8 de mai de 2010

Flutuante

Debaixo daquela tempestade havia blocos de cimento transparente que não assentavam no chão. As folhas amarelas daquelas árvores pitorescas, de fartas cabeleiras verdes, esvoaçavam em água moídas pelo vento impiedoso e ciciante. Era um vento ciciante, gago de golfadas violentas e fúria incontida, que cuspia as flores amarelas das árvores cabeludas tentando, em vão, derrubar os blocos de cimento transparentes que não chegavam ao chão.

Era uma imagem difusa de chuva e gotas grossas a escorrer lentamente pelo pára-brisas, tantas que eram as flores amarelas coladas ao vidro pela água da chuva e pela pressão da ventania.

Acordava, agora, lentamente, e via os blocos de cimento transparentes que não faziam sentido, cimento flutuante na tempestade violenta, que não arredava pé do meio do ar em que assentava, recebendo indiferente as bátegas grossas da chuva e as cuspidelas do vento norte.

Abriu o outro olho, depois do primeiro, as paredes brancas do quarto sem pétalas amarelas coladas pela chuva e pelo vento, brancas e nuas, de pregos pintados por cima pela preguiça de encontrar um alicate antes de lançar o rolo com a tinta mais branca que havia na loja das tintas, depois de se arrepender à última da hora do azul céu com que as quisera pintar.

Fora-se o cimento flutuante debaixo das pétalas amarelas rodopiantes pela chuva. Acordara por fim de mais um sonho absurdo, o preenchimento das horas vazias do repouso dos justos e da preparação dos guerreiros para o dia seguinte. Batalhas campais sonhadas em blocos de cimento leves como o vento violento que sopra as folhas cabeludas das árvores amarelas absurdas num fim de tarde cinzento e frio.