondas, chegou a ondina à espuma quebrada sobre as conchas do mar.

Cansada de tanto nadar, descansou a cara na areia fresca deixando que os olhos se banhassem na água salgada, cardumes de peixes cor-de-prata nadando por perto, estrelas do mar tecidas nos cabelos negros espalhados à luz da lua.

Agitam-se as rochas imóveis ao sabor de uma brisa morna que passa por perto, quente de risos de verão, memórias deixadas ao acaso nos seixos rolados da praia, da praia perdida da costa sonhada que nunca existiu.

Olho e já não vejo a ondina deitada na espuma das ondas, de cabelos negros espalhados nos seixos brilhantes à luz da lua quebrada pelas núvens negras e o vento norte.

A praia serena, molhada pelos beijos frescos das ondas de espuma e sal, devolve-me a paz na certeza de um dia sonhar este sonho outra vez. Olho para baixo e vejo os meus pés, verniz vermelho escamado nas unhas e falta de creme nos calcanhares. Queria ver escamas de prata e gotas de água fria, areia molhada numa poça debaixo de mim, mas o chão devolve-me os desenhos geométricos e as cores triplas do tapete persa e as minhas sandálias espalhadas de um lado e outro dos meus pés humanos.

Foi-se a ondina com as ondas da praia e ficou o desejo do sonho da costa sonhada que nunca existiu.

21 de set de 2010

Onde estaria?

Escondera-se, não sabia onde. Se calhar por trás daquele alinhamento de seixos polidos à beira da duna, tão certinhos que lá estavam a dormir ao sol nos dias compridos e nas noites frias. Ou para além das paredes grossas da casa escura onde tentava tricotar a nova camisola de vida à medida do dever dos dias.

Escondera-se, onde andaria? Não o via, aquele desejo de qualquer coisa mais que não fosse o remendar daquela cauda imensa do rasto imenso da vida passada. Não queria viver para remendar. O sapateiro remendão não precisa mais que uma lamparina a óleo rançoso, linha, couro e as agulhas certas para tapar os buracos do uso e disfarçar a podridão do couro. Uma lamparina de óleo rançoso não mais ilumina que meia dúzia de palmos à frente do nariz. Não queria viver para remendar e acendia as luzes todas pela casa fora, contrariamente às mais sensatas recomendações de poupança de energia, recursos e dinheiro, o planeta que aguentasse pois a sua própria vida precisava de luz que lhe mostrasse o caminho mais que meia dúzia de palmos. O caminho de casa, dentro de casa, de um corredor ao outro, de uma sala à outra, que importava. Luz. E mesmo com tanta luz, escondera-se. Onde estaria?

Não se lembrava de ter sossegado a alma dentro de uma fiada de gavetas bem trancadas à chave mas se calhar era isso que tinha acontecido. Acendeu as luzes todas e procurou o armário, o móvel de gavetas, as gavetas, lá estavam as gavetas da memória armazenada que a cada dia se desvanecia, apagando-se um passado para dar lugar a outro. E lá estava a gaveta do futuro prometido onde o caminho da revelação se desdobrava límpido e claro debaixo dos pés, e era só segui-lo, pois seguia, vincado e nítido, pela vida fora. E era só ver onde iria dar, mas não, estava trancado na gaveta enquanto segurava a linha e o couro e a lamparina de óleo rançoso e os sapatos cambados de tanta vida pisarem.

Onde estaria? A chave estava na gaveta, mas deixou ficar a dúvida. Provavelmente, aquela gaveta mais não tinha dentro que meia-dúzia de pastas antigas com declarações de IRS preenchidas à mão e extractos bancários em escudos.

Por cima da cabeça quatro andares de tijolo e betão e só então por cima o céu.

Onde estaria aquele céu? Desmaiado agora pelas luzes amarelas de Lisboa, desaparecera de vista, sumira-se num sopro de desalento. Para voltar a acordar na manhã seguinte a espreguiçar as nuvens que teimavam em anunciar o Outono para logo fugirem e darem lugar a dias radiosos e quentes, se passados ao fresco, ou infernais e stressantes, se tivesse de se meter no carro sem ar condicionado e atravessar a cidade histérica da rentrée política e do regresso às aulas no Continente.

Estaria bem onde estivesse, e que descansasse em paz! E agora iria atacar o visco sangrento que voltara em vingança furiosa e não parava de escorrer, lavada pelas águas santas da banheira que não paravam de correr.

10 de jun de 2010

Neblina







Eram sete véus de neblina clara e fina que abraçavam o ziguezaguear do caminho de terra batida. A cada curva, a neblina adensava-se em veios amarelados e húmidos que roçavam o nariz e ondulavam ainda mais o cabelo despenteado pelo vento agreste e solto. Estava quase a chover mas ainda não. Ameaçavam os bagos grossos de chuva ainda trancados nas núvens sem se decidirem, no entanto, a descer os fios de neblina como acrobatas de circo, de cabeça para baixo, água a escorrer na água, orvalhada de amanhecer na orla da tempestade.

Dava passos incertos na berma do caminho que descia agora a ravina em direcção à praia. Chorões gordos e cravos romanos em plena floração beijavam-lhe o couro dos sapatos gastos pelas pedras do caminho que conhecia de cor. As pedras, conhecia-as uma a uma, testemunhos silenciosos do desassossego brando que lhe inquietava a alma naquela procura do momento da revelação nos livros, no mar, na brisa morna das tardes claras, no afundar dos pés doridos nas areias frias à beira-mar. Fechava os olhos e esperava que fosse essa a hora em que visse para além da cegueira dos dias. Em vão.

Um dia atrás do outro descia a ravina pedregosa com passos incertos em direcção ao mar, na busca inquieta das certezas que nunca são. Um dia atrás do outro, até que o Outono se fundiu no Inverno, que acordou na Primavera, que morreu no Verão.

Para o João Carreira, no seu aniversário
9 de Junho de 2010

30 de mai de 2010

Invisível



Sou inútil. Não sirvo para nada. Sou um achado de conveniência com horas de utilização limitadas. Convenho, é isso. Por vezes, quando dá jeito. Submeto-me aos padrões alheios desejosa de agradar e quando dou por mim deixei de ser eu. Não tenho voz própria, não posso. Sou uma sombra do que era, a alegria deixou de me visitar todos os dias e já não entra na minha janela grande aos quadrados de vidro. Não sei para onde vou. Todos os dias tento pisar o caminho que me leva àquele lugar verde de paz e flores mas estas pedras pesadas e rugosas caem-me em cima, as pedras da negação, do medo de ir mais longe, já, agora.

Abandonou-me toda a urgência de felicidade aqui e agora. Ou mais tarde, um dia quem sabe. Os momentos de felicidade do pequeno prazer, da circunscrita alegria que constroem sabiamente a leveza dos dias passam por mim e não me veêm. Estou invisível. Sou-o. Não tenho sombra, nem paz, nem alma. Deixei de ser eu e já não me encontro na brisa do Verão nem no orvalho das manhãs.

Tomem-me como sou e extingam-me vez.

20 de mai de 2010

Pés feridos

Teimava em pisar a relva luxuriante e gorda de flores e orvalho, mas quando afundava o pé tocava na pedra árida e seca, estéril de néctar e de desejo. Um pé, agora o outro, e voltava para trás, fechava os olhos e via o prado verde-choque, Lucy in the Sky with Diamonds. Uma barbaridade de cores e sons, cheiros inebriantes de desejo e carne transfigurada em amor e suor e risos fininhos de malandrice e piadas parvas.

Campos de trigo e chupa-chupas de espirais às cores, borboletas gigantes, sorridentes e com óculos, casas feitas de bolotas com janelas de chocolate e lá dentro a bruxa má, a roca e o fuso da Bela Adormecida que acordou há séculos atrás e não quer dormir mais.

Os pés escaldantes tocavam a pedra árida e rugosa escaldante partida pelo calor escaldante de um sol impiedoso e claro, escaldante e sem sombras, que tudo mostra e tudo vê. Penetrava a luz impiedosa do sol escaldante pelas coisas adentro e mostrava-as, cruas e despidas como eram na verdade, ramelas pela manhã, uma manta de fios de seda finos e quebradiços se não forem tecidos com desvelo e cuidado pelas mãos sábias que cuidam da roca e do fuso.

Pés feridos pela rejeição disfarçada do adiamento constante do prazer de pisar a relva gorda de flores e orvalho, encontram a rocha árida e partida pelo sol escaldante de luz crua e impiedosa que tudo disseca, ilumina e abafa.

8 de mai de 2010

Flutuante

Debaixo daquela tempestade havia blocos de cimento transparente que não assentavam no chão. As folhas amarelas daquelas árvores pitorescas, de fartas cabeleiras verdes, esvoaçavam em água moídas pelo vento impiedoso e ciciante. Era um vento ciciante, gago de golfadas violentas e fúria incontida, que cuspia as flores amarelas das árvores cabeludas tentando, em vão, derrubar os blocos de cimento transparentes que não chegavam ao chão.

Era uma imagem difusa de chuva e gotas grossas a escorrer lentamente pelo pára-brisas, tantas que eram as flores amarelas coladas ao vidro pela água da chuva e pela pressão da ventania.

Acordava, agora, lentamente, e via os blocos de cimento transparentes que não faziam sentido, cimento flutuante na tempestade violenta, que não arredava pé do meio do ar em que assentava, recebendo indiferente as bátegas grossas da chuva e as cuspidelas do vento norte.

Abriu o outro olho, depois do primeiro, as paredes brancas do quarto sem pétalas amarelas coladas pela chuva e pelo vento, brancas e nuas, de pregos pintados por cima pela preguiça de encontrar um alicate antes de lançar o rolo com a tinta mais branca que havia na loja das tintas, depois de se arrepender à última da hora do azul céu com que as quisera pintar.

Fora-se o cimento flutuante debaixo das pétalas amarelas rodopiantes pela chuva. Acordara por fim de mais um sonho absurdo, o preenchimento das horas vazias do repouso dos justos e da preparação dos guerreiros para o dia seguinte. Batalhas campais sonhadas em blocos de cimento leves como o vento violento que sopra as folhas cabeludas das árvores amarelas absurdas num fim de tarde cinzento e frio. 

31 de jan de 2010

Eram as pedras e o mar
E a areia que o levava
Levava a areia o mar revolto
Que nela se afogava, agradecido.

Era o céu de núvens manchado
E azul também um dia
E a terra molhada de amor
Encharcada de vento soprado.

Procurava o vento a água
Para a terra molhar de amor
Do céu arrancava as núvens
Que se partiam molhadas de dor.

De paz e guerra chorava o mundo
Resignado às curvas da vida
De paz e guerra chorava o homem
Que de uma noite amanhecida
Em dia que não mais acabava
Moldava o tempo curto que o separava
Do amor que lhe curava a ferida
Do tempo austero que lhe roubara
Dos olhos o sorriso e da alma o sonho.

13 de jan de 2010

Apenas porque sim


Fazia-se a avenida de sete estradas a direito recortadas pelos ramos das árvores plantadas no centro, alinhadas, aprumadas, generosas, centenárias. Abraçavam as árvores três estradas à direita mais quatro à esquerda, a quem cumprimentavam os ramos oscilantes pelo vento que não parava. Tão grandes eram as árvores que sombreavam duas das três estradas à direita e pelo menos três da esquerda, quando o sol despontava quente e sem misericórdia nas manhãs de Julho. Mas isso era lá mais para a frente, o Verão, que tardava a chegar simplesmente pelo facto do calendário marcar o mês de Janeiro ainda sem ter alcançado o meio, não porque o Inverno se prolongava mas porque nem a Primavera ainda tivera licença de se abeirar da estrada e fazer despontar qualquer botão de rosa ou mesmo de amendoeira nos campos para além da cidade, os do sul a debruarem o mar do Algarve pintalgados de branco e amarelo.

Concentrou os olhar no letreiro de néon azul e branco gigante do banco do outro lado da estrada e depois nas bolotas, que de bolotas nada tinham, penduradas nos ramos despidos dos plátanos que quase lhe batiam na janela. Aquilo tinha um nome, decerto, que a classificação de Lineu ou lá o que era identificaria algures num compêndio daqueles que listam todas as árvores, suas categorias e frutos, aquelas bolas com sementes lá dentro, como é que era mesmo que se chamavam quando as árvores não davam fruto. Que interessava. O tempo passava agora distraidamente, permitia-se agora que o tempo passasse distraidamente, cansada que estava de fazer e planear e dobrar e arrumar e manejar as horas do dia e também as da noite para caberem no tapete de vida que se lhe desenrolava todos os dias debaixo dos pés.

Se pintasse pintaria agora os ramos do plátano com as suas bolotas que não eram bolotas a tremerem ao vento de Janeiro, o vento da chuva que caía sem misericórida sobre a estrada que era sem misericórida massacrada pelos carros que sem misericórdia a pisavam dia e noite debaixo da janela. Atrás, um candeeiro de rua magro e espadaúdo de luzes duplas amarelas, um chifre para cada lado, e ainda mais atrás as arcadas do mamute gigante do banco, testemunho moderno e de dias contados da grandeza passageira dos homens, do dinheiro e do poder.

Não eram sete as estradas da avenida, mas podiam ser, aquela avenida de desejo e frescura onde viviam as árvores centenárias que a abraçavam e sombreavam nos dias de Julho que haveriam de vir. Mas que importava. Tinha agora os ramos do plátano despidos de folhas mas cheios de vento e bolotas que não eram bolotas. Chegava-lhe isso, tal como lhe chegava a oferenda dos dias tal como eles eram, e da vida tal como ela era, por muito que protestasse e se revoltasse contra o que queria e não queria, chegava-lhe a vida tal como ela era.

Em agradecimento por tudo aquilo que não tinha e que não queria, baixou a cabeça e sorriu de tanta tonteira e querer e desejo que apenas serviam para preencher as horas de preocupação e ruído. Queria paz, afinal de contas. E isso não lhe faltava e era o que interessava. Tudo o resto é passageiro, tirando a paz, pois no final tudo o que fica é a recordação da luz de um fósforo acabado de acender.