23 de nov de 2009

Na minha rua

Ponho os dedos ao teste e observo o que sai. Sento-me porque não me apetece fazer mais nada e quebro à vontade da preguiça, cedo-lhe o espaço que precisa para se instalar em mim uma vez mais. É um novo hábito este, o da preguiça, e que me sabe tão mal. Arranjo assim justificação para fazer qualquer outra coisa que não seja nada, e escrevo, deixando os dedos vaguear no teclado à procura de um rumo.

Sete cintilações de luz diversas viram os meus olhos hoje no intervalo das árvores da minha rua. Uma rua de Lisboa com pessoas e carros e casas e árvores e sem-abrigo aos gritos nas esquinas porque até a preguiça da loucura os abandonou e gritam por, presumo, não terem mais que fazer. São dois os que gritam: um abre a boca e berra, solta uns urros altos e ritmados, de repente, quando menos se espera. Urra o sem abrigo no seu canto imundo que ninguém cuida, à porta do banco milionário que não o vê. O outro estacionou há meses à porta do Mini-Preço e grita para os clientes, sorrindo ao mesmo tempo. Grita frases ininteligíveis, solta dizeres em espanhol da boca sempre sorridente, dentes espantosamente brancos contra a pele negra e luzidia. Barrete na cabeça, estende um copo de plástico que nos empurra cara adentro obrigando à moeda. Não dou. Empurrei-o no outro dia, “hey, tira a mão!” ameacei com um ar mau, que me incomodava tanto grito à porta das minhas laranjas e dos meus bifes e requeijões. Tinha-lhe dado um euro, um ou dois dias antes, missão cumprida, agora não me grites mais. Mas lá estava ele, e está, sempre a gritar. “Aaaaahhhhhhhhh, ióoooooooooooooohhhhhhhh!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” “Heeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, ióoooooooooooooooohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!! E não pára, fica ali aos gritos. Depois cala-se e pede “moneda, señorita”. Não tem mais de 25 anos, são e escorreito do pescoço aos pés e cabeça avariada para além de todo o remédio.

Venho para casa carregada de sacos de supermercado e eles gritam lá ao fundo, um na esquina, o outro no passeio à frente do Mini-Preço. Canso-me da crueza da vida e da crueldade e injustiça e blá, blá que todos sabemos raio de vida insana, e os outros que não gritam e convivem de garrafa na mão nos bancos nojentos de dejectos de pombo debaixo das árvores. Estendidos lá ficam tardes inteiras debaixo dos pombos de garrafa na mão e conversam as suas conversas de sem-abrigo como nós temos as nossas conversas abrigadas entre quatro paredes de tijolo que nos isolam da chuva e do mau cheiro da sarjeta.

Está frio hoje, talvez não tanto quanto seja razoável para que justifique estar enrolada em mantas de lã aos quadrados, mas tenho frio. O frio até certo ponto acorda-me os sentidos e aguça-me a mente e hoje serve para me dar um ímpeto acrescido a fazer as coisas que tenho de fazer. Não dou tréguas à preguiça, afinal de contas, que se escapava da lâmpada mágica do Aladino que tenho ali atirada para um canto, a preguiça que sai lá de dentro de quando em vez em forma de génio e me promete desejos instantâneos sem eu ter de fazer nada. Vade retro, hoje não tens nada de mim: estou em modo eficiente e acabo agora isto como comecei: porque sim, para testar os meus dedos que são autónomos do meu cérebro e escrevem o que lhes apetece neste teclado branco mas que já vai precisando que vá buscar um algodão embebido em álcool para lhe puxar o lustro. Que é como quem diz, limpar as manchas cinzentas que os meus dedos lá têm deixado ao longo dos dias de tanto lá baterem.

Na minha rua calaram-se os urros do desespero ou da insanidade, há muitas horas. Dormem, decerto, no torpor do vinho de pacote estendidos na imundice da calçada já castanha que ninguém já quer lavar. Mas é uma rua bonita, como a vida, suja e limpa, triste e alegre, e barulhenta de gente e coisas como se quer uma rua de Lisboa onde a luz cintila em sete cores por entre as folhas das árvores. Gosto da minha rua e amanhã, em calhando, sorrio de volta ao residente da porta do Mini-Preço e talvez, quem sabe, lhe dê mais uma moeda.

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