21 de set de 2010

Onde estaria?

Escondera-se, não sabia onde. Se calhar por trás daquele alinhamento de seixos polidos à beira da duna, tão certinhos que lá estavam a dormir ao sol nos dias compridos e nas noites frias. Ou para além das paredes grossas da casa escura onde tentava tricotar a nova camisola de vida à medida do dever dos dias.

Escondera-se, onde andaria? Não o via, aquele desejo de qualquer coisa mais que não fosse o remendar daquela cauda imensa do rasto imenso da vida passada. Não queria viver para remendar. O sapateiro remendão não precisa mais que uma lamparina a óleo rançoso, linha, couro e as agulhas certas para tapar os buracos do uso e disfarçar a podridão do couro. Uma lamparina de óleo rançoso não mais ilumina que meia dúzia de palmos à frente do nariz. Não queria viver para remendar e acendia as luzes todas pela casa fora, contrariamente às mais sensatas recomendações de poupança de energia, recursos e dinheiro, o planeta que aguentasse pois a sua própria vida precisava de luz que lhe mostrasse o caminho mais que meia dúzia de palmos. O caminho de casa, dentro de casa, de um corredor ao outro, de uma sala à outra, que importava. Luz. E mesmo com tanta luz, escondera-se. Onde estaria?

Não se lembrava de ter sossegado a alma dentro de uma fiada de gavetas bem trancadas à chave mas se calhar era isso que tinha acontecido. Acendeu as luzes todas e procurou o armário, o móvel de gavetas, as gavetas, lá estavam as gavetas da memória armazenada que a cada dia se desvanecia, apagando-se um passado para dar lugar a outro. E lá estava a gaveta do futuro prometido onde o caminho da revelação se desdobrava límpido e claro debaixo dos pés, e era só segui-lo, pois seguia, vincado e nítido, pela vida fora. E era só ver onde iria dar, mas não, estava trancado na gaveta enquanto segurava a linha e o couro e a lamparina de óleo rançoso e os sapatos cambados de tanta vida pisarem.

Onde estaria? A chave estava na gaveta, mas deixou ficar a dúvida. Provavelmente, aquela gaveta mais não tinha dentro que meia-dúzia de pastas antigas com declarações de IRS preenchidas à mão e extractos bancários em escudos.

Por cima da cabeça quatro andares de tijolo e betão e só então por cima o céu.

Onde estaria aquele céu? Desmaiado agora pelas luzes amarelas de Lisboa, desaparecera de vista, sumira-se num sopro de desalento. Para voltar a acordar na manhã seguinte a espreguiçar as nuvens que teimavam em anunciar o Outono para logo fugirem e darem lugar a dias radiosos e quentes, se passados ao fresco, ou infernais e stressantes, se tivesse de se meter no carro sem ar condicionado e atravessar a cidade histérica da rentrée política e do regresso às aulas no Continente.

Estaria bem onde estivesse, e que descansasse em paz! E agora iria atacar o visco sangrento que voltara em vingança furiosa e não parava de escorrer, lavada pelas águas santas da banheira que não paravam de correr.

10 de jun de 2010

Neblina







Eram sete véus de neblina clara e fina que abraçavam o ziguezaguear do caminho de terra batida. A cada curva, a neblina adensava-se em veios amarelados e húmidos que roçavam o nariz e ondulavam ainda mais o cabelo despenteado pelo vento agreste e solto. Estava quase a chover mas ainda não. Ameaçavam os bagos grossos de chuva ainda trancados nas núvens sem se decidirem, no entanto, a descer os fios de neblina como acrobatas de circo, de cabeça para baixo, água a escorrer na água, orvalhada de amanhecer na orla da tempestade.

Dava passos incertos na berma do caminho que descia agora a ravina em direcção à praia. Chorões gordos e cravos romanos em plena floração beijavam-lhe o couro dos sapatos gastos pelas pedras do caminho que conhecia de cor. As pedras, conhecia-as uma a uma, testemunhos silenciosos do desassossego brando que lhe inquietava a alma naquela procura do momento da revelação nos livros, no mar, na brisa morna das tardes claras, no afundar dos pés doridos nas areias frias à beira-mar. Fechava os olhos e esperava que fosse essa a hora em que visse para além da cegueira dos dias. Em vão.

Um dia atrás do outro descia a ravina pedregosa com passos incertos em direcção ao mar, na busca inquieta das certezas que nunca são. Um dia atrás do outro, até que o Outono se fundiu no Inverno, que acordou na Primavera, que morreu no Verão.

Para o João Carreira, no seu aniversário
9 de Junho de 2010

30 de mai de 2010

Invisível



Sou inútil. Não sirvo para nada. Sou um achado de conveniência com horas de utilização limitadas. Convenho, é isso. Por vezes, quando dá jeito. Submeto-me aos padrões alheios desejosa de agradar e quando dou por mim deixei de ser eu. Não tenho voz própria, não posso. Sou uma sombra do que era, a alegria deixou de me visitar todos os dias e já não entra na minha janela grande aos quadrados de vidro. Não sei para onde vou. Todos os dias tento pisar o caminho que me leva àquele lugar verde de paz e flores mas estas pedras pesadas e rugosas caem-me em cima, as pedras da negação, do medo de ir mais longe, já, agora.

Abandonou-me toda a urgência de felicidade aqui e agora. Ou mais tarde, um dia quem sabe. Os momentos de felicidade do pequeno prazer, da circunscrita alegria que constroem sabiamente a leveza dos dias passam por mim e não me veêm. Estou invisível. Sou-o. Não tenho sombra, nem paz, nem alma. Deixei de ser eu e já não me encontro na brisa do Verão nem no orvalho das manhãs.

Tomem-me como sou e extingam-me vez.

20 de mai de 2010

Pés feridos

Teimava em pisar a relva luxuriante e gorda de flores e orvalho, mas quando afundava o pé tocava na pedra árida e seca, estéril de néctar e de desejo. Um pé, agora o outro, e voltava para trás, fechava os olhos e via o prado verde-choque, Lucy in the Sky with Diamonds. Uma barbaridade de cores e sons, cheiros inebriantes de desejo e carne transfigurada em amor e suor e risos fininhos de malandrice e piadas parvas.

Campos de trigo e chupa-chupas de espirais às cores, borboletas gigantes, sorridentes e com óculos, casas feitas de bolotas com janelas de chocolate e lá dentro a bruxa má, a roca e o fuso da Bela Adormecida que acordou há séculos atrás e não quer dormir mais.

Os pés escaldantes tocavam a pedra árida e rugosa escaldante partida pelo calor escaldante de um sol impiedoso e claro, escaldante e sem sombras, que tudo mostra e tudo vê. Penetrava a luz impiedosa do sol escaldante pelas coisas adentro e mostrava-as, cruas e despidas como eram na verdade, ramelas pela manhã, uma manta de fios de seda finos e quebradiços se não forem tecidos com desvelo e cuidado pelas mãos sábias que cuidam da roca e do fuso.

Pés feridos pela rejeição disfarçada do adiamento constante do prazer de pisar a relva gorda de flores e orvalho, encontram a rocha árida e partida pelo sol escaldante de luz crua e impiedosa que tudo disseca, ilumina e abafa.

8 de mai de 2010

Flutuante

Debaixo daquela tempestade havia blocos de cimento transparente que não assentavam no chão. As folhas amarelas daquelas árvores pitorescas, de fartas cabeleiras verdes, esvoaçavam em água moídas pelo vento impiedoso e ciciante. Era um vento ciciante, gago de golfadas violentas e fúria incontida, que cuspia as flores amarelas das árvores cabeludas tentando, em vão, derrubar os blocos de cimento transparentes que não chegavam ao chão.

Era uma imagem difusa de chuva e gotas grossas a escorrer lentamente pelo pára-brisas, tantas que eram as flores amarelas coladas ao vidro pela água da chuva e pela pressão da ventania.

Acordava, agora, lentamente, e via os blocos de cimento transparentes que não faziam sentido, cimento flutuante na tempestade violenta, que não arredava pé do meio do ar em que assentava, recebendo indiferente as bátegas grossas da chuva e as cuspidelas do vento norte.

Abriu o outro olho, depois do primeiro, as paredes brancas do quarto sem pétalas amarelas coladas pela chuva e pelo vento, brancas e nuas, de pregos pintados por cima pela preguiça de encontrar um alicate antes de lançar o rolo com a tinta mais branca que havia na loja das tintas, depois de se arrepender à última da hora do azul céu com que as quisera pintar.

Fora-se o cimento flutuante debaixo das pétalas amarelas rodopiantes pela chuva. Acordara por fim de mais um sonho absurdo, o preenchimento das horas vazias do repouso dos justos e da preparação dos guerreiros para o dia seguinte. Batalhas campais sonhadas em blocos de cimento leves como o vento violento que sopra as folhas cabeludas das árvores amarelas absurdas num fim de tarde cinzento e frio. 

31 de jan de 2010

Eram as pedras e o mar
E a areia que o levava
Levava a areia o mar revolto
Que nela se afogava, agradecido.

Era o céu de núvens manchado
E azul também um dia
E a terra molhada de amor
Encharcada de vento soprado.

Procurava o vento a água
Para a terra molhar de amor
Do céu arrancava as núvens
Que se partiam molhadas de dor.

De paz e guerra chorava o mundo
Resignado às curvas da vida
De paz e guerra chorava o homem
Que de uma noite amanhecida
Em dia que não mais acabava
Moldava o tempo curto que o separava
Do amor que lhe curava a ferida
Do tempo austero que lhe roubara
Dos olhos o sorriso e da alma o sonho.

13 de jan de 2010

Apenas porque sim


Fazia-se a avenida de sete estradas a direito recortadas pelos ramos das árvores plantadas no centro, alinhadas, aprumadas, generosas, centenárias. Abraçavam as árvores três estradas à direita mais quatro à esquerda, a quem cumprimentavam os ramos oscilantes pelo vento que não parava. Tão grandes eram as árvores que sombreavam duas das três estradas à direita e pelo menos três da esquerda, quando o sol despontava quente e sem misericórdia nas manhãs de Julho. Mas isso era lá mais para a frente, o Verão, que tardava a chegar simplesmente pelo facto do calendário marcar o mês de Janeiro ainda sem ter alcançado o meio, não porque o Inverno se prolongava mas porque nem a Primavera ainda tivera licença de se abeirar da estrada e fazer despontar qualquer botão de rosa ou mesmo de amendoeira nos campos para além da cidade, os do sul a debruarem o mar do Algarve pintalgados de branco e amarelo.

Concentrou os olhar no letreiro de néon azul e branco gigante do banco do outro lado da estrada e depois nas bolotas, que de bolotas nada tinham, penduradas nos ramos despidos dos plátanos que quase lhe batiam na janela. Aquilo tinha um nome, decerto, que a classificação de Lineu ou lá o que era identificaria algures num compêndio daqueles que listam todas as árvores, suas categorias e frutos, aquelas bolas com sementes lá dentro, como é que era mesmo que se chamavam quando as árvores não davam fruto. Que interessava. O tempo passava agora distraidamente, permitia-se agora que o tempo passasse distraidamente, cansada que estava de fazer e planear e dobrar e arrumar e manejar as horas do dia e também as da noite para caberem no tapete de vida que se lhe desenrolava todos os dias debaixo dos pés.

Se pintasse pintaria agora os ramos do plátano com as suas bolotas que não eram bolotas a tremerem ao vento de Janeiro, o vento da chuva que caía sem misericórida sobre a estrada que era sem misericórida massacrada pelos carros que sem misericórdia a pisavam dia e noite debaixo da janela. Atrás, um candeeiro de rua magro e espadaúdo de luzes duplas amarelas, um chifre para cada lado, e ainda mais atrás as arcadas do mamute gigante do banco, testemunho moderno e de dias contados da grandeza passageira dos homens, do dinheiro e do poder.

Não eram sete as estradas da avenida, mas podiam ser, aquela avenida de desejo e frescura onde viviam as árvores centenárias que a abraçavam e sombreavam nos dias de Julho que haveriam de vir. Mas que importava. Tinha agora os ramos do plátano despidos de folhas mas cheios de vento e bolotas que não eram bolotas. Chegava-lhe isso, tal como lhe chegava a oferenda dos dias tal como eles eram, e da vida tal como ela era, por muito que protestasse e se revoltasse contra o que queria e não queria, chegava-lhe a vida tal como ela era.

Em agradecimento por tudo aquilo que não tinha e que não queria, baixou a cabeça e sorriu de tanta tonteira e querer e desejo que apenas serviam para preencher as horas de preocupação e ruído. Queria paz, afinal de contas. E isso não lhe faltava e era o que interessava. Tudo o resto é passageiro, tirando a paz, pois no final tudo o que fica é a recordação da luz de um fósforo acabado de acender.

25 de nov de 2009

Chopin


Era aquele desconforto que não conseguia escalpelizar em palavras. Aquela sensação de receio, perigo, ameaça, sensação indefinida que não sabia atribuir a nada de concreto. Três passos fora da rota do dia-a-dia reavivara-lhe memórias do passado construídas de sons familiares e música debaixo dos dedos. Das poucas vezes que chorara um choro convulsivo e irracional fora agarrada a uma aparelhagem antiga que debitava chopinadas sublimemente xaroposas pelas mãos de Horowitz, e as lágrimas rolavam e atropelavam os soluços que lhe estalavam na garganta em golfadas sufocantes. Mais de vinte anos se tinham passado desde então e nunca mais nada do género se passara. Chopin passara a ser um amigo meio esquecido na prateleira das partituras, reanimado de vez em quando no teclado através de uma mazurka aqui, um prelúdio ali, passara-lhe com os anos a ligação anímica e violenta que tinha à sua música.

Regressara-lhe em doses milimétricas e escondidas entre as núvens do tempo o sofrimento inexplicável que aquela música lhe trazia. Nada de paz, era uma beleza torturada que lhe saía debaixo dos dedos de cada vez que o tocava, que lhe feria os ouvidos numa reacção sado-masoquista de cada vez que o ouvia. No entanto, de tanto repetir, banalizara-se o sofrimento e o repertório e deixara-o de o ser. Simplesmente. Podia ser isso, a banalização, a habituação, como aconteceu depois da Guerra da Bósnia, da Guerra do Golfo em directo, a banalização da violência e dos ataques dos mísseis em directo deixaram de nos violentar a alma à hora do jantar para passar a fazer parte da música de fundo da violência habitual do mundo.

Como explicar isto, nada disto é explicável, tal como o amor não é explicável, tal como as contracurvas de uma existência que arrisca os passos do dia-a-dia não são explicáveis, acontecem. Esta sua busca incessante da racionalidade para explicar o que não se explica esvaziou-a de sentido durante tempo demais, retirando-lhe o entusiasmo pela novidade, o mundo deixou de ser uma novidade pelo barulho constante que emite e as banalidades que grita nos microfones, nas televisões e nas conversas de manicure.

Chopin, agora, regressado dos mortos enterrados na prateleira das edições Urtext, dedilhação sobre dedilhação, anos de morosidade e estudo para o meter debaixo de mãos, trouxera-lhe a inquietude daqueles breves minutos a soluçar descontroladamente abraçada à aparelhagem antiga. Ainda se lembra, nem sequer era um LP, uma cassete dos Prelúdios, o sorriso em V do Horowitz recortado entre os dois orifícios da fita magnética e as lágrimas a escorrerem feitas estúpidas numa catarse sem qualquer tipo de explicação ou lógica.

Chora-se, diz-se, porque se sofre de uma coisa qualquer específica, porque se perde isto ou aquilo, porque não se consegue tal e tal, porque se é agredido, ou injustiçado, ou falsamente acusado, o rol não acaba mais do que dá origem a tanta lágrima que para aí anda. Portanto, chorar agarrada a uma aparelhagem a debitar Chopin é, concerteza, sinal de esquizofrenia, doença mental aguda ou outra coisa qualquer que se trata com remédios daqueles que só se vendem com receita médica.

Hoje viera-lhe esse episódio à cabeça e, mais uma vez, ficara a tamborilar, inquieta, desconfiada desta sua alma estranha que não sabia chorar pelas coisas normais porque se chora, e que só abria as comportas dos olhos por razões irracionais que a mente desconhece e o coração não decifra. O mal do mundo – esse, quem sabe, e pelo qual chorava espaçadamente e que, sem aviso, a fazia verter lágrimas abundantes – estava contido naqueles prelúdios tocados pelo pianista russo naquela cassete velha rasgada pelo seu sorriso sardónico.

O mal do mundo e a tristeza feitos música nunca antes nem depois ultrapassados.

23 de nov de 2009

Na minha rua

Ponho os dedos ao teste e observo o que sai. Sento-me porque não me apetece fazer mais nada e quebro à vontade da preguiça, cedo-lhe o espaço que precisa para se instalar em mim uma vez mais. É um novo hábito este, o da preguiça, e que me sabe tão mal. Arranjo assim justificação para fazer qualquer outra coisa que não seja nada, e escrevo, deixando os dedos vaguear no teclado à procura de um rumo.

Sete cintilações de luz diversas viram os meus olhos hoje no intervalo das árvores da minha rua. Uma rua de Lisboa com pessoas e carros e casas e árvores e sem-abrigo aos gritos nas esquinas porque até a preguiça da loucura os abandonou e gritam por, presumo, não terem mais que fazer. São dois os que gritam: um abre a boca e berra, solta uns urros altos e ritmados, de repente, quando menos se espera. Urra o sem abrigo no seu canto imundo que ninguém cuida, à porta do banco milionário que não o vê. O outro estacionou há meses à porta do Mini-Preço e grita para os clientes, sorrindo ao mesmo tempo. Grita frases ininteligíveis, solta dizeres em espanhol da boca sempre sorridente, dentes espantosamente brancos contra a pele negra e luzidia. Barrete na cabeça, estende um copo de plástico que nos empurra cara adentro obrigando à moeda. Não dou. Empurrei-o no outro dia, “hey, tira a mão!” ameacei com um ar mau, que me incomodava tanto grito à porta das minhas laranjas e dos meus bifes e requeijões. Tinha-lhe dado um euro, um ou dois dias antes, missão cumprida, agora não me grites mais. Mas lá estava ele, e está, sempre a gritar. “Aaaaahhhhhhhhh, ióoooooooooooooohhhhhhhh!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” “Heeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, ióoooooooooooooooohhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!! E não pára, fica ali aos gritos. Depois cala-se e pede “moneda, señorita”. Não tem mais de 25 anos, são e escorreito do pescoço aos pés e cabeça avariada para além de todo o remédio.

Venho para casa carregada de sacos de supermercado e eles gritam lá ao fundo, um na esquina, o outro no passeio à frente do Mini-Preço. Canso-me da crueza da vida e da crueldade e injustiça e blá, blá que todos sabemos raio de vida insana, e os outros que não gritam e convivem de garrafa na mão nos bancos nojentos de dejectos de pombo debaixo das árvores. Estendidos lá ficam tardes inteiras debaixo dos pombos de garrafa na mão e conversam as suas conversas de sem-abrigo como nós temos as nossas conversas abrigadas entre quatro paredes de tijolo que nos isolam da chuva e do mau cheiro da sarjeta.

Está frio hoje, talvez não tanto quanto seja razoável para que justifique estar enrolada em mantas de lã aos quadrados, mas tenho frio. O frio até certo ponto acorda-me os sentidos e aguça-me a mente e hoje serve para me dar um ímpeto acrescido a fazer as coisas que tenho de fazer. Não dou tréguas à preguiça, afinal de contas, que se escapava da lâmpada mágica do Aladino que tenho ali atirada para um canto, a preguiça que sai lá de dentro de quando em vez em forma de génio e me promete desejos instantâneos sem eu ter de fazer nada. Vade retro, hoje não tens nada de mim: estou em modo eficiente e acabo agora isto como comecei: porque sim, para testar os meus dedos que são autónomos do meu cérebro e escrevem o que lhes apetece neste teclado branco mas que já vai precisando que vá buscar um algodão embebido em álcool para lhe puxar o lustro. Que é como quem diz, limpar as manchas cinzentas que os meus dedos lá têm deixado ao longo dos dias de tanto lá baterem.

Na minha rua calaram-se os urros do desespero ou da insanidade, há muitas horas. Dormem, decerto, no torpor do vinho de pacote estendidos na imundice da calçada já castanha que ninguém já quer lavar. Mas é uma rua bonita, como a vida, suja e limpa, triste e alegre, e barulhenta de gente e coisas como se quer uma rua de Lisboa onde a luz cintila em sete cores por entre as folhas das árvores. Gosto da minha rua e amanhã, em calhando, sorrio de volta ao residente da porta do Mini-Preço e talvez, quem sabe, lhe dê mais uma moeda.

18 de nov de 2009

Tarde de chuva


Como é que uma tarde fria se reconfortava no jogo de luzes com que se rodeava – pensava, absorto na resolução de dois ou três problemas imediatos, daqueles que apenas tingem as horas que passam e não deixam rasto. Aquele vinho que não encontrava em lado nenhum e que prometera a Ana de presente nos anos dela, que se avizinhavam a passos rápidos, e do vinho não havia rasto, esgotada que estava, ao que parecia, a reserva nas prateleiras dos supermercados e mesmo das melhores lojas. Não se deve prometer nada, estava avisado disso mesmo desde sempre, não prometas, diz apenas que vais tentar e depois logo se vê, promessas para quê, e depois sentes-te na obrigação de as cumprir e cai-te no estômago a frustação de te sentires menor por não o conseguires.

Olhou pela janela, que o chamou pelas bátegas de granizo fino que lhe embatiam agora, o céu chorava pedras e ele tão confortável no seu jogo de luzes cuidadosamente distribuído pela sala, aquele sentimento caseiro de se sentir quente e recortado à medida do seu poiso, com tudo no lugar certo, as luzes incluídas. Luzes quentes e bem distribuídas pela sala, abatjours amarelados e uma ocasional luz mais branca no chão para não criar sombras, nada de luzes no tecto. O Inverno lá fora gritava e tentava entrar pela janela e chamava-o atirando-lhe mãos cheias de granizo aos vidros, em vão. O contraste de estar dentro e quente, aquela pequena felicidade do conforto de uma chávena de chá de gengibre quente com mel e limão para lhe atacar a tosse e a possível gripe que se avizinhava, mas até isso era reconfortante e familiar.

Tocou o telefone e atendeu. “Estás distante”, susurrou-lhe a voz chorosa de Ana do outro lado da linha, entrecortada por soluços baixinhos. Não respondeu logo, ficou a ouvir os soluços baixinhos que se ritmavam por qualquer razão com a cadência do granizo, agora mais leve, já transformado em chuva a bater nas capotas dos carros, no empedrado e nas janelas. Queria abraçá-la, passar-lhe as mãos pelos cabelos escuros e anelados, beijar-lhe as sobrancelhas finas e dizer-lhe que estava tudo bem. “Não estou. Nunca estou distante de ti, meu amor. Apenas me recolho às minhas luzes macias, hoje preciso delas e do cinzento desta tarde que me visita.”

Beijou-o Ana do outro lado da linha, até amanhã, meu amor, não apanhes frio. Não chores, nem soluces baixinho que amanhã não chove mais.

Promessas, mas havia que fazê-las para dar consistência à vida pequena. Querer muito fazer alguma coisa por alguém e comprometer-se a fazer e depois definir como objectivo chegar lá e consegui-lo. Era um acto de altruismo, pequeno que fosse, tinham-lhe ensinado mal que não se deve prometer nada. O coração mandara prometer e prometera. O vinho, as mãos passadas nos cabelos de Ana nas noites frias, uma troca de olhares muda e que tudo tem despejara-lhe o amor eterno e difícil no regaço.

O som da chuva deixara de se fazer ouvir: o Inverno mandara abrandar lá fora, por alguns momentos, as lágrimas celestes e as pessoas na rua fechavam os guarda-chuvas e atravessavam as passadeiras sem se molhar. Bebeu o último trago do chá quente e reconfortante, fechou os olhos e adormeceu.

11 de nov de 2009

Quando acordar


Era uma espécie de melaço escorrido no exterior do frasco, de consistência pegajosa, cheiro adocicado e tonalidade escura. Era esse o cansaço que sentia, um cansaço pegajoso e doce e escuro. Pouco antes, o mundo vestira-se de roupagens ricas, de veludos, brocados e sedas: que bonito era este amor desusado e sem porquê que, de súbito, se vestira de luz e se aninhara numa tocha fulgurante que a tudo alumiava.

Procuro-te, meu amor, e não te encontro. E como não estás em lado nenhum procuro-te nas ondas do mar e no rostalhar das folhas ao vento que vivem debaixo da minha janela. É um amor adivinhado este, o nosso que ainda não é amor, que é ausência e só isso, o tal tempo meu amor que me falaste e que existe para além deste tempo que conhecemos. Eram estas, assim simples e sem explicação, as histórias dos contos de fadas, acreditavas nelas? Onde andas, meu amor, que não te vejo? E como não estás em lado nenhum, procuro-te entre os meus lençóis e não te encontro, procuro-te na minha pequena história e não te encontro. Não estás dentro da minha vida, nem te sentas na minha varanda, nem já sei sequer se te vi a mostrares-me a tua alma, bela, fulgurante como a tocha que a tudo alumiava. E tão sereno, tão sereno que nem perdido pareces, meu amor. Gosto de te chamar assim mesmo sem o seres. Não és meu, nem amor, não o poderias ser, nem meu porque não o és, nem amor porque o amor é uma coisa de tempo sério e comprido e ganha com esforço e com paixão repetida e caminhos percorridos a dois de braço dado, campos de batalha conquistados, depois lá vem o amor. É isso que dizem.

Mas, meu amor, que te posso dizer senão isto: que é este o cansaço que sinto, pegajoso e doce e escuro. Não quero deixar de me cansar porque sei que, quando acordar, meu amor, tu nunca foste nem meu, nem amor, nem nada. Como o canto das aves que se calam ainda o sol não se pôs, também eu terei de calar este amor que não é amor ainda, para que ele não tenha que ser a espada de dois gumes que me vai trespassar a alma e acabar comigo. Agora que te conheci, meu amor, que meu amor não és.

31 de Julho 2009

Pip, ou o sentido literal do dever


Dizia há anos atrás o Pedro Abrunhosa que mais não podia fazer senão pip. Ou talvez pip, enfim, era uma condicionante, ao que parece.

Pip é uma palavra proscrita e que, entre outras coisas, pode dar azo a processos disciplinares e à expulsão liminar do facebook. Mas impõe-se a reflexão: que fazer senão pip? Páro por uns minutos e reflito na ‘produtividade das minhas acções do quotidiano. Dormir, acordar, trabalhar, comer. Pensar, pensar demais e sentir, por vezes de menos. E é tudo. Um mundo imenso e cheio de pessoas a falar e a dizer coisas a toda a hora, como eu estou a dizer agora, porque sim, porque me apetece. Uma confusão de carros a passar e buzinas e o roncar dos autocarros e lá no meio se conseguem ouvir as cigarras, sábias, que nos olham do cimo das árvores com pena do bulício em que vivemos, formigas constantes da vida constante e certa e segura, nos carreiros casa-trabalho-casa-praia-c
asa-trabalho-casa-dos-sogros-casa-praia-férias encaixotadas-casa.

Bem, pronto, concedo que há tanto que fazer que às vezes nem pip se pode. Por excesso de cansaço, ou falta de parceiro, ou de vontade, ou porque se piperia melhor com outro que não este agora aqui à mão de semear e que já viu melhores tempos ainda a verve lhe corria nas veias.

Mas não, pensando melhor, no pip é que está o ganho. Gastam-se as calorias, empinam-se as barrigas, toxinas fora do corpo, uma ginástica emocional e física que só tem ganhos e prejuízos quase nenhuns. Melhor pip que ir à praia, por exemplo. Pip na praia, então, ainda melhor. Muito melhor pip que ir trabalhar, ou voltar para casa para o jantar obrigatório às 8h00 em ponto. Muitíssimo melhor pip que ir a casa dos sogros e quem não substituiria as férias encaixotadas por uma sessão de pip contínuo tendo por único cenário umas cortinas brancas transparentes translúcidas e um final de tarde morno e de brisa corrente. Quais sogros. Quais miúdos e mais os seus trabalhos de casa, quais contas para pagar e IVA de 3 em 3 meses, qual trabalho que depois de estar todo imaginado e pensado lá vai correndo em entediante velocidade de cruzeiro, as vazas do crescimento e da mudança cortadas permanentemente pelo chefe, seja ele qual for que, está mais que óbvio, pip é coisa que não faz.

Pipo, logo vivo. Pensamento animalesco, este, que me cola à terra por baixo das pedras da calçada, baixada que sou à condição sub-humana de bicho que mexe e come e pip e já agora anda no carreiro para trás e para diante para que o estado recolha os impostos sobre o rendimento e o gaste no TGV e nas auto-estradas excedentárias por onde ninguém anda e nos estádios e essas coisas que toda a gente fala e diz mal mas ninguém vai lá rebentar bombas com cintos de dinamite e ideal pendurado ao peito, missal de vontades, intenções e mudança radical para este Portugal onde se pip tão bem e tão mal se vive.

Talvez pip, na verdade. E com esta é que eu me pip. Adeus facebook, tudo indica – que se pip!

5 de Agosto 2009

10 de nov de 2009

O fim do Capitão Almeida


Parecia feito de aparite e tinha um não sei quê de bloco lunar, rugoso, inacabado. Deixara a coragem à deriva, sem saber como a usar que não fosse na defesa desesperada da imagem que as mentiras de uma vida tinham ajudado a forjar. Cuspia glórias a cada passo e cosia galões na farda com a contagem saudosa dos despojos do passado. Era patético na sua vã tentativa de ganhar loas e amizades de circunstância para que, caída a noite, pudesse aguentar o peso de uma vida falseada, sem nexo, sem ventura, sem futuro.

Entrou, assim, o capitão, na efémera tenda de campanha que montara à beira da vida e viu-se como pela primeira vez ao espelho. Pegou na navalha da barba para se escanhoar a preceito para mais um encontro fortuito, antecipando o roçagar dos cetins e o perfume da carne tenra, exalando almíscar e rosas.

De repente, morreu.

Não contara com isso. Pensara poder perpetuar o jogo de maquinações e estratégia de uma teia complexa e bem montada que sempre lhe trouxera proventos gordos em todas as áreas da vida. Adiara sempre para o dia seguinte o polimento da superfície do espelho para que lhe avivasse a memória e aguçasse a visão daquilo que, na realidade, era. Tinha-se tornado num monstro e suspeitava-o quando o silêncio se fechava sobre o mundo e o remorso tolhido de dor espreitava debaixo da almofada. Era do que tinha mais medo, era o seu único medo: que o mundo o soubesse e que ele mesmo, sem saber como nem porquê, disso mesmo se apercebesse um dia, a ponto de se redimir.

Olhou para o próprio corpo tombado por cima do resguardo da banheira, a garganta aberta, trespassada pela navalha da barba, os olhos extintos de vida, as mãos suadas a frio, o medo estilhaçado em fragmentos de vidro que se confundiam com o espelho agora quebrado que lhe atravessava o rosto.

A sombra que deixou atrás depressa se apagou. Não teve tempo de ver mais nada, e desapareceu, agora sim, dentro de si mesmo, não deixando pegadas no mundo de que a História, alguma vez, quisesse falar.


18 de Julho de 2009

7 de nov de 2009

A velha, a sereia e o homem


Veio a velha, e disse: "Estás com cara de poucos amigos. O que se passa hoje contigo?"

E ele retorquiu:

"O tempo acabou. Esvaziou-se de falta de vontade. " E não disse mais nada.


A velha não se deixou ficar.

"O tempo não existe, não sabes disso? Só existe a vontade. Estás a ver a coisa ao contrário."

Não obteve resposta, a velha.

Desceu então a velha o rochedo onde estava sentada, passos trémulos da idade e da vida.

Na praia viu a Sereia deitada nas ondas que beijavam a areia.

"Sereia, que fazes? Não pertences aqui."

E a Sereia retorquiu:
"O mar acabou. Não tem lugar para mim. Estou entre um mundo e o outro e vou morrer aqui mesmo. "

Retorquiu a velha:
"Estás onde deves estar, qual é a tua dúvida? Não é este mar a tua casa. Pertences a todos, não a ti mesma."

A Sereia acordou. O Homem desceu do rochedo e falou:

"Acusam-me do que não sou, sufocam-me de tanto não ser, de tanto não querer. Que faço, velha?"

A velha olhou para a Sereia e para o Homem e viu a beleza e a força derrotados pelo quotidiano.

E disse:

Formem um exército de um só homem e vistam-se de cores brilhantes. Armem-se de amor, paz e alegria. Sigam caminhos separados, caminhem no isolamento da certeza e do triunfo. Não procurem o caminho pois ele não existe: comecem a andar já hoje e partam na direcção que o vosso coração vos comandar. Nas encruzilhadas não reflictam: tomem o caminho que vos puxa e não aquele que vos parecer mais sensato. No final, mesmo que percam, ganham sempre, porque vos ganhareis a vós mesmos."

E assim partiu a Sereia de costas viradas para o mar, ganhando asas por não poder caminhar, e o Homem voltou a subir o rochedo, de onde voou para dentro de si mesmo.

Encontraram-se no final da vida: a sereia ganhara tranquilidade e conquistara a paz, o homem sensatez e escrevia agora poemas. Ambos mergulharam no mar do tempo que não existe.

Foi um final feliz de tanta simplicidade.

5 de nov de 2009

Lua de Agosto

Estava aquela lua luminosa luminescente luarenta como apenas a lua sabe ser, diminuindo a olhos vistos a cada noite que passava, mas mesmo assim luando, essa lua luzente e lúcida. Olhávamos a noite que a lua beijava e luava, uma noite alumiada de prata, a cada noite menor e mais escura mas mesmo assim cintilante. O bulício lá longe das feiras e das farturas e das animações nocturnas obrigatórias de Verão, e nós na lua, que nos aluava serena. O presente alumiado de luz de prata e passos vagarosos, preguiçosos e felizes em direcção a um futuro que é agora. A lua, que disto sabe, alumiava-nos devagar e cada vez menos, minguando a sua luz sobre nós e sobre o mar e a areia e também sobre as farturas e as tendas das vendas de pulseiras de missangas e panos bordados, panos de praia, t-shirts chinesas e ciganas das fábricas do norte, carrinhos de choque e crianças lambuzadas de algodão doce e pão-com-chouriço. Aquela lua parecia só a nós chegar, cada vez mais pequena, antevendo um segredo negro de opacidade plena quando se fosse de vez para lua nova, empurrando-nos para a escuridão depois de nos ter aluado em estado de graça. A lua, sábia, a cada noite menos lua, que nos mostrava primeiro o seu reflexo nas águas macias de Agosto, para depois nos conduzir ao negrume abençoado, despojado de luz e lua, que nos faz recolher e ver que, logo a seguir, a lua volta a nascer, linda e luzente, derramando a sua prata nas águas macias de Agosto, e depois de Setembro e do resto do ano e do ano a seguir, lembrando-nos do ciclo infindável da vida que não pára e não nos deixa parar os passos vagarosos e felizes em direcção a um futuro que é agora. Lua quieta de Agosto de prata e noite, espargida de viço e brilho ameno.

11 de Agosto 2009

O buraco


É a vida um rendilhado de acontecimentos e pessoas interligadas com mais ou menos sentido e nós à procura do sentido nos pontos de encontro entre os diversos acontecimentos e pessoas. Há aqueles que vêem um sentido de destino em tudo, há os outros para quem tudo são meras coincidências, há ainda quem não tenha a certeza e dê o devido desconto, numa abordagem cautelosa às expectativas criadas que tantas vezes se goram sem se saber como nem porquê. São as dinâmicas que se criam e se destroem naturalmente, num acto divino de Shiva, o destruidor da morte e criador de vida porque também destrói vida e cria morte, repondo o equilíbrio onde ele é mais necessário. Às vezes não entendemos logo porque é que o chão nos é retirado debaixo dos pés, vamos nós placidamente a calcorrear os passeios da vida e lá caímos nuns buracos que ou não vemos ou não queremos ver, e depois lamentamo-nos da sorte e do destino e da injustiça divina e da dos homens. E o chão lá se vai, estava lá num momento e no seguinte desaparece, engolindo-nos com ele e forçando-nos a fazer a viagem de volta à superfície tantas vezes tendo de escalar paredes de limos escorregadios, laçar cordas várias vezes até que encontremos um ponto de apoio que nos permita fixá-las e subir penosamente de regresso à calçada. Um rendilhado de coisas, confusas, barulho, coisas, gente, amor, guerra e paz, enfim a vida.

E lá estamos nós a calcorrear o passeio de novo depois de cair em mais um buraco – "eu não caio em buracos porque os vejo sempre e sou tão organizado e prudente que planeio a minha vida toda ao mais ínfimo detalhe para que nada de mal de aconteça, a conta bancária a engordar com o acumular dos tostões do suor ou da sorte, mais uma casa de férias e as minhas viagens radicais para experimentar a vida em toda a sua plenitude lá do cimo das ravinas de onde me atiro de bungee e os mergulhos nas águas azuis turquesa do Pacífico onde vou conhecer peixes e algas de cores brilhantes que em Lisboa só consigo ver no écran do plasma acabadinho de comprar." E volta ele de mais aquelas férias e daquela satisfação de vida e contentamento e realização de ver tudo no lugar certo e as peças do puzzle todas encaixadas mas descendo ali ao Chiado coloca mal o pé, depois do bungee jumping em que arriscara a vida e um ataque cardíaco mas conseguira viver intensamente durante alguns minutos, pois coloca mal o pé e o torce e o parte e o chão ao lado da valeta aberta das obras eternas que se arrastaram do Inverno ao Verão lá se escancara e o engole, de repente, apenas um pé torcido que incha e não o deixa trabalhar uns dias e durante esses dias o peso da existência abate-se sobre o seu coração e mente e alma e espírito – vamos lá nós destrinçar o que é o quê e a natureza da consciência e onde ela realmente se aloja. E pronto, o buraco que se abre, lentamente, inexoravelmente, alguém que morre, alguém que parte e bate a porta com violência para nunca mais voltar, alguém que nos olha o movimento dos lábios mas não vê nem ouve o que temos para dizer, a vida que deixou de fazer sentido, o desalento, o cansaço, a mulher que lê romances de cordel aos 60 anos ao lado do marido gordo e calado que apanha sol na espreguiçadeira da piscina, duas horas de silêncio em que nada têm a dizer um ao outro que não seja “passa-me o bronzeador e onde é que vamos almoçar hoje”.

Evito esses buracos, caio noutros inesperados e negros, levanto-me, volto a cair, levanto-me, volto a cair mas do chão não passo, do chão que se me desaparece debaixo dos pés mas não me suga para o vácuo sem piso porque a terra é redonda e do outro lado estão os chineses com montes de chão para pisar, e a terra é também cheia de rochas e magma ardente que me queima o passado e me dá novo chão de onde salto um salto heróico e kilométrico para a calçada nova acabada de calcetar, branca, brilhante, lavada, onde não vejo mais buracos, lentes cor-de-rosa que uso de propósito para sorrir em vez de chorar.

É a vida rendilhada, cheia de pessoas e barulho e cores e acontecimentos ilógicos e terríveis e maravilhosos e banais e aborrecidos e bonitos e surpreendentes, basta para tal o tal sorriso e a disposição e vontade de se ir mais além e, com sorte, ver o buraco no chão antes que ele nos sugue ainda uma vez mais.

11 de Agosto 2009

Mais um degrau


Tinha bom fundo. Enfim, um fundo que as décadas tinham empurrado cada vez mais para o recôndito escondido da consciência, em boa verdade, mas bom fundo na mesma. Caçador de profissão, gostava de contar troféus, poli-los com um pano macio, dar-lhes o brilho, rememorizá-los, enumerá-los, recontá-los na noite dos dias quando o desencanto do presente se fazia sentir de forma mais viva. Degustador de profissão, acordava contente com o gosto a doce da véspera, os aromas da conquista real ou imaginária ainda ferrados no palato, agora ligeiramente amargo. Amigo do mundo de profissão, fazia gáudio em abraçá-lo com rasgos largos e ruidosos de emoções genuínas à flor da pele. “Aqui estou eu”, fazia lembrar permanentemente, cheio de histórias para contar e uma vida coberta de peripécias e aventuras rápidas, a vida devorada a cada passo há muitos anos atrás e agora apenas um acumular de horas até ao próximo evento digno de nota e do lápis da memória, cada vez mais espaçado, pirilampos de lanternas fugazes nas caudas e que mais não faziam que alumiar parte de alguma noite escura perdida entre mil noites de breu e sem céu.

Perdido naquela escadaria tão larga como o mundo e de que não via o fim, marchava a passos seguros pelos degraus rugosos, evitando as esquinas mais brunidas que o levariam ao tombo certo de volta ao limiar do caminho. Nada disso queria, procurando a adolescência perdida nos olhos claros das mulheres que lhe sorriam e na seda dos cabelos brancos tingidos de louro, reminiscências de uma idade de ouro em que vivia errante de nostalgia. A música, os ritmos de outrora, as mulheres de outrora, a velocidade do vento na cara a rasgar-lhe a alma livre, protegido apenas por aquele famoso blusão que lhe ungira a fama e lhe abafava o corpo em dias frios.

E agora, a vida. Aquela pirâmide de êxitos acumulados, seguros, palpáveis, e a felicidade, ali tão próxima, bastava lançar-lhe a mão e tocar o pico da pirâmide, subir mais uns degraus daquela escadaria larga como o mundo de que queria adivinhar o fim. O pico para onde se queria lançar, corredor de fundo mas a direito e agora tinha de subir e olhar apenas aquele pico e ignorar os troféus acumulados e o passado e as mulheres de outrora com os seus sorrisos quentes e as suas palavras de circunstância que lhe queriam devorar o corpo e apanhar-lhe boleia para a próxima praia de areias douradas e águas frias.

Mais uma etapa, mais um degrau. Era largar aquela caixa de paredes altas forrada a notas e ruído e comprar um espelho, mesmo de cobre, polido como os troféus que polira anos a fio. Um espelho de onde a volta do seu reflexo lhe provocasse mais que um sorriso aprovador e onde visse aqueles pequenos caminhos raramente assinalados nos mapas das estradas, espelho-guia da viagem até ao pico nos passos doridos daquela escadaria de que, agora, já talvez conseguisse ver o fim.

17 de Agosto 2009

Depois da tempestade, meu amor


É o amor uma espécie de mistura alquímica de componentes variáveis e indefinidos que convivem aleatoriamente numa espécie de alguidar, ou ânfora grega, se assim for mais romântico, um alambique de braços retorcidos também sendo recipiente adequado a tal mistura insólita.

Vai e vem, o amor, como as ondas do mar, que lugar comum as ondas do mar que vão e vêm e são como o amor que está lá agora e no momento seguinte desapareceu para regressar uma vez mais e fazer sentir o seu toque inconfundível de ansiedade e dor e prazer.

Tomo uma bengala na minha mão, firmemente esta bengala de castão de prata recortada em arabescos indecifráveis que me dão a ilusão da segurança de cada passo apoiado na bengala infalível que não me deixa vacilar. Pego na bengala, espécie de Cúpido que a cada passo se crava no chão e não me deixa fugir deste amor que vai e vem como as tais ondas e as núvens feitas de nada, apenas cargas de água e tempestade que me fazem rodopiar ao vento tragada que sou pelos pingos grossos da chuva que estala das núvens em bateladas zangadas que estouram em cima de mim e me afogam e lavam.

Sei que te quero, meu amor, olho para dentro da minha caixa de cigarros e vejo-te lá guardado a dizer-me “não fumes tanto” e vejo-te também a atravessar a rua e a sorrires com esse teu ar gaiato e a acenares-me feliz de me veres mais uma vez que se sucedeu a outra e mais outra ainda. Sei, meu amor, mas tem paciência comigo e com as minhas núvens carregadas de tempestade e bateladas de água em remoinhos acumulados de liberdade e independência e intolerância e esta auto-suficiência que me transformou numa península. Felizmente numa península e não numa ilha de orgulho e sarcasmo face ao mundo ali tão perto e tão tonto, grande que sou no meu desprezo pelas praias carregadas de gente de braçadeiras e pranchas de surf e bichas de automóveis encarreirados para irem todos ao mesmo sítio ao mesmo tempo no mesmo perímetro circunscrito de liberdade a conta-gotas, simulacro de liberdade que todos pensam que querem mas dá tanto trabalho e medo e esforço. Orgulho, o meu, meu amor, que te quero e sei que te quero e até nas bichas te espero pacientemente cruzando estas águas a vau e fazendo pontes para o outro lado para te ver e te trazer até mim.

É o amor esta mistura de ingredientes insólitos, fórmulas únicas de equações desconhecidas de cada vez que acontece e será agora que atingi a fórmula perfeita e o número dourado, a regra de ouro da simplicidade que me vai arrancar à minha fortaleza de basalto e granito sem vigias rasgadas para o vale. Construo uma nova casa de barro seco ao sol estridente das duas da tarde, barro que enrijece e não se desfaz com as águas da chuva que caiem em bateladas violentas, estalos na cara dos deuses que insistem em nos fazer imperfeitos à sua imagem e semelhança. Está fresco e agradável dentro desta casa nova simples e de portas-janelas abertas sobre o jardim que acabei de florir com o sorriso com que acordo todas as manhãs. Sem sebes, este jardim de margaridas amarelas e crisântemos vermelho vivo, salpicado de rosas sem espinhos e odor inebriante, o cheiro da tua pele, meu amor, da tua alma colorida e que não me deixa dormir.

17 de Agosto 2009

Os cotovelos do rio manso


Tenho os olhos caídos de cansaço, mal se abrindo, subjugados pelo carrego da noite e das horas prolongadas de um dia pesado. Mal vejo, núvens de porcaria acumulada nas lentes de contacto que não tenho paciência de ir tirar, um corredor para calcorrear de ida e volta dá tanto trabalho a esta hora da madrugada em que só quero arrastar-me para a cama - mas não o faço. Inquieta, fico-me neste sofá que me dobra as costas e me envelhece, cão nos pés, janelas abertas a gritar ventania para dentro de casa e aqui me fico, abrindo este écran branco a que tento dar vida para que me dê em troca respostas.

Tema tantas vezes falado e maturado até ao enjoo, os cotovelos dos caminhos da vida que quinam violentamente mal se espera uma descida suave e feliz, e lá se firmam as curvas abruptas, socos no estômago, vendavais de tornados densos. Patins, são como as rodas dos patins que nos fazem deslizar rápidos e, no cimo do declive, abrangemos todo o vale com o nosso olhar e temos um vislumbre do futuro, e até dos cotovelos do rio que tentamos contar e mapear. Tão rápido é o clarão que o queremos reter no instinto e o transformamos numa espécie de sexto sentido, ou vice versa, nem sabemos bem. Lá está, o destino, a vida que se desenrolou clara e límpida à frente dos olhos, de súbito, aquele clarão que torna as cores vivas e os contornos precisos e nos faz ver as fronteiras de tudo, o princípio e o fim. Omniscientes por um segundo, regressamos em queda livre à escuridão relativa em que vivemos todos os dias e cá estamos, no sofá sentados, a escrever para um écran branco que nos responde aquilo que queremos que nos responda. É bom este controlo das palavras, das letras, que nos obedecem, esticam e encolhem à nossa mercê, as letras infinitas que se compõem, juntam e separam ao sabor dos dedos e da mente rápida. E a vida regressa aos retalhos que vamos cosendo em linhas finas de seda, leves de algodão ou grossas de estopa, pontos mais ou menos perfeitos que vamos rematando, agulhas de aço inoxidável a picar a carne dos dias e a dar-lhe sentido.

Inquieta, sei que estou inquieta neste pantanal que é agora pantanal, amanhã talvez já chão seguro, ontem outra coisa qualquer. Pequena que sou, a grandeza escondida no deslizar dos dias mas lá está, a grandeza, vou lançar-lhe a mão e fechá-la firme debaixo dos nós dos meus dedos. Ah, o mundo tão vasto e pequeno, emoldurado num LCD e debitado à força e a cores para dentro dos meus olhos. Que me importa o mundo nestas noites em que me sinto aquela ilha rodeada de mar revolto e escuro, salpicado de rochedos e sem outra terra à vista, apenas a ilha negra de vegetação rasteira e batida pelo vento.

Mas depois fecho os olhos e vejo o meu rio. Os cotovelos do rio manso, a paisagem deslumbrante e quieta de amor e placidez, detenho-me nos cotovelos do rio para o amar, abraçando a paisagem bela e perfeita que este clarão de omnisciência torna tão clara, óbvia, minha. Comovo-me com os cotovelos do rio manso que é o meu e não os temo porque a cada esquina do rio a paisagem surpreende ainda mais, carregada de esplendor e agridoce, aventura e ousadia, lances de vida sem jogo e que se tece num feitiço de amor transformado em tapeçaria perfeita de retalhos harmoniosos serzidos a fio de seda selvagem.

O rio, o meu rio manso.


21 de Agosto 2009

Não sejas assim


Não sejas assim: denso como a noite, claro como os dias floridos de Maio. Mete-te na tua vida e pára de tocares a minha com as costas da tua mão. Que deixas, como se nada fosse, pousada sobre a consola de mármore da entrada, largando impressões digitais espalhadas ao acaso nas páginas do caminho.

Não sejas assim: bruto como as casas, leve como o vento de Setembro. Não sejas tu, para quê assim seres tão tu, tentando controlar o conta-quilómetros desregulado do teu carro de corridas. Mete-te à tua estrada e pára de tocar a minha calçada com as rodas viradas dos teus despistes desastrados. Guarda o turbo na garagem e fecha-a bem trancada ou vai guiar o teu carro nas vias rápidas turbulentas da tua cidade distante.

Virei o cruzamento e esqueci-me de ti. Olho para trás todos os dias e apenas vejo as silvas crescidas na berma da estrada, espinho contra espinho, e guardo a minha espada bem guardada pois não te quero libertar do teu sono agitado. Fica-te nele e repousa bem enquanto comandas em fantasia essa tua vida entrelaçada de desejos imediatos e mulheres louras contadas à peça.

Não sejas assim: não te faz bem ao sangue doente que tens de controlar a cada gota que passa, chicote em punho por um lado para domares o imprevisto, rédea solta por outro para sorveres ainda mais uma conquista urdida no teu esquema diário de horas apertadas.

Não sejas assim: mecha de dinamite instável que tentas conter à lei da mentira, sincero e falso, claro e escuro, bravio e delicado com vergonha de o ser, jogador dos dias que se atropelam à tua frente sem que possas fazer nada para os parares e contorceres à tua mercê.

Larga o poste ancorado às areias duras deste mar batido e mergulha nas ondas frescas que beijam paragens distantes e te querem levar contigo. Vai, pega nos pincéis e nas telas escondidas e pinta-te nelas, garrido de cores explosivas como a tua alma nobre mas tão escondido que estás debaixo desse teu molho de limos secos e espinhos aguçados de dor e insensibilidade.

Vai. Não sejas assim.

21 de Agosto 2009