5 de nov de 2009

No vale


Entre uma montanha e a outra havia este vale, que não tinha grande extensão. Por via da sorte, ou mesmo do destino, aquele vale nem era muito largo nem muito comprido, e o caminho até se fazia bem, entre uma montanha e a outra. Olhando-se de longe, nada parecia especialmente difícil naquele percurso entre a montanha parcialmente queimada pelos fogos de Verão e ressequida pela falta de água, e a outra elevação que se avistava ao longe, ao que parecia densamente florestada e até salpicada de cores vivas – raro é as montanhas aparecerem assim coloridas ao longe, são mais os prados nos vales, nas planícies e em alguns planaltos que se cobrem de flores na Primavera, ficando pintalgados muitas vezes até Verão adentro.

Iam a meio caminho entre as duas montanhas, mas um ia mais atrás que o outro. Um tomara a identidade de Perséfone ao se lançar ao caminho, tendo descido a montanha seca e encontrando-se, quando abriu os olhos uma manhã, a caminhar o vale em passos incertos. Olhava para trás, para a montanha seca, onde via nitidamente as entradas disfarçadas para os reinos de Hades de onde saíra pelo seu próprio pé e sem precisar de Hermes para nada. Em frente, lá estava, aquela montanha estranha, florida, coberta de madressilvas roxas, jasmins brancos e dálias cor-de-sangue, tão apetecível e cheia de recantos frescos e caminhos felizes para se ir saltitar de pés descalços logo pela manhã. Imaginava isso mesmo, sair de casa e saltitar nos caminhos felizes sem sapatos nem nada que se parecesse a maçar-lhe os pés que queria mergulhados no orvalho fresco da primeira luz do dia.

O outro, mais atrás, libertara-se agora da montanha seca mas a ela voltara uma última vez para cumprir o consolo dos últimos dias. Cumprir o consolo era um estranho aforisma mas fora isso mesmo que o levara a ficar mais um pouco na montanha seca, depois de já se ter feito à estrada do vale com Perséfone por companhia. Adónis, tomara-lhe a identidade quando saíra da montanha seca e se apaixonara por Perséfone com quem se lançara à estrada do vale. Não pertencia àquela montanha seca, mas tinha adormecido um dia à sombra de uma enorme palmeira ressequida, porque até as palmeiras acabam por secar se não cai do céu, ou de mão caridosa, a pouca água que precisam para se alimentar.

Um dia tinham adormecido também os dois à beira do rio que corria ao longo do vale curto, exaustos de amor e esperança e tinham vivido por breves instantes na montanha florida tão ali à mão, que os esperava logo ali no fim da estrada do vale. Morada dos deuses, tinha a entrada barrada a Hades que se contentava em ficar na sua montanha seca a gizar esquemas de angústia e pequenez para cima das pessoas que lá iam parar e que, sem saberem, eram seduzidas pelos seus esbirros disformes para dentro das entranhas da montanha, onde tantos ficavam presos anos a fio, na modorra dos dias, no calor enganadoramente ameno das lareiras de Inverno. Era mais um purgatoriozinho, aquele inferno de Hades, que reservava as caldeiras de calor insuportável para os verdadeiramente maus de coração – e havia tão poucos maus de coração que Hades tivera que expandir as fronteiras daquele infernozinho mais ou menos ameno para poder nele fazer caber resmas e resmas de viajantes acomodados aos nós do tempo e ao sabor sempre igual da comida de todos os dias. Não sabiam eles que as portas do reino de Hades estavam sempre abertas, Perséfone sabia-o e estava sempre a entrar e a sair e desta vez saíra determinada a não voltar mais.

Ia mais à frente, Perséfone, no caminho do vale e ia agora sozinha. As horas passavam e Perséfone continuava a dar os seus passos lentos em direcção à montanha florida, mas ia sozinha. Pensara sempre em fazer aquele caminho e agora lá o estava a fazer. Abrandava agora o passo para esperar por Adónis, mergulhado uma última vez no seu último calendário de obrigações e dívida à montanha seca, a cumprir o consolo dos últimos dias. Nos céus nem uma ave que lhe servisse de companhia, e ia Perséfone a passos lentos e já disposta a mudar de identidade mal tivesse percorrido meio caminho daquele vale pequeno. Não mais concubina da morte, companheira dos infernos, iria agora reinar naquele pequeno reino de paz e harmonia cujas ruas eram ladeadas por pérgolas de buganvílias e macieiras sempre em flor. Estendeu a mão e sentiu Adónis, o seu espírito vivo e brilhante, a roçar-lhe a alma. E então prosseguiu viagem, sabendo que os dias do vale pequeno iriam chegar ao fim, por muito longos que lhe parecessem naquela travessia aparentemente tão curta mas que sentia agora tão lenta e solitária.

Eram só mais uns kilómetros e estariam lá. De mão dada entraram na montanha florida, estranha montanha coberta de flores que não feneciam nunca, onde a neve não caia e o frio mal se fazia sentir. Armados de doçura e paz, Perséfone e Adónis contruiram lá uma casa de terraço branco e vista desafogada sobre a vida, e nunca mais voltaram à montanha seca, ali tão perto, à distância de um vale curto e onde corria um rio profundo de águas mansas e transparentes. No fim da vida não morreram, mas também não viveram para sempre: deixaram de existir ao mesmo tempo e nunca mais se ouviu falar deles. É assim que acabam os deuses e os contos extraordinários são escritos, promessas de futuro tornado presente nos segundos que correm, rápidos, inexoráveis, no caudal do rio manso e de águas transparentes do vale curto das nossas escolhas.


2 de Setembro 2009

Tenho um amor nas tardes difíceis

Tenho um amor nas tardes difíceis
E nos campos de alecrim
Nos dias da água agreste
Nas pedras da tristeza
Nas núvens do vento leste.

Tenho um amor dentro de mim
E nas curvas da calçada
Nos montes da abrigada
Nas dores da incerteza
Tenho este amor de alma dada.

Nas noites de fios de estrelas
No rouxinol que canta e reza
E nas escadas da saudade
Tenho este amor que arranha e arde
Este amor meu que não me larga.


15 de Setembro 2009

Boa noite, meu amor, e bom dia outra vez


Tinha-te aqui dentro do bolso, como te dizia antes de te ver à transparência da chama da vela de cera escorrida que me lançava luz, por vezes, sobre quem tu és. Tinha-te aqui e bastava abrir o bolso e olhar lá para dentro e ver-te, acariciava-te nas vagas de frio, bastava-me pôr a mão no bolso e aconchegar-me de te tocar. Estás agora aqui, não mais uma imagem construída sobre o amor dos dias distantes. Cristalizaste-te no tempo, abriste uma vaga nas horas do dia que eu preencho permanentemente com a tinta da minha caneta, escrevo-te, rabisco-te a pele e o riso e não tenho letras que cheguem para te fazer caber nas páginas brancas dos meus cadernos rasgados, de lombadas descosidas de tanto terem esperado serem escritos e só terem tido ausência e nada, ausência e tédio, nada lhes quis escrever e eles em vez de se manterem direitos e novos nas estantes, entristeceram e tombaram as lombadas e rasgaram as folhas brancas sem nada escrito.

Estendo a mão e toco-te, passo-a pelo teu braço moreno que me enlaça e quer e não me chegam os segundos das horas que passam para preencher os cadernos vazios. Procuro o espaço entre as letras e entre os segundos para te encontrar por inteiro e mesmo assim não tenho frases escorreitas para te compôr um poema decente, identificar-te na rima das frases que deviam mostrar-me, vincadas, de contornos definidos e presentes, aquilo que és. Não consigo, por seres muito mais que as letras do alfabeto compostas de mil formas diferentes, e não as consigo emparelhar para te construir em sílabas nítidas de sentido.

Amo-te, meu amor dos dias presentes, e não cabes já no meu bolso, perdeste a forma e caminhas agora em pura energia tranquila pelas ranhuras da minha vida, preenchendo-as como se nada fosse, assim, sorrindo e franzindo a testa de preocupação pelos dias vindouros. Sereno, tão sereno que és e cheio de luz e sombra, os dias que passam trazem-te mais de ti que agora regressas ao que és sem medo de cortar o silvado denso nem de te arranhares nos espinhos aguçados do desconhecido. São apenas os dias da mudança, meu amor, e da reconciliação do passado com o presente na construção do futuro. Parece isto um slogan de campanha, e é, a minha campanha de batalha firme pela conquista das adversidades, olho-as nos olhos com desprezo e sopro-lhes um sopro cuspido de desdém e logo elas se recolhem de medo de mim e me servem banquetes regados de vinho doce e iguarias delicadas, minhas aliadas no desbaste dos caminhos pedregosos que mais não deixo que me torçam que um pé. Contigo, meu amor, minha força, meu destino.

Recolho agora e deito-me, rindo-me de tanta lamechice que me sai da alma porque mereces isto e tudo o mais, e hoje mais que nunca. Deito-me agora e estendo-me nos lençóis que tantas vezes quase desfizemos de amor e suor e desejo e durmo um sono leitoso e aromático, o teu cheiro colado a mim como a tua alma nos meus poros.

Boa noite, meu amor, bom dia outra vez, e boa noite uma vez mais, assim todos os dias até ao fim.



15 de Setembro 2009

As ondas tranquilas


Era aquele caminho cheio de cascalho a escorrer pela falésia abaixo onde a sombra das rochas se projectava nas curvas das pedras. O sol entrava pelas ranhuras do ar e cozia a terra e a areia que se misturavam no carreiro com o xisto quebrado que se desfazia debaixo dos pés. As falésias recortadas sobre o mar onde se aninhavam espantosas praias, enseadas apetecíveis longe do resto do mundo.

Deitaram-se nas areias cobertas de seixos rolados e passearam nas rochas cobertas de lapas, banhando-se nas piscinas naturais de águas límpidas e mergulharam nas ondas tranquilas daquelas praias longe de tudo, e recarregaram as baterias com a energia do mar e os raios de sol que lhes beijavam a pele. Foram dias felizes como são felizes os dias que deixamos que assim sejam.

Salgada e quente, chegou a casa e perpetuou mais umas horas a frescura do mar na memória da pele, agradecendo mais um dia salpicado de bom humor, serenidade, beleza e futuro.




28 de Setembro 2009

Mal



Não me interessa nada morrer de repente e sem saber bem como. É um acto involuntário, este de morrer, quando se exclui a procura da morte por moto próprio, bem entendido. Repentino ou duradouro, indolor ou excruciante, acarreta-me o processo um certo pouco à vontade e uma grande dose de inquietação. Não me dava nada jeito, de um momento para o outro, quinar, fenecer, ir-me desta para melhor assim sem mais nem menos. Pelo que me deparo com este carreiro atravessado no meio deste pomar de macieiras, ainda em flor, não obstante estarmos em Novembro, e a lembrança da maçã envenenada da bruxa má da Branca de Neve vem-me à ideia de imediato.

Transporto-me à história e como de branca pouco tenho e de neve ainda menos, presumo que a bruxa má que me persegue não me inveja pela minha beleza albina de lábios polposos, como a da princesa da história, mas antes escava-me a alma à procura do mal em semente que lá está e quer fazer seu. Empurra-me, a bruxa, contra os galhos das árvores alinhadas do pomar e tenta que eu apanhe as maçãs por minha iniciativa, e as coma, compulsivamente, umas a seguir às outras, e os pobres estendem as mãos famintas e eu engulo as maçãs inteiras para não lhes deixar nada, nem o sumo que me escorre pelo queixo abaixo, e até o vómito por excesso de ingestão que se segue é escondido num buraco fundo.

Tem dias, este mal que todos temos – que soberba dizer isto, um alívio pela partilha do mal pelos outros, atribuindo a cada um a sua quota parte no mal que nos rodeia. Olho, e vejo-me inocente, coitada, bem intencionada, coitada, generosa e ingénua, coitada, coitada de mim tão boazinha que sou e o mal à minha volta despeja-se em cima de mim mal olho para o écran de uma televisão à hora do telejornal. Os outros, os maus, lá estão a perpetuar o mal sobre o mundo e eu, coitada tão boazinha, não posso fazer nada.

Vem então a bruxa má que me escava o mal que tenho dentro. De sombras e luz somos feitos, não haja ilusões de tanta sombra que temos acumuladas no sangue e claro que o sabemos e as confessamos ao padre, à melhor amiga ou às paredes surdas e frias que nos rodeiam e lá prosseguimos o dia seguinte na certeza que neste dia seremos um pouco melhores e menos inertes e menos egoístas que no dia anterior.

Panaceias bem embrulhadas em papel de lustre e rematadas com um belo laço que engolimos para abafar a dor dos dias inconsequentes que apenas levam a mais outro, nos dias em que as cortinas da chuva pequena nos toldam a visão para as avenidas largas e brilhantes do nosso destino. Remexe a bruxa má nas feridas do mal e envenena-nos de fruta e ódio para que adormeçamos sem lutar um dia mais.

Não deixo que me remexa a bruxa, vou lá escavar eu mesma e extirpar às mãos cheias a podridão acumulada da minha própria negligência. Para com o mundo, para comigo mesma, não me vá a morte apanhar desprevenida num dia de sol e esperança e depois tenho pena de não ter ido um pouco mais além que a predestinação anunciada de uma vida média e comezinha, resignada de ser, de ter e de haver.

Não morro, pois, não me apetece, deixa lá ver se é desta que acordo e me deito a sorrir, um dia e outro e mais outro a seguir, mão firme fechada sobre o mal, definhando-o à força de pulso.

4 de nov de 2009

Tenho-te na pele


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Tenho-te na pele. Acaricio-me e vejo-te tremer pois é a ti que toco quando me toco. Estás-me fundido no sangue que me transporta a luz e me alimenta as células, estás lá, alimento-me de ti, meu amor. Estou sentada nesta rocha por cima das falésias que espreitam o mar revolto da existência e não se mexem, tranquilas de conhecerem a agitação perene das ondas, sabendo que sempre será assim, e fundo-me nas rochas serenas, imutáveis na sua sabedoria. Atravesso o mundo para o outro lado e estás comigo, carne da minha carne, não há distâncias que nos separem e o mundo agitado que se banha nas ondas agitadas por baixo das falésias de rocha não nos consegue tocar com a sua ansiedade e tragédias e inconsequência. Com a tua mão na minha percorro desertos de areia onde o calor se evapora e cria névoas de distorção à frente dos meus olhos, mas atravesso-o segura de saber que consigo chegar ao outro lado, encontrando oásis de descanso pelo meio porque estás comigo e não me largas. Deitei fora os livros que me diziam que não existem amores assim e que a vida é para ser vivida um dia de cada vez: vivo-os todos de uma vez, os do passado e os do futuro, agora, vivo-os contigo, minha vida que me és tão para além da vida pequenina da existência cinzenta que recuso. Com a tua mão na minha vivo, assim, sempre.

3 de nov de 2009

Trinta gramas de condimentos


Foto de Miguel Valle de Figueiredo


Eram exactamente trinta gramas de ervas de condimento. Nem 29gr, nem 31gr, a medida exacta do sabor perfeito para aquela combinação de alimentos que estava a preparar. Olhava para o tacho e sabia, gulosa do resultado final, que a medida perfeita das coisas se acha no equíbrio certo entre os diversos sabores. Na vida também era assim e o excesso, ou falta, dos condimentos certos ou das suas medidas exactas é que lhe tinha feito desviar-se do caminho fácil da felicidade pelo prazer de usufruir de todos os sentidos.

Uma mão cheia de flor-de-sal era a medida incontestada para trazer o sabor perfeito à complexidade da receita que lhe saía das mãos. Tantos ingredientes em mãos cheias ou colheres mal medidas, sempre essas na proporção correcta para um apuramento requintado do paladar, já não precisava das colheres-medida ao grama que lhe davam a certeza da matemática química estar a ser respeitada até ao mais ínfimo detalhe. Apuraram-se as mãos ao longo do tempo, transformando-se em medidas precisas da dimensão do espaço e do sabor da vida, e cruzavam-se agora velozes sobre as frigideiras, facas afiadas e tábuas de corte.

 A vida, estendida na tábua dos vegetais, depois de ter passado pela tábua das carnes e evitado a dos peixes por uma mera questão de odor, dissecava-se-lhe agora entre os dedos à velocidade da lâmina que usava com destreza com a mão direita. A esquerda, essa, agarrava firmemente nas pontas da existência por forma a deixar à irmã gémea o espaço de manobra para a precisão cirúrgica e estética do corte da própria vida às rodelas e aos cubos.

Parou. Estancou se súbito a meio do cozinhado e a panela deitou por fora a água a ferver, borbulhando furiosamente e espirrando o calor do inferno por cima dos bicos do fogão e dos seus pés descalços. Soltou um ai de dor intensa, um gemido gritado dos confins da alma e da superfície da pele assim atacada, e calou-se logo de seguida, faca na mão direita, pontas da existência soltas pela esquerda e tomando os seus próprios rumos independentes da sua vontade. Ficou, ali, quieta, muda de querer, olhando para a colher de medidas certas que enchera de condimentos, e largou então uma lágrima salgada para cima da receita que tanto trabalho lhe dera a preparar.

Sabia em teoria que ainda se podia salvar o jantar. Aliás, sabia que mesmo com os pés queimados e a alma manchada de dor conseguiria transformá-lo num banquete requintado e abundante de iguarias ainda por descobrir. Largou então a tábua de corte e sentou-se num canto da cozinha mal iluminado e fechou os olhos, massajou os pés queimados com meio tomate e duas gotas de alfazema e tentou sentir o alívio da cura instantânea dos remédios milagrosos. Um olhar à cozinha inundada de água a ferver e rodelas e cubos espalhados no chão, especiarias derramadas nas bancadas e o desalento instalou-se. Calçou-se, saiu de casa descendo pelas escadas de incêndio, e foi directa a um McDonald’s.

1 de nov de 2009

A Santa


São circulares os passos da santa à volta do pendor. Anda, a santa, à volta de si mesma, aparentando devoção à imagem de madeira pintada que os crentes levam aos ombros. Dá voltas sobre si mesma e pergunta-se porque está ali, carregada aos ombros doridos de quatro homens robustos mas já entrados na idade, que assim a veneram, e não sabe porquê. Pergunta a santa aos céus o porquê de tanta agitação e flores e ladainhas murmuradas baixinho sob o ritmo cadenciado dos passos da procissão.

A santa que caiu do céu onde nem sabia que estava e agora vê-se ali, pintada a verde e azul e de manto branco pintalgado de estrelas, olhar condoído sobre os males do mundo, e os ombros dos crentes a carregarem-lhe o peso da sua alma vencida que abandonara este mundo às desgraças do mal que o corroía. Voara a santa céus acima até depois das núvens fofas e brancas que espreitavam sobre os milheirais, desistindo de pisar mais a terra molhada onde andara tantos anos a gastar os pés a dar consolo aos aflitos que lhe retribuíram agradecimentos, sorrisos e mais aflição.

Perplexa, a santa, aflita e invisível, abana os homens que a carregam e grita-lhes aos ouvidos para que a oiçam, pergunta-lhes o que fazem que a carregam aos ombros congelada em madeira pintada e olhar fixo e condoído sobre os males do mundo. Não lhe respondem, os crentes que a carregam murmurando ladainhas de dor e esperança, honrando-lhe a memória dos dias idos em que já era santa e não sabia que o era.

A procissão passa-lhe diante dos olhos e vira a curva da aldeia pisando um manto de flores e deixando atrás de si um rasto de incenso e paz, e fica a santa perplexa para trás, fixando o olhar nas costas dos crentes que a seguem lá à frente e não a ouvem agora gritar.

Fica-se a santa de olhos pregados no céu em interrogação, sem saber a que mundo é que pertence e quando a procissão desaparece voa de novo para o céu onde não sabia que estava e dissolve-se nas núvens brancas e fofas que pairam sobre os milheirais.

29 de out de 2009

Paradoxo



Pois seja lá o que for, é um paradoxo uma corda presa a um muro atachada em nó górdio, por um lado, e solta na outra ponta, se bem que continue tesa e elevada no ar, como se de uma daquelas cascavéis encantadas por faquires indianos se tratasse. O que se quer é sempre aquilo que não se tem depois de se obter aquilo que se quis – o alçapão da desgraça do mundo e o resumo, em meia dúzia de sílabas, da causa do sofrimento do mesmo. Cá está, a ponderação sobre a ausência da paixão e do querer, uma das premissas da filosofia budista, que nos acautela para o muito querer como fonte de todo o sofrimento. Nunca entendi esta ausência de desejo, que mata o verde do mundo à nossa volta e transforma a emoção resultante da contemplação da beleza no mero acto contemplativo em si mesmo. Rumo a um samadhi decerto compensatório, pacífico e realizante - mas quem sou eu para saber o que é o quê: aprender a dominar a vontade de não querer mais o que obtenho para querer outra coisa qualquer.

“How to Get What You Want and Want What You Get” é o título de um livro por que passei os olhos neste Verão e que, de repente, mostrou ser uma pérola de sabedoria tanto pragmática como espiritual, resumindo em poucas páginas a essência do ser humano – a minha própria essência ali retratada de forma tão simples. No fundo, somos todos tão parecidos, por vezes.

Cultivo a paciência todos os dias, acto a que me habituei por feitio - paradoxalmente, já agora, impaciente-, e aprendo portanto, acima que tudo, a ter paciência comigo mesma. Já não é mau. E, claro está, acautelar-me para o eterno desejo que está para além do que tenho na palma na mão - mas também para a ausência do mesmo: o fio da navalha do equilíbrio entre a monotonia da existência, aquele tédio de largo bocejo que me faz eriçar os pelos de horror, e a chama voraz de uma existência rápida e demasiadamente recheada de factos. Sim, factos, acontecimentos e afins de teor agitado, transformador e, quiçá, mutante.

Enfim, por hoje é tudo e com esta vou mesmo dormir.

27 de out de 2009

Que descanso


Que descanso vir para aqui escrever e saber que ninguém me lê. Fugir do facebook e do canto escondido da pasta secreta do word no computador onde me escondo em letras de quando em vez, aqui estou a meio caminho entre o anonimato e a histeria facebookiana. Duas e vinte da madrugada, tanta hora à frente por dormir e um dia inteiro amanhã para viver ao segundo de tantas coisas a fazer. Mas fico aqui apenas dois minutos depois de escavar o cinzeiro à procura de uma beata comprida que se possa fumar em mais de três passas para dizer que o mundo acaba todos os dias um bocado de cada vez, mas também renasce todos os dias com a fúria avassaladora dos berros dos recém-nascidos cheios de ganas de viver. Hoje foi um dia desses: de repente, acabou-se o mundo e, de repente outra vez, renasceu das cinzas como a fénix. Ajudou-me a águia que me apareceu aqui feliz e contente e eu de trombas e a águia na dele, não esmoreceu com o meu mau humor e, de repente, contagiou-me de ar e vento e renasceu-me. Quando dei por mim, tinha o mundo aparecido outra vez à minha frente - o mesmo que se tinha eclipsado horas antes. Assim e pronto. Obrigada, águia. Obrigada, céus infinitos que me vão lançando pacotes de maná embrulhados em fitas de seda ou disfarçados de pão duro. Obrigada, assim vivo.

22 de out de 2009

Nada mais


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não havia nada para além daquele horizonte e o mal e o bem dissolviam-se naquela neblina doce que lhe enchia a alma e lhe tocava o ser. Perdida naquela estrada de um só caminho que não procurara nem vira nem achara, era só aquele horizonte que a engolia. Nada mais, nem antes nem depois, nada mais que aquela montanha doce de escarpar e coberta de sombras e mistérios e simplicidade e dor e prazer. Nada mais, apenas aquele horizonte indefinido e cheio de promessas, ladeado por prados amarelecidos pelo tempo e pela dor, aquele horizonte ao qual estava a chegar pisando a estrada em brasa que lhe queimava os pés e lhe feria a alma de alegria e gratidão.

Nada mais, nem antes nem depois.


21 de Julho de 2009.

Assim como eu gosto


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não tens fundo. Melhor que um abismo de arrepios constantes, vejo-te e não te toco o fim com a luz dos meus olhos. Que me acendes todos os dias um pouco mais. Certeiro, sem o saberes, nos passos simples que dás a cada dia, e que me viajam para um lugar que desconheço mas antevejo luminoso e grande, sombrio e grande, deslumbrante e grande, grande como as avenidas rasgadas no meio de uma qualquer selva emaranhada e estranha, abafada de calor insuportável mas as avenidas que a rasgam levam-me ao outro lado sem perigos de mordeduras de serpentes venenosas nem ataques de feras pintalgadas de ocre e preto.

Não tens fundo e os meus olhos vêm-te mais a cada dia que passa e viram a esquina da tua alma sem conseguirem ver o fim, de grande que és, apenas como és, assim, como eu gosto.

Just the way you are. Thank you love.

12 de out de 2009

Vivia num prado verde

Vivia num prado verde e que se estendia entre duas montanhas de tamanho médio, altas o suficiente para que lhe apetecesse escalá-las aos fins de semana com botas apropriadas e uma mochila preparada com lanternas e lanches para o caminho. Cristalino de beleza e eterno verde, nem no Verão os pés caminhavam por outras cores que não fosse o verde molhado e cheio de vida daquele prado que não queria outras cores que não as das flores campestres que, por vezes, lhe iam fazer uma visita. Na Primavera, ao que parecia, e às vezes prolongando-se Verão fora, as flores chegavam e instalavam-se, confortáveis, a apanhar sol, a abrir e fechar pétalas ou a deixar-se ondular pela brisa que soprava.

Tinha tudo o que precisava: o verde do prado, as flores matizadas de todas as cores do arco-iris, o céu que via sempre azul mesmo quando trovejava, as núvens brancas que tomavam a forma de gatos e tartarugas e outros bichos que tais,  por vezes um anjo ou outro que espreitava lá de cima para ver se estava tudo bem no prado verde.

E as suas montanhas, todos os dias diferentes, acordavam a cada dia com um humor diferente e contavam-lhe histórias secretas de ursos dorminhocos e fadas que lá viviam.  Era um sonho bom, deixava-se estar na cama no prado verde pintalgado de flores apesar de ser Outono, e deitava-se sobre o orvalho e deixava as costas molharem-se na frescura da manhã olhando para o céu que via sempre azul e brilhante.

Bom dia, meu amor. Toma esta toalha e limpa as tuas costas molhadas para não te constipares, e leva as minhas flores contigo para que não murchem nunca.

10 de out de 2009

Estou à venda


Estou à venda. Preciso de trocar de alma e corpo e olho agora para um braço e dispenso-o por bom preço. Vendo-me por inteiro, ou por partes. O todo, certamente, será mais em conta, faço um preço especial para quem me levar da cabeça aos pés. Estou à espera, eternamente à espera, depois de conquistas, derrotas e batalhas longas no tempo, e não me vejo. Pelo que me vendo, agora, na esperança de conseguir seguir a cartilha dos dias do comprador e chegar, quem sabe, a uma meta qualquer. Chega-se à meta e depois? Os três primeiros lugares têm direito a medalhas e subida ao pódium, os restantes merecem menções honrosas pelo esforço mas não ficam para a história. Quero lá saber. Uma meta qualquer, pode ser vender carne ao quilo e acumular dinheiro no banco manchado de sangue dos vitelos e borregos, pernis de porco e bifes de peru. Se me comprarem por partes, talvez seja um talhante que me compre para me revender por um preço melhor. Talvez a golpes de faca afiada se me extingam da alma de vez os meus anseios por qualquer coisa indefinida mas que vi um dia nos romances de capa e espada, nas aventuras sem fim, viagens espaciais à velocidade da luz, super homens de poder infinito sobre o mal e que materializam gelados de caramelo na palma da mão quando está calor e preciso de um doce fresco.

Estou à venda, comprem-me e digam-me quem sou.

Toca-me à porta


Foto de Daniel Clark Orey 


Toca-me à porta e diz-me: "amo-te", lá de baixo do intercomunicador. Escreve-me "amo-te", meu amor, escreve-me em palavras de tinta invisível com aquele teu jeito inocente que só tu consegues ter.

Lança-me um papagaio no céu, contrata um daqueles aviões pirosos da praia com o meu nome para que voe sobre o mundo e todos saibam do nosso amor.

Toca-me à porta e diz-me "amo-te", uma só vez, lá de baixo, mas não subas meu amor. Vai-te e foge, mas toca-me à porta primeiro.






Agosto 2009

Tapete Real


Era aquele campo pintalgado de todas as flores que existiam no mundo que se estendia à sua frente como um tapete real.



Desfolhava o ramo de rosas e desfolhava o caderno de encargos da vida nova em que se metera, tudo ao mesmo tempo. Uma pétala por encargo, e as rosas pareciam multiplicar-se a cada folha do caderno que preenchia em letra pequena e aprumada. Ter paciência. Praticar a bondade. Nunca perder as estribeiras. Esperar com um sorriso em cada esquina das horas. Não escrever palavras duras e sarcásticas, não ironizar e nunca, mas nunca deitar-se depois da meia-noite. Era mais ou menos isso e os lírios, contentes, esbranquiçavam as pétalas ainda mais e as dálias espreguiçavam-se à sombra fresca da noite para não murcharem e ganhavam pés de manhã para fugir ao sol estridente.

9 de out de 2009

O que seria do mundo


O que seria do mundo sem as flores que o vestem. Desolado, despido de cor, o mundo árido como as almas que sofrem de frio eterno como se mergulhassem no Inverno perene da Rainha do Gelo. Sem flores, o mundo, ai o mundo sem cores, nem um líro à vista, as árvores sem fruto só dariam galhos secos e os jardins dos ingleses não passariam de relvados de futebol em miniatura.

O Gnomo


Tinha passado a noite a arrastar as fronteiras do tempo para além dos limites do possível. Olhou para o relógio: eram quase seis da manhã, e pensou então que era boa hora para tomar o pequeno almoço: meio pacote de batatas fritas, uma pêra, um folhado de espinafres há 4 dias no frigorífico, tudo isto bem regado com uma caneca de café com leite para ajudar a dormir. Pois tinha de se deitar, por ter de se levantar daí por pouco. Dormiria umas horas, poucas que fossem, para agarrar o mundo às 9h00 da manhã todo de seguida, tarefas encadeadas umas nas outras, tarefas das mais diversas naturezas.

Olhou para o espelho, tinha os dentes verdes. Espinafres, concerteza. Não eram bem os dentes que estavam verdes, era mais uns farripos de espinafres entre os dentes e pensou, por momentos, avistar também uns restos de batatas fritas nos molares de baixo. Que miséria. Devia estar a dormir há horas e no entanto via-se agora ao espelho e não conseguia saber quem era. Tinha o nome bem presente, e os do resto da família, sabia a morada de cor, como de cor conhecia os ingredientes dos cremes que vendia e de cor sabia o valor das facturas a pagar no final de cada semana. Mas não sabia quem era. Quanto mais olhava para os dentes verdes, mais a sua imagem no espelho se desfazia e se tornava numa névoa indistinta que, por sua vez, tomava corpo numa espécie de gnomo da floresta, já as orelhas se alongavam, conseguia agora distinguir a forma pontiaguda que tinham tomado, o cabelo crescera de repente e na cabeça surgira um barrete daqueles dos contos de fadas. Com guizo e tudo.

Aborreceu-se daquilo tudo e voltou-se para sair da casa de banho mas o guizo soou. Parou. Não podia ser, era uma fantasia das seis da manhã depois de uma noite a arrastar fronteiras de tempo. Deu mais dois passos, o guizo lá estava, tlim, tlim, dois passos, tlim, tlim.

Não se quis ver ao espelho de novo, fechou os olhos, lavou os dentes na esperança de retirar o verdete dos espinafres e saiu a correr para a cama onde se deitou e se escondeu entre os lençóis. Nada a fazer: o guizo tocou furiosamente enquanto corria para o quarto, sentiu o barrete de gnomo bem enfiado na cabeça e, quando por fim, estava mesmo quase a adormecer, lançou as mãos às orelhas e apercebeu-se que tinham mesmo crescido e estavam duras, pontiagudas e, pior que tudo, peludas também. Estarrecida de espanto e maravilha pelo tédio dos dias contados se ter agora quebrado, adormeceu por fim feliz.

8 de out de 2009

De Carmelita a Party Girl. A vida muda. Desejo de contemplação: de onde vem a paz?



Era aquela sede de carne que lhe acirrava o desejo. De terço na mão, unhas ilegalmente compridas que arranhava a pele até fazer sangue até o desejo espirrar e morrer de dor. Prostrada no chão chorava pelo Senhor e pela pele entrapada de algodão grosseiro que lhe picava o corpo. De terço na mão, cuspia as avé-marias até ficar sem voz, até lhes esvaziar o sentido. Era aquela cela tão apertada como os campos abertos verdejantes que pisava todos os dias e as praias que se estendiam a perder de vista e o mundo cheio de tudo o que havia para ter. Que importava. Era tudo a mesma cela e trancava-se, agora, aparafusava o ferrolho por dentro, e outro ainda e fechava os trincos em cima e em baixo e fechava as portadas das janelas e colocava um pano preto por cima das frinchas que ousavam deixar passar a luz exígua que teimava em tentar entrar. Deitou-se, depois, e dormiu.


Notar bem: A Maga Patalogika mandou-me este texto lá da Patolândia. Veio na coruja do Harry Potter, a quem eu agora estou a dar amendoins e a cantar canções de embalar para ver se ela dorme e me deixa dormir a mim. Deixou-me este álbum de fotos a propósito do texto: Freira de Carreira

7 de out de 2009

Flores


Com tanta coisa para fazer e aqui estou eu, vidrada no écran a tentar construir este blogue. Só que não me apetece transferir para aqui de corrida os textos todos que tenho escrito ao longo dos últimos meses. Gosto de flores, tenho mesmo a mania das flores. Encontrei este livro que comprei há 20 anos em Washington, D.C. sobre jardinagem. Ao contrário do que se possa imaginar, não há nada de entediante nos textos de um livro que simplesmente fala de flores, de jardins e do prazer e da alegria de tomar conta deles. Se tiver tempo, vou seleccionar uns textos de que gostei particularmente, traduzi-los e publicá-los aqui, juntamente com as ilustrações vitorianas lindíssimas. Por agora, meia dúzia de flores descaradamente roubadas à net. É só clicar neste link:  Flores