4 de nov de 2009

Tenho-te na pele


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Tenho-te na pele. Acaricio-me e vejo-te tremer pois é a ti que toco quando me toco. Estás-me fundido no sangue que me transporta a luz e me alimenta as células, estás lá, alimento-me de ti, meu amor. Estou sentada nesta rocha por cima das falésias que espreitam o mar revolto da existência e não se mexem, tranquilas de conhecerem a agitação perene das ondas, sabendo que sempre será assim, e fundo-me nas rochas serenas, imutáveis na sua sabedoria. Atravesso o mundo para o outro lado e estás comigo, carne da minha carne, não há distâncias que nos separem e o mundo agitado que se banha nas ondas agitadas por baixo das falésias de rocha não nos consegue tocar com a sua ansiedade e tragédias e inconsequência. Com a tua mão na minha percorro desertos de areia onde o calor se evapora e cria névoas de distorção à frente dos meus olhos, mas atravesso-o segura de saber que consigo chegar ao outro lado, encontrando oásis de descanso pelo meio porque estás comigo e não me largas. Deitei fora os livros que me diziam que não existem amores assim e que a vida é para ser vivida um dia de cada vez: vivo-os todos de uma vez, os do passado e os do futuro, agora, vivo-os contigo, minha vida que me és tão para além da vida pequenina da existência cinzenta que recuso. Com a tua mão na minha vivo, assim, sempre.

3 de nov de 2009

Trinta gramas de condimentos


Foto de Miguel Valle de Figueiredo


Eram exactamente trinta gramas de ervas de condimento. Nem 29gr, nem 31gr, a medida exacta do sabor perfeito para aquela combinação de alimentos que estava a preparar. Olhava para o tacho e sabia, gulosa do resultado final, que a medida perfeita das coisas se acha no equíbrio certo entre os diversos sabores. Na vida também era assim e o excesso, ou falta, dos condimentos certos ou das suas medidas exactas é que lhe tinha feito desviar-se do caminho fácil da felicidade pelo prazer de usufruir de todos os sentidos.

Uma mão cheia de flor-de-sal era a medida incontestada para trazer o sabor perfeito à complexidade da receita que lhe saía das mãos. Tantos ingredientes em mãos cheias ou colheres mal medidas, sempre essas na proporção correcta para um apuramento requintado do paladar, já não precisava das colheres-medida ao grama que lhe davam a certeza da matemática química estar a ser respeitada até ao mais ínfimo detalhe. Apuraram-se as mãos ao longo do tempo, transformando-se em medidas precisas da dimensão do espaço e do sabor da vida, e cruzavam-se agora velozes sobre as frigideiras, facas afiadas e tábuas de corte.

 A vida, estendida na tábua dos vegetais, depois de ter passado pela tábua das carnes e evitado a dos peixes por uma mera questão de odor, dissecava-se-lhe agora entre os dedos à velocidade da lâmina que usava com destreza com a mão direita. A esquerda, essa, agarrava firmemente nas pontas da existência por forma a deixar à irmã gémea o espaço de manobra para a precisão cirúrgica e estética do corte da própria vida às rodelas e aos cubos.

Parou. Estancou se súbito a meio do cozinhado e a panela deitou por fora a água a ferver, borbulhando furiosamente e espirrando o calor do inferno por cima dos bicos do fogão e dos seus pés descalços. Soltou um ai de dor intensa, um gemido gritado dos confins da alma e da superfície da pele assim atacada, e calou-se logo de seguida, faca na mão direita, pontas da existência soltas pela esquerda e tomando os seus próprios rumos independentes da sua vontade. Ficou, ali, quieta, muda de querer, olhando para a colher de medidas certas que enchera de condimentos, e largou então uma lágrima salgada para cima da receita que tanto trabalho lhe dera a preparar.

Sabia em teoria que ainda se podia salvar o jantar. Aliás, sabia que mesmo com os pés queimados e a alma manchada de dor conseguiria transformá-lo num banquete requintado e abundante de iguarias ainda por descobrir. Largou então a tábua de corte e sentou-se num canto da cozinha mal iluminado e fechou os olhos, massajou os pés queimados com meio tomate e duas gotas de alfazema e tentou sentir o alívio da cura instantânea dos remédios milagrosos. Um olhar à cozinha inundada de água a ferver e rodelas e cubos espalhados no chão, especiarias derramadas nas bancadas e o desalento instalou-se. Calçou-se, saiu de casa descendo pelas escadas de incêndio, e foi directa a um McDonald’s.

1 de nov de 2009

A Santa


São circulares os passos da santa à volta do pendor. Anda, a santa, à volta de si mesma, aparentando devoção à imagem de madeira pintada que os crentes levam aos ombros. Dá voltas sobre si mesma e pergunta-se porque está ali, carregada aos ombros doridos de quatro homens robustos mas já entrados na idade, que assim a veneram, e não sabe porquê. Pergunta a santa aos céus o porquê de tanta agitação e flores e ladainhas murmuradas baixinho sob o ritmo cadenciado dos passos da procissão.

A santa que caiu do céu onde nem sabia que estava e agora vê-se ali, pintada a verde e azul e de manto branco pintalgado de estrelas, olhar condoído sobre os males do mundo, e os ombros dos crentes a carregarem-lhe o peso da sua alma vencida que abandonara este mundo às desgraças do mal que o corroía. Voara a santa céus acima até depois das núvens fofas e brancas que espreitavam sobre os milheirais, desistindo de pisar mais a terra molhada onde andara tantos anos a gastar os pés a dar consolo aos aflitos que lhe retribuíram agradecimentos, sorrisos e mais aflição.

Perplexa, a santa, aflita e invisível, abana os homens que a carregam e grita-lhes aos ouvidos para que a oiçam, pergunta-lhes o que fazem que a carregam aos ombros congelada em madeira pintada e olhar fixo e condoído sobre os males do mundo. Não lhe respondem, os crentes que a carregam murmurando ladainhas de dor e esperança, honrando-lhe a memória dos dias idos em que já era santa e não sabia que o era.

A procissão passa-lhe diante dos olhos e vira a curva da aldeia pisando um manto de flores e deixando atrás de si um rasto de incenso e paz, e fica a santa perplexa para trás, fixando o olhar nas costas dos crentes que a seguem lá à frente e não a ouvem agora gritar.

Fica-se a santa de olhos pregados no céu em interrogação, sem saber a que mundo é que pertence e quando a procissão desaparece voa de novo para o céu onde não sabia que estava e dissolve-se nas núvens brancas e fofas que pairam sobre os milheirais.

29 de out de 2009

Paradoxo



Pois seja lá o que for, é um paradoxo uma corda presa a um muro atachada em nó górdio, por um lado, e solta na outra ponta, se bem que continue tesa e elevada no ar, como se de uma daquelas cascavéis encantadas por faquires indianos se tratasse. O que se quer é sempre aquilo que não se tem depois de se obter aquilo que se quis – o alçapão da desgraça do mundo e o resumo, em meia dúzia de sílabas, da causa do sofrimento do mesmo. Cá está, a ponderação sobre a ausência da paixão e do querer, uma das premissas da filosofia budista, que nos acautela para o muito querer como fonte de todo o sofrimento. Nunca entendi esta ausência de desejo, que mata o verde do mundo à nossa volta e transforma a emoção resultante da contemplação da beleza no mero acto contemplativo em si mesmo. Rumo a um samadhi decerto compensatório, pacífico e realizante - mas quem sou eu para saber o que é o quê: aprender a dominar a vontade de não querer mais o que obtenho para querer outra coisa qualquer.

“How to Get What You Want and Want What You Get” é o título de um livro por que passei os olhos neste Verão e que, de repente, mostrou ser uma pérola de sabedoria tanto pragmática como espiritual, resumindo em poucas páginas a essência do ser humano – a minha própria essência ali retratada de forma tão simples. No fundo, somos todos tão parecidos, por vezes.

Cultivo a paciência todos os dias, acto a que me habituei por feitio - paradoxalmente, já agora, impaciente-, e aprendo portanto, acima que tudo, a ter paciência comigo mesma. Já não é mau. E, claro está, acautelar-me para o eterno desejo que está para além do que tenho na palma na mão - mas também para a ausência do mesmo: o fio da navalha do equilíbrio entre a monotonia da existência, aquele tédio de largo bocejo que me faz eriçar os pelos de horror, e a chama voraz de uma existência rápida e demasiadamente recheada de factos. Sim, factos, acontecimentos e afins de teor agitado, transformador e, quiçá, mutante.

Enfim, por hoje é tudo e com esta vou mesmo dormir.

27 de out de 2009

Que descanso


Que descanso vir para aqui escrever e saber que ninguém me lê. Fugir do facebook e do canto escondido da pasta secreta do word no computador onde me escondo em letras de quando em vez, aqui estou a meio caminho entre o anonimato e a histeria facebookiana. Duas e vinte da madrugada, tanta hora à frente por dormir e um dia inteiro amanhã para viver ao segundo de tantas coisas a fazer. Mas fico aqui apenas dois minutos depois de escavar o cinzeiro à procura de uma beata comprida que se possa fumar em mais de três passas para dizer que o mundo acaba todos os dias um bocado de cada vez, mas também renasce todos os dias com a fúria avassaladora dos berros dos recém-nascidos cheios de ganas de viver. Hoje foi um dia desses: de repente, acabou-se o mundo e, de repente outra vez, renasceu das cinzas como a fénix. Ajudou-me a águia que me apareceu aqui feliz e contente e eu de trombas e a águia na dele, não esmoreceu com o meu mau humor e, de repente, contagiou-me de ar e vento e renasceu-me. Quando dei por mim, tinha o mundo aparecido outra vez à minha frente - o mesmo que se tinha eclipsado horas antes. Assim e pronto. Obrigada, águia. Obrigada, céus infinitos que me vão lançando pacotes de maná embrulhados em fitas de seda ou disfarçados de pão duro. Obrigada, assim vivo.

22 de out de 2009

Nada mais


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não havia nada para além daquele horizonte e o mal e o bem dissolviam-se naquela neblina doce que lhe enchia a alma e lhe tocava o ser. Perdida naquela estrada de um só caminho que não procurara nem vira nem achara, era só aquele horizonte que a engolia. Nada mais, nem antes nem depois, nada mais que aquela montanha doce de escarpar e coberta de sombras e mistérios e simplicidade e dor e prazer. Nada mais, apenas aquele horizonte indefinido e cheio de promessas, ladeado por prados amarelecidos pelo tempo e pela dor, aquele horizonte ao qual estava a chegar pisando a estrada em brasa que lhe queimava os pés e lhe feria a alma de alegria e gratidão.

Nada mais, nem antes nem depois.


21 de Julho de 2009.

Assim como eu gosto


Foto de Miguel Valle de Figueiredo

Não tens fundo. Melhor que um abismo de arrepios constantes, vejo-te e não te toco o fim com a luz dos meus olhos. Que me acendes todos os dias um pouco mais. Certeiro, sem o saberes, nos passos simples que dás a cada dia, e que me viajam para um lugar que desconheço mas antevejo luminoso e grande, sombrio e grande, deslumbrante e grande, grande como as avenidas rasgadas no meio de uma qualquer selva emaranhada e estranha, abafada de calor insuportável mas as avenidas que a rasgam levam-me ao outro lado sem perigos de mordeduras de serpentes venenosas nem ataques de feras pintalgadas de ocre e preto.

Não tens fundo e os meus olhos vêm-te mais a cada dia que passa e viram a esquina da tua alma sem conseguirem ver o fim, de grande que és, apenas como és, assim, como eu gosto.

Just the way you are. Thank you love.

12 de out de 2009

Vivia num prado verde

Vivia num prado verde e que se estendia entre duas montanhas de tamanho médio, altas o suficiente para que lhe apetecesse escalá-las aos fins de semana com botas apropriadas e uma mochila preparada com lanternas e lanches para o caminho. Cristalino de beleza e eterno verde, nem no Verão os pés caminhavam por outras cores que não fosse o verde molhado e cheio de vida daquele prado que não queria outras cores que não as das flores campestres que, por vezes, lhe iam fazer uma visita. Na Primavera, ao que parecia, e às vezes prolongando-se Verão fora, as flores chegavam e instalavam-se, confortáveis, a apanhar sol, a abrir e fechar pétalas ou a deixar-se ondular pela brisa que soprava.

Tinha tudo o que precisava: o verde do prado, as flores matizadas de todas as cores do arco-iris, o céu que via sempre azul mesmo quando trovejava, as núvens brancas que tomavam a forma de gatos e tartarugas e outros bichos que tais,  por vezes um anjo ou outro que espreitava lá de cima para ver se estava tudo bem no prado verde.

E as suas montanhas, todos os dias diferentes, acordavam a cada dia com um humor diferente e contavam-lhe histórias secretas de ursos dorminhocos e fadas que lá viviam.  Era um sonho bom, deixava-se estar na cama no prado verde pintalgado de flores apesar de ser Outono, e deitava-se sobre o orvalho e deixava as costas molharem-se na frescura da manhã olhando para o céu que via sempre azul e brilhante.

Bom dia, meu amor. Toma esta toalha e limpa as tuas costas molhadas para não te constipares, e leva as minhas flores contigo para que não murchem nunca.

10 de out de 2009

Estou à venda


Estou à venda. Preciso de trocar de alma e corpo e olho agora para um braço e dispenso-o por bom preço. Vendo-me por inteiro, ou por partes. O todo, certamente, será mais em conta, faço um preço especial para quem me levar da cabeça aos pés. Estou à espera, eternamente à espera, depois de conquistas, derrotas e batalhas longas no tempo, e não me vejo. Pelo que me vendo, agora, na esperança de conseguir seguir a cartilha dos dias do comprador e chegar, quem sabe, a uma meta qualquer. Chega-se à meta e depois? Os três primeiros lugares têm direito a medalhas e subida ao pódium, os restantes merecem menções honrosas pelo esforço mas não ficam para a história. Quero lá saber. Uma meta qualquer, pode ser vender carne ao quilo e acumular dinheiro no banco manchado de sangue dos vitelos e borregos, pernis de porco e bifes de peru. Se me comprarem por partes, talvez seja um talhante que me compre para me revender por um preço melhor. Talvez a golpes de faca afiada se me extingam da alma de vez os meus anseios por qualquer coisa indefinida mas que vi um dia nos romances de capa e espada, nas aventuras sem fim, viagens espaciais à velocidade da luz, super homens de poder infinito sobre o mal e que materializam gelados de caramelo na palma da mão quando está calor e preciso de um doce fresco.

Estou à venda, comprem-me e digam-me quem sou.

Toca-me à porta


Foto de Daniel Clark Orey 


Toca-me à porta e diz-me: "amo-te", lá de baixo do intercomunicador. Escreve-me "amo-te", meu amor, escreve-me em palavras de tinta invisível com aquele teu jeito inocente que só tu consegues ter.

Lança-me um papagaio no céu, contrata um daqueles aviões pirosos da praia com o meu nome para que voe sobre o mundo e todos saibam do nosso amor.

Toca-me à porta e diz-me "amo-te", uma só vez, lá de baixo, mas não subas meu amor. Vai-te e foge, mas toca-me à porta primeiro.






Agosto 2009

Tapete Real


Era aquele campo pintalgado de todas as flores que existiam no mundo que se estendia à sua frente como um tapete real.



Desfolhava o ramo de rosas e desfolhava o caderno de encargos da vida nova em que se metera, tudo ao mesmo tempo. Uma pétala por encargo, e as rosas pareciam multiplicar-se a cada folha do caderno que preenchia em letra pequena e aprumada. Ter paciência. Praticar a bondade. Nunca perder as estribeiras. Esperar com um sorriso em cada esquina das horas. Não escrever palavras duras e sarcásticas, não ironizar e nunca, mas nunca deitar-se depois da meia-noite. Era mais ou menos isso e os lírios, contentes, esbranquiçavam as pétalas ainda mais e as dálias espreguiçavam-se à sombra fresca da noite para não murcharem e ganhavam pés de manhã para fugir ao sol estridente.

9 de out de 2009

O que seria do mundo


O que seria do mundo sem as flores que o vestem. Desolado, despido de cor, o mundo árido como as almas que sofrem de frio eterno como se mergulhassem no Inverno perene da Rainha do Gelo. Sem flores, o mundo, ai o mundo sem cores, nem um líro à vista, as árvores sem fruto só dariam galhos secos e os jardins dos ingleses não passariam de relvados de futebol em miniatura.

O Gnomo


Tinha passado a noite a arrastar as fronteiras do tempo para além dos limites do possível. Olhou para o relógio: eram quase seis da manhã, e pensou então que era boa hora para tomar o pequeno almoço: meio pacote de batatas fritas, uma pêra, um folhado de espinafres há 4 dias no frigorífico, tudo isto bem regado com uma caneca de café com leite para ajudar a dormir. Pois tinha de se deitar, por ter de se levantar daí por pouco. Dormiria umas horas, poucas que fossem, para agarrar o mundo às 9h00 da manhã todo de seguida, tarefas encadeadas umas nas outras, tarefas das mais diversas naturezas.

Olhou para o espelho, tinha os dentes verdes. Espinafres, concerteza. Não eram bem os dentes que estavam verdes, era mais uns farripos de espinafres entre os dentes e pensou, por momentos, avistar também uns restos de batatas fritas nos molares de baixo. Que miséria. Devia estar a dormir há horas e no entanto via-se agora ao espelho e não conseguia saber quem era. Tinha o nome bem presente, e os do resto da família, sabia a morada de cor, como de cor conhecia os ingredientes dos cremes que vendia e de cor sabia o valor das facturas a pagar no final de cada semana. Mas não sabia quem era. Quanto mais olhava para os dentes verdes, mais a sua imagem no espelho se desfazia e se tornava numa névoa indistinta que, por sua vez, tomava corpo numa espécie de gnomo da floresta, já as orelhas se alongavam, conseguia agora distinguir a forma pontiaguda que tinham tomado, o cabelo crescera de repente e na cabeça surgira um barrete daqueles dos contos de fadas. Com guizo e tudo.

Aborreceu-se daquilo tudo e voltou-se para sair da casa de banho mas o guizo soou. Parou. Não podia ser, era uma fantasia das seis da manhã depois de uma noite a arrastar fronteiras de tempo. Deu mais dois passos, o guizo lá estava, tlim, tlim, dois passos, tlim, tlim.

Não se quis ver ao espelho de novo, fechou os olhos, lavou os dentes na esperança de retirar o verdete dos espinafres e saiu a correr para a cama onde se deitou e se escondeu entre os lençóis. Nada a fazer: o guizo tocou furiosamente enquanto corria para o quarto, sentiu o barrete de gnomo bem enfiado na cabeça e, quando por fim, estava mesmo quase a adormecer, lançou as mãos às orelhas e apercebeu-se que tinham mesmo crescido e estavam duras, pontiagudas e, pior que tudo, peludas também. Estarrecida de espanto e maravilha pelo tédio dos dias contados se ter agora quebrado, adormeceu por fim feliz.

8 de out de 2009

De Carmelita a Party Girl. A vida muda. Desejo de contemplação: de onde vem a paz?



Era aquela sede de carne que lhe acirrava o desejo. De terço na mão, unhas ilegalmente compridas que arranhava a pele até fazer sangue até o desejo espirrar e morrer de dor. Prostrada no chão chorava pelo Senhor e pela pele entrapada de algodão grosseiro que lhe picava o corpo. De terço na mão, cuspia as avé-marias até ficar sem voz, até lhes esvaziar o sentido. Era aquela cela tão apertada como os campos abertos verdejantes que pisava todos os dias e as praias que se estendiam a perder de vista e o mundo cheio de tudo o que havia para ter. Que importava. Era tudo a mesma cela e trancava-se, agora, aparafusava o ferrolho por dentro, e outro ainda e fechava os trincos em cima e em baixo e fechava as portadas das janelas e colocava um pano preto por cima das frinchas que ousavam deixar passar a luz exígua que teimava em tentar entrar. Deitou-se, depois, e dormiu.


Notar bem: A Maga Patalogika mandou-me este texto lá da Patolândia. Veio na coruja do Harry Potter, a quem eu agora estou a dar amendoins e a cantar canções de embalar para ver se ela dorme e me deixa dormir a mim. Deixou-me este álbum de fotos a propósito do texto: Freira de Carreira

7 de out de 2009

Flores


Com tanta coisa para fazer e aqui estou eu, vidrada no écran a tentar construir este blogue. Só que não me apetece transferir para aqui de corrida os textos todos que tenho escrito ao longo dos últimos meses. Gosto de flores, tenho mesmo a mania das flores. Encontrei este livro que comprei há 20 anos em Washington, D.C. sobre jardinagem. Ao contrário do que se possa imaginar, não há nada de entediante nos textos de um livro que simplesmente fala de flores, de jardins e do prazer e da alegria de tomar conta deles. Se tiver tempo, vou seleccionar uns textos de que gostei particularmente, traduzi-los e publicá-los aqui, juntamente com as ilustrações vitorianas lindíssimas. Por agora, meia dúzia de flores descaradamente roubadas à net. É só clicar neste link:  Flores

Nada


Então era isso. Claro. O óbvio já esperado se bem que não desejado. Era assim, sempre fora, sempre seria. Quase tudo o faria prever, à excepção da dimensão do extraordinário em que acreditara momentaneamente. Para quê. Estava encaixada na vida comum e nada, nada, nada a poderia desagrilhoar da vida de todos os dias que não fosse o seu amor pela liberdade, encarcerada entre quatro paredes, atada de faixas de sangue e memórias e de vida que não a sua, atada, só o pensamento era seu, mais nada, a metáfora do homem livre que é sempre livre porque pensa. Penso, logo sou. Afinal era isso, era. Simplesmente, era. Infelizmente, apenas para benefício próprio, ou nem isso.
Que mais esperar que não o que sempre esperara: um nada vazio despojado absoluto de nada e de desejo que não existia nem existiria nem existira. Maya, fantasia – havia aquela montanha a escalar, e teria de ser escalada. Se calhar agora, por fim. Até ao nada que traz a paz e a satisfação de nada ser. Nada.

Março de 2009

Eu já tenho um blogue: é este


É consolador saber que estas palavras que escrevo neste momento não são lidas por ninguém. Depois da experiência facebook e da reacção imediata por parte de terceiros a todo e qualquer ar da minha graça que fui publicando ao longo do último ano, decidi por fim aceitar a sugestão dos amigos e transferir para um blogue os meus textos. "Cria um blogue, o facebook não é o sítio ideal para publicares as tuas coisas" e frases que tais, com as quais não concordo necessariamente, fizeram-me, no entanto, recordar que eu já tinha aberto este blogue há um ano ou dois, quando me enfureci com a ASAE, a EMEL e o estado das coisas em geral.

Assim, e como não me apetece andar por aí a criar blogues como cogumelos, vou usar este mesmo para compilar os meus escritos. São escritos como os das janelas das casas para alugar: temporários, fugazes, uns dias são outros nem por isso. E, para já, limito-me a fazer copy paste do face para aqui. Depois, se me apetecer e à medida que isso for eventualmente acontecendo, passo a escrevê-los aqui primeiro. Talvez. Just maybe. Aturem-me, se quiserem, e se não quiserem, pois ignorem-me. Sempre é mais pacífico escrever aqui que no face com tanta gente a dizer de sua justiça e de forma imediata. Têm sido, regra geral, generosos e até demais com os comentários à minha veborreia. Quem sabe, aqui, serei apedrejada e mandada de volta para a escola primária - o que seria refrescante e tema para uns belíssimos debates. Seja como for, aqui ficam os textos, por ordem cronológica ao contrário: começo por lançar os últimos que escrevi e vou recuar até aos primeiros. Porque me apetece. E já agora e nada a propósito: Mata-Hari Photo Album aqui

27 de set de 2009

8 de Janeiro de 2008

Crónica de Uma Nação Asséptica - Parte II

Grande Comoção no Casamento da ASAE e da EMEL!
Agitação, Suspense e Crime na Festa do Ano!

O mais badalado acontecimento social do ano, que tantas expectativas criou nos bons e obedientes cidadãos portugueses, acabou num reboliço de emoções que nada fazia prever. Quando, no final do repasto, o Inspector Nunes agarrou na cauda do seu vestido de noiva para se inclinar e depositar um beijo apaixonado nos lábios da consorte, o dono do restaurante onde se fez o copo-de-água e que andava a servir às mesas, insistiu em ir ele mesmo à cozinha buscar o bolo de noiva, num gesto de deferência e respeito para com os recém-casados e... acabou preso!

Isso mesmo, preso! Transgredindo perigosamente as regras de higiene asséptica, o dono do restaurante, levando o seu próprio cócó de cão nas solas dos sapatos para dentro da cozinha do seu próprio restaurante, depois de abrir a torneira do lavatório com as próprias mãos e secando-as, em seguida, com uma toalha de pano (crime dos crimes!), teve o desplante de pegar no bolo de noiva com as próprias mãos e regressar pelo mesmo caminho, sempre com o cócó de cão agarrado às solas dos sapatos, e depositá-lo na mesa das noivas, desfazendo-se em salamaleques e sorrisos!

O que ele foi fazer! De imediato soou o apito e uma brigada de actuação rápida da ASAE, de máscara baixada e uzi em punho, irrompeu pelo restaurante adentro, manietando-o e algemando-o, rosto no chão, mãos atrás das costas... O dono do restaurante só foi levado para a esquadra depois de um agente especial de limpezas da ASAE lhe ter passado um Dodot pelas solas dos sapatos para evitar o perigo de contaminação da carrinha de detenção.

Enquanto isto se passava, um grupo de intervenção especial de fiscais da EMEL multava e rebocava os carros dos convidados, que tinham estacionado ad hoc em redor do restaurante, sem respeitar os risquinhos no chão nem meter moeda no parquímetro. Este tinha sido instalado de véspera, mesmo a tempo das bodas, e as riscas no chão ainda cheiravam a tinta fresca mas, os convidados, que eram todos espanhóis, estiveram-se obviamente nas tintas para a moedinha pelo que acabaram, também eles, todos presos!

Da boda só restaram noivas, que, incompreensivelmente, ninguém prendeu...

1 de Janeiro de 2008

ASAE Casa-se com EMEL
Ministro das Finanças é Padrinho de Casamento!



Depois de muita ponderação e alguma hesitação, pois a Polícia Secreta da Coreia do Norte era uma forte candidata ao lugar de noiva -- por todo o seu carisma, exigência e implacabilidade como garante do cumprimento de deveres e obrigações de cidadãos obedientes--, a ASAE decidiu-se afinal pela porta ao lado, por toda a comodidade e conveniência que daí advém. Até porque vão poder agora as duas de braço dado, nas horas livres, ir fazer concursos para ver quem é que trama mais cidadãos em menor número de horas e quem é que consegue passar mais multas em tempo record e arrecadar mais dinheiro para os cofres do Padrinho!

Dizem, porém, as más línguas, que enquanto a ASAE tenta desesperadamente bater o recorde europeu de "Instituição Que Mais Pequenos Comerciantes Leva à Falência Enquanto Esfrega As Mãos De Contente" querendo contar, para isso, com o apoio emocional da parceira, a EMEL, cega de ambição e já a pensar na glória do brilharete, dá umas rapidinhas à hora do almoço com a Polícia Municipal, com o intuito de chegar a primeiro e indiscutível lugar de "Empresa Pública Europeia Que Mais Carros Reboca e Que Com Mais Dinheiro Contribui Para os Cofres Falidos da Câmara Municipal de Lisboa à Conta do Cidadão Incauto Que Estacionou O Seu carro no Estacionamento das Motas e Ainda Por Cima Tirou Ticket".

Para além da disputa pelo "Título Mais Longo Para Actividade Mais Desprezível", as duas noivas, moderníssimas na sua opção sexual, já têm grandes planos com o Ministro Augusto Santos Silva para tornar a nova tecnologia de TV de Alta Definição num novo Olho que Tudo Vê para assim melhor poderem inspeccionar, a cores e em directo, para dentro das nossas casas, se todos praticamos sexo seguro e lavamos as mãos depois de fazer cócó, e ainda, claro está, se etiquetamos devidamente o nosso fiambre e separamos a roupa branca da escura quando pomos a máquina a lavar. Multas pesadíssimas e falências familiares em massa avizinham-se no horizonte predatório-inspectivo das Brigadas dos Bons Costumes, que tomam o cidadão por atrasado mental em matéria de discernimento, escolha livre e opção, palavras do receituário democrático a que as duas são, por natureza, alheias.

Por essa mesma razão, o Grande Chefe Que Tudo Queria Ver Mas Não Vê Porque Ainda Não Pode está bué reticente de fazer o referendo ao Tratado de Lisboa, não vão os cidadãos, estúpidos, burros e ignorantes como são, decidir por qualquer veleidade, tal como os idiotas dos franceses e dos holandeses não há muito tempo, dizer que não senhora não queremos nada desta Europa tirânica que aí obviamente vem, e por acaso até gostaríamos de ler o texto do dito tratado se para tanto Sua Excelência o Sr. Engenheiro se dignar promover um debate nacional esclarecedor para que todos saibamos exactamente no que nos estamos a meter e podermos decidir se nos queremos, efectivamente, aí meter, ou não.

Falta apenas anunciar que as duas instituições planeiam ter imensos filhos bem comportados, que não fumam nos bares nem nas discotecas, exibem orgulhosamente uma braçadeira azul celeste no braço com 3 lindas estrelas que correspondem à mais alta pontuação outorgada pelo estado aos bons cidadãos, aos que são isentos de vícios, pagam todos os seus impostos com um brilho no olhar e alegria na alma pois sabem que assim contribuem para o bem estar evidente de toda a população e, consequentemente, para a reabertura das Urgências da Anadia, cumprem escrupulosamente o limite de velocidade e nunca, jamais por nunca ser, deixam de pagar ao cêntimo os 10 euros diários dos parquímetros da cidade.

E Viva a Democracia!